Tenha-se em mente, de
início, que o excerto da intitulada peça do bardo – a que diz respeito a postagem
de hoje –, é uma das falas mais antologiadas da história do Teatro, pertencendo
à figura de Jaques, um Lord sorumbático que acompanha o Duque Sênior em exílio na
Floresta de Arden.
Trata-se de um espectador,
mais do que um participante do mundo, figura arquetípica daqueles que se
deleitam em encontrar exemplos de estupidezes e vaidades humanas para descerrar
suas críticas – isso em meio a uma comédia pastoral repleta de amor,
reconciliação e, claro, final feliz.
No infratranscrito
monólogo, o “Monsieur Melancólico” – como o chama Rosalinda – discursa sobre os
sete atos da vida humana, desde o bebê que chora, no colo da ama, até a segunda
infância, “sem dentes, sem visão, sem paladar, sem tudo”: tem-se, assim, uma
visão desencantada da existência como uma comédia trágica e previsível, ao
longo da qual o ser humano avança inexoravelmente de uma dependência indigna a
outra, havendo interpretado no caminho uma séria de papéis vazios.
Com efeito, a vida seria
“um palco” onde representamos papéis – muitas das vezes pré-determinados pela
sociedade, pela natureza ou pelo destino –, o que nos leva a exibirmos
diferentes facetas em função das circunstâncias, dando ensejo a que muitos
passem a questionar se, por trás de todas essas “personas”, haveria de fato um sujeito
autêntico.
J.A.R. – H.C.
William Shakespeare
Retrato atribuído a
John Taylor
(1564-1616)
Jaques (Act 2, Scene 7)
All the world’s a
stage,
And all the men and
women merely players.
They have their exits
and their entrances,
And one man in his
time plays many parts,
His acts being seven
ages. At first the infant,
Mewling and puking in
the nurse’s arms.
Then the whining schoolboy
with his satchel
And shining morning
face, creeping like snail
Unwillingly to
school. And then the lover,
Sighing like furnace,
with a woeful ballad
Made to his mistress’
eyebrow. Then a soldier,
Full of strange oaths
and bearded like the pard,
Jealous in honor,
sudden and quick in quarrel,
Seeking the bubble
reputation
Even in the cannon’s
mouth. And then the justice,
In fair round belly
with good capon lined,
With eyes severe and
beard of formal cut,
Full of wise saws and
modern instances;
And so he plays his
part. The sixth age shifts
Into the lean and
slippered pantaloon
With spectacles on
nose and pouch on side,
His youthful hose,
well saved, a world too wide
For his shrunk shank,
and his big manly voice,
Turning again toward
childish treble, pipes
And whistles in his
sound. Last scene of all,
That ends this
strange eventful history,
Is second
childishness and mere oblivion,
Sans teeth, sans
eyes, sans taste, sans everything.
A vida é um palco
(Ralitsa Raykova:
artista búlgara)
Jaques (Ato 2, Cena 7)
O mundo é um palco(1)
e todos os homens e mulheres são na verdade atores: têm suas saídas e suas
entradas e no decorrer da vida atuam em vários papéis, cada ato correspondendo
a sete idades.(2) Primeiro a criança, choramingando e regurgitando
no colo da babá; depois o aluno contrariado, com sua pasta e seu rosto travesso
matinal, arrastando-se como lesma para a escola; então o amante, suspirando
como uma fornalha, entoando uma canção dolente em louvor dos cílios da amada; aí
o soldado, cheio de juras estranhas e barba de leopardo, zeloso da sua honra,
impetuoso e pronto para a briga, buscando a fama fugaz, nem que seja na boca do
canhão; e depois o juiz, com a barriga bem forrada de frango, olhos severos e
barba bem cuidada, cheio de ditos sábios e banalidades – e assim ele cumpre o
seu papel; na sexta idade o cenário muda: magros pijamas, chinelos, óculos no
nariz e bolsa a tiracolo, o vigor da mocidade já guardado – um mundo tão vasto
para pernas tão fracas – sua voz máscula, retomando o balbuciar infantil, apita
e chia ao falar; a última cena, que encerra esta história estranha e agitada, é
a segunda infância e o mero esquecimento, sem dentes, sem olhos, sem sabor, sem
nada.
Notas do Tradutor Rafael
Raffaelli:
(1). A comparação
entre a vida humana em sociedade e o teatro é um lugar-comum na literatura
europeia do século XVII, como na obra do poeta conceptista espanhol Francisco
de Quevedo, entre outros. Supõe-se que o emblema do teatro Globe fosse
Hércules suportando o mundo com a inscrição: “Totus mundus agit histrionem”,
i.e., “o mundo todo age como ator”. Talvez a mais conhecida das
passagens sobre o tema em Shakespeare encontre-se em Macbeth. (n.r. 120,
p. 54)
(2). Hipócrates foi o
primeiro a dividir a vida humana em sete estágios ou idades e Jaques os associa
aos atos de uma peça teatral. As sete idades também estão tradicionalmente vinculadas
ao sistema solar, mas Jaques não cita os planetas correspondentes a cada uma, nem
faz referência à idade da razão, governada pelo Sol (Apolo); também não faz
apologia da vida campestre. (n.r. 121, p. 54)
Referências:
Em Inglês
SHAKESPEARE, William.
[All the world’s a stage], from As you like it - act 2, scene 7. Edited
by Barbara A. Mowat and Paul Werstine. New York, NY: Washington Square Press,
jul. 2004. p. 83. (‘Folger Shakespeare Library’).
Em Português
SHAKESPEARE, William.
[O mundo é um palco], de Do jeito que você gosta - ato 2, cena 7.
Tradução de Rafael Raffaelli. Florianópolis, SC: Editora da UFSC, 2011. p. 54-55.
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