Núñez questiona,
nesta reflexão metapoética, a prática mesma da escrita e a validez da linguagem
– pois que lhe parece que a poesia não fala sobre as coisas, mas de seu eco
ausente –, em versos que submergem na crise da criação, apresentando o poeta
como um artesão dubitativo que opera no limite do silêncio, mediante um cálamo
em retração.
Eis o paradoxo
necessário para o vate espanhol: a arte de dizer calando, de criar um objeto
sonoro que seja idêntico ao silêncio, de buscar sentidos no frágil “simulacro”
das palavras sem transformá-las num símbolo copioso, para que elas possam
existir como pura essência, não como ruído que “manche” a realidade sutil e
frágil que, por meio delas, tenta-se capturar.
J.A.R. – H.C.
Aníbal Núñez
(1944-1987)
Arte Poética
Comenzar: las palabras deslícense. No hay nada
que decir. El sol dora utensilios y fauces.
No es culpable el escriba ni le exalta
gesta o devastación, ni la fortuna
derramó sobre él miel o ceguera.
Escribe al otro lado del exiguo gorjeo,
a mano. Busca en torno (fruta, lápices) tema
para seguir. Y sigue – sabe bien que no puede –
haciendo simulacro de afición y coherencia:
la escritura parece (paralela, enlazada)
algo. Un final perdido lo reclama
a medias. Fulge el broche de oro en su cerebro,
desplaza al sol extinto,
toma forma – el escriba cierra los ojos – de
(un moscardón contra el cristal) esquila. (*)
Un rebaño invisible y
su tañido escoge
entre símbolos varios
del silencio; e invoca:
“Mi palabra no manche
intervalos de ramas
Y de plumas: no
suene.” Terminar el poema.
En: “Cuarzo” (1981)
O poeta angustiado
(Henry Stacy Marks:
artista inglês)
Arte Poética
Começar: as palavras
deslizam. Não há nada
a dizer. O sol doura
utensílios e fauces.
Não é culpado o
escriba nem o exalta
façanha ou
devastação, nem a fortuna
derramou sobre ele
mel ou cegueira.
Escreve do outro lado
do exíguo gorjeio,
à mão. Busca ao redor
(fruta, lápis) tema
para continuar. E
continua – sabe bem que não pode –
fazendo simulacro de interesse
e coerência:
a escrita assemelha-se
(paralela, enlaçada)
a algo. Um final
perdido reclama-o
parcialmente. O fecho
dourado fulge em seu cérebro,
desloca o sol
extinto,
toma forma – o
escriba fecha os olhos – de
(uma mosca contra o
vidro) guizo.
Um rebanho invisível,
com o seu tilintar, escolhe
entre vários símbolos
do silêncio; e invoca:
“Não manche a minha
palavra os intervalos de ramos
e de plumas: que não
soe”. Terminar o poema.
Em: “Quartzo” (1981)
Nota:
(*). Esquila: sino pequeno
tradicionalmente empregado para guiar rebanhos.
Referência:
Núñez, Aníbal. Arte
poética. In: CASANOVA, José Francisco Ruiz (Selección e Introducción). Antología
Cátedra de Poesía de las Letras Hispánicas. 8. ed. corregida y aumentada.
Madrid, ES: Ediciones Cátedra (Grupo Anaya), 2011. p. 1102.
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