Nestes versos que retratam,
em boa medida, a jornada espiritual de Mauriac, tem-se uma autobiografia
construída através dos livros que lhe marcaram a vida – obras de Tomás de
Kempis, Paul Verlaine, Blaise Pascal, um simples missal e os Evangelhos –,
verdadeiros relicários de seu passado, mapas de sua fé e veículos de uma busca
religiosa tendente a oscilar entre a dúvida e a graça, entre a miséria e a
grandeza.
Percebe-se no poema a
sôfrega dialética da alma, entretecida por meio de múltiplas tensões – razão/mística,
miséria/grandeza, tédio/êxtase, noite/abraço –, típica da condição humana, de
um coração em trevas que busca desesperadamente a luz, a plena redenção, num
gesto urgente de abandono e de total entrega aos cuidados do Eterno.
J.A.R. – H.C.
François Mauriac
(1885-1970)
Les Livres
Voici l’Imitation de
Jésus-Christ(1), où git
Tout mon passé
d’enfant mystique et raisonnable.
Voici les vers du
pauvre Verlaine assagi –
Ces vers lourds des
sanglots d’un amour ineffable.
Pascal me va guider
en la nuit de mon coeur
Vers des infinis de
misère et de grandeur.
Et voici mon missel,
dont j’ai lu chaque page
Aux vêpres(2)
du Collège, en la lourde chaleur,
Avec des noms
d’enfants sur de vieilles images
En ivoire, où l’on
voit un calice et des fleurs.
On y lisait des
approbations d’évêque(3)
Et les prières pour
la pluie et le beau temps,
Aux vêpres du Collège
où l’on s’endormait presque
Dans les dimanches
clairs et lourds d’anciens printemps.
Et voici l’Évangile,
enfin – inépuisable
Source où vient
s’abreuver mon âme misérable,
Où je vous vois
rêvant aux margelles des puits,
Prêchant sur la
montagne et calmant la tempête,
Mon Seigneur et mon
Dieu, qui venez vers ma nuit
Et qui m’ouvrez vos
bras afin que je m’y jette!
Oração na Igreja
(Gerard Sekoto:
artista sul-africano)
Os Livros
Eis aqui a “Imitação
de Jesus Cristo”, onde repousa
Todo o meu passado de
infante místico e sensato.
Eis aqui os versos do
pobre e serenado Verlaine –
Versos refertos pelos
soluços de um amor inefável.
Pela noite de meu
coração tenho Pascal por guia,
Rumo às trilhas
infinitas da miséria e da grandeza.
E cá está o meu
missal, do qual li cada página
Nos Vesperais do Colégio,
sob um calor sufocante,
Com os nomes dos
meninos sobre velhas imagens
Em marfim, a saber, um
cálice rodeado por flores.
Nos aludidos
Vesperais, tomados por algum letargo,
Em domingos claros e
graves de remotas primaveras,
Nele podíamos ler o
“nada obsta” do censor episcopal
E as orações pelo bom
tempo e pelas chuvas.
E eis, por fim, o
Evangelho – fonte inesgotável
Onde vem saciar-se a
minha miseranda alma –,
Onde vos vejo a
sonhar nas bordas dos poços,
A pregar no monte e a
aquietar a tempestade,
Meu Senhor e meu Deus,
que adentrais minha noite
e me abris vossos
braços para neles arrojar-me!
Notas:
(1). Referência à
famosa obra “Imitação de Cristo”, do monge alemão Tomás de Kempis (1380-1471).
(2). Vêpres:
Vesperais, termo litúrgico para uma parte do Ofício Divino (ou Liturgia das
Horas), uma celebração que acontece geralmente entre 15h e 18h, ou próximo ao
pôr do sol.
(3). Approbations
d’évêque: Literalmente “Aprovações do bispo”, uma prática histórica específica
da Igreja Católica, segundo a qual um tomo religioso – como um missal, um
catecismo ou um livro de devoção –, antes de ser publicado e utilizado pelos
fiéis, deve sempre passar por uma censura eclesiástica, para garantir que se
encontre em conformidade com a doutrina.
Referência:
MAURIAC, François. Les livres. In: __________. Œuvres complètes: t. VI (Les mains jointes). Paris, FR: Librairie Arthème Fayard, 1950. p. 351-352.
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