Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Aníbal Núñez - Arte Poética

Núñez questiona, nesta reflexão metapoética, a prática mesma da escrita e a validez da linguagem – pois que lhe parece que a poesia não fala sobre as coisas, mas de seu eco ausente –, em versos que submergem na crise da criação, apresentando o poeta como um artesão dubitativo que opera no limite do silêncio, mediante um cálamo em retração.

 

Eis o paradoxo necessário para o vate espanhol: a arte de dizer calando, de criar um objeto sonoro que seja idêntico ao silêncio, de buscar sentidos no frágil “simulacro” das palavras sem transformá-las num símbolo copioso, para que elas possam existir como pura essência, não como ruído que “manche” a realidade sutil e frágil que, por meio delas, tenta-se capturar.

 

J.A.R. – H.C.

 

Aníbal Núñez

(1944-1987)

 

Arte Poética

 

Comenzar: las palabras deslícense. No hay nada

que decir. El sol dora utensilios y fauces.

No es culpable el escriba ni le exalta

gesta o devastación, ni la fortuna

derramó sobre él miel o ceguera.

 

Escribe al otro lado del exiguo gorjeo,

a mano. Busca en torno (fruta, lápices) tema

para seguir. Y sigue – sabe bien que no puede –

haciendo simulacro de afición y coherencia:

la escritura parece (paralela, enlazada)

algo. Un final perdido lo reclama

a medias. Fulge el broche de oro en su cerebro,

desplaza al sol extinto,

toma forma – el escriba cierra los ojos – de

(un moscardón contra el cristal) esquila. (*)

 

Un rebaño invisible y su tañido escoge

entre símbolos varios del silencio; e invoca:

“Mi palabra no manche intervalos de ramas

Y de plumas: no suene.” Terminar el poema.

 

En: “Cuarzo” (1981)

 

O poeta angustiado

(Henry Stacy Marks: artista inglês)

 

Arte Poética

 

Começar: as palavras deslizam. Não há nada

a dizer. O sol doura utensílios e fauces.

Não é culpado o escriba nem o exalta

façanha ou devastação, nem a fortuna

derramou sobre ele mel ou cegueira.

 

Escreve do outro lado do exíguo gorjeio,

à mão. Busca ao redor (fruta, lápis) tema

para continuar. E continua – sabe bem que não pode –

fazendo simulacro de interesse e coerência:

a escrita assemelha-se (paralela, enlaçada)

a algo. Um final perdido reclama-o

parcialmente. O fecho dourado fulge em seu cérebro,

desloca o sol extinto,

toma forma – o escriba fecha os olhos – de

(uma mosca contra o vidro) guizo.

 

Um rebanho invisível, com o seu tilintar, escolhe

entre vários símbolos do silêncio; e invoca:

“Não manche a minha palavra os intervalos de ramos

e de plumas: que não soe”. Terminar o poema.

 

Em: “Quartzo” (1981)

 

Nota:

 

(*). Esquila: sino pequeno tradicionalmente empregado para guiar rebanhos.

 

Referência:

 

Núñez, Aníbal. Arte poética. In: CASANOVA, José Francisco Ruiz (Selección e Introducción). Antología Cátedra de Poesía de las Letras Hispánicas. 8. ed. corregida y aumentada. Madrid, ES: Ediciones Cátedra (Grupo Anaya), 2011. p. 1102.

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