Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 4 de outubro de 2026

François Mauriac - Os Livros

Nestes versos que retratam, em boa medida, a jornada espiritual de Mauriac, tem-se uma autobiografia construída através dos livros que lhe marcaram a vida – obras de Tomás de Kempis, Paul Verlaine, Blaise Pascal, um simples missal e os Evangelhos –, verdadeiros relicários de seu passado, mapas de sua fé e veículos de uma busca religiosa tendente a oscilar entre a dúvida e a graça, entre a miséria e a grandeza.

 

Percebe-se no poema a sôfrega dialética da alma, entretecida por meio de múltiplas tensões – razão/mística, miséria/grandeza, tédio/êxtase, noite/abraço –, típica da condição humana, de um coração em trevas que busca desesperadamente a luz, a plena redenção, num gesto urgente de abandono e de total entrega aos cuidados do Eterno.

 

J.A.R. – H.C.

 

François Mauriac

(1885-1970)

 

Les Livres

 

Voici l’Imitation de Jésus-Christ(1), où git

Tout mon passé d’enfant mystique et raisonnable.

Voici les vers du pauvre Verlaine assagi –

Ces vers lourds des sanglots d’un amour ineffable.

Pascal me va guider en la nuit de mon coeur

Vers des infinis de misère et de grandeur.

 

Et voici mon missel, dont j’ai lu chaque page

Aux vêpres(2) du Collège, en la lourde chaleur,

Avec des noms d’enfants sur de vieilles images

En ivoire, où l’on voit un calice et des fleurs.

 

On y lisait des approbations d’évêque(3)

Et les prières pour la pluie et le beau temps,

Aux vêpres du Collège où l’on s’endormait presque

Dans les dimanches clairs et lourds d’anciens printemps.

 

Et voici l’Évangile, enfin – inépuisable

Source où vient s’abreuver mon âme misérable,

Où je vous vois rêvant aux margelles des puits,

Prêchant sur la montagne et calmant la tempête,

Mon Seigneur et mon Dieu, qui venez vers ma nuit

Et qui m’ouvrez vos bras afin que je m’y jette!

 

Oração na Igreja

(Gerard Sekoto: artista sul-africano)

 

Os Livros

 

Eis aqui a “Imitação de Jesus Cristo”, onde repousa

Todo o meu passado de infante místico e sensato.

Eis aqui os versos do pobre e serenado Verlaine –

Versos refertos pelos soluços de um amor inefável.

Pela noite de meu coração tenho Pascal por guia,

Rumo às trilhas infinitas da miséria e da grandeza.

 

E cá está o meu missal, do qual li cada página

Nos Vesperais do Colégio, sob um calor sufocante,

Com os nomes dos meninos sobre velhas imagens

Em marfim, a saber, um cálice rodeado por flores.

 

Nos aludidos Vesperais, tomados por algum letargo,

Em domingos claros e graves de remotas primaveras,

Nele podíamos ler o “nada obsta” do censor episcopal

E as orações pelo bom tempo e pelas chuvas.

 

E eis, por fim, o Evangelho – fonte inesgotável

Onde vem saciar-se a minha miseranda alma –,

Onde vos vejo a sonhar nas bordas dos poços,

A pregar no monte e a aquietar a tempestade,

Meu Senhor e meu Deus, que adentrais minha noite

e me abris vossos braços para neles arrojar-me!

 

Notas:

 

(1). Referência à famosa obra “Imitação de Cristo”, do monge alemão Tomás de Kempis (1380-1471).

 

(2). Vêpres: Vesperais, termo litúrgico para uma parte do Ofício Divino (ou Liturgia das Horas), uma celebração que acontece geralmente entre 15h e 18h, ou próximo ao pôr do sol.

 

(3). Approbations d’évêque: Literalmente “Aprovações do bispo”, uma prática histórica específica da Igreja Católica, segundo a qual um tomo religioso – como um missal, um catecismo ou um livro de devoção –, antes de ser publicado e utilizado pelos fiéis, deve sempre passar por uma censura eclesiástica, para garantir que se encontre em conformidade com a doutrina.

 

Referência:

 

MAURIAC, François. Les livres. In: __________. Œuvres complètes: t. VI (Les mains jointes). Paris, FR: Librairie Arthème Fayard, 1950. p. 351-352.

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