Alpes Literários

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Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Elisa Andrade Buzzo - Escrever é combinar palavras

A poetisa paulistana vislumbra a escrita como um processo de resistência, um parto doloroso, embora necessário, no qual a voz se afirma “impassível” diante do caos quotidiano, dispondo-se a recolher fragmentos dispersos da vida para os transformar em caminhos de sentido, tal que se tem em reforço, ao fim e ao cabo, a ideia de que a poesia não nasce por obra e graça do sopro inspirador das musas, mas do suor e da disposição do poeta (ou poetisa, como no caso) em se entregar amorosamente ao poema, “num contato esguio”.

 

Buzzo descreve o processo criativo bem mais como um esforço corporal do que cerebral, para o qual arregimenta os “cacos” e os “ladrilhos pisados” de sua arqueologia pessoal, incorporando-os à faina física demandada pela luta com as palavras, de que resultam transpirações e suores, incorporados como tempero à obra, até que, um tanto a fórceps, venha a despontar o poema com a sua “lança ferina” – vivo, perigoso e belo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Elisa Andrade Buzzo

(n. 1981)

 

Escrever é combinar palavras

 

E quando acaba a vontade

De dizer

Sobram sons guturais

 

E quando esqueço

A razão

Me calo

 

Na linha

Murmúrios

Tecem telegrafia

 

Uma voz

Longínqua

Lança um laço

Pescoço arredio

Eu corro

Deserta

 

O não-dizer

Dita

Sentença de morte

 

Haja vontade

Esboço de gesto

Nesta combinação

Surda

 

Lentamente recupero

A vontade de exprimir

Um parecer

 

Solto fagulhas

Recomeço

A luta pela fala diária

 

Rio

No escritório

Vermelho

 

Preto

E branco

Nas caIçadas

 

Saltito

Os acenos

Até logo

 

Leio o futuro

Na manteiga

Do pão

 

Tagarelo

Mil palavras estilhaçadas

Cortantes

 

Nos papéis escrevo meu nome

Deixo minha vida paleográfica

 

Minhas combinações

Documentais

Têm escrita livrária

 

Minhas articulações

Suam roucas

De gralha

Raízes revelam

Memórias guardadas

Vidas antigas

 

A construção

Começa

Na vida jogada

 

Recolho

Os cacos

Dispersos nas ruas

 

Seleciono

Ladrilhos

Pisados

 

Grafite em punho

Bruto, rasgo seivas

Elaboro finos caminhos

 

Ouso amar o poema

Num contato esguio

 

Sugo água açucarada

Sobre amargurada casca

 

Atenção está na hora do ato

O parto

Do código de conduta

 

Embalado pelos líquidos

Dos humores

 

O poema desponta

Sua lança ferina

 

Cada palavra

Leva

Uma medida

 

Sopa na surdina

Sim, senhor

 

Temperada

Com suor

 

Flor do povo

Brota no poeta

 

Perdiz rodeia

Velhos motes

Exercitando

As penas

As pernas

Já sentem

A altura do céu

 

Versos de vidro

Versos de tinta

 

Ladeado por risos

Embebido em prantos

 

Eu canto

 

Impassível

 

Puzzle

(Adam Frezza & Terri Chiao: artistas norte-americanos)

 

Referência:

 

BUZZO, Elisa Andrade. Escrever é combinar palavras. In: CERÓN, Rocío (Ed.). Caos portátil: poesía contemporánea del Brasil. Edición bilingüe: portugués x español. Selección de Camila do Valle y Cecilia Pavón. Traducción de Cecilia Pavón. 1. ed. México, MX: Ediciones El billar de Lucrecia, 2007. p. 18, 20, 22, 24, 26 e 28.

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