Neste breve poema, o
escritor mineiro, empregando a metáfora de uma escalada, oferece-nos uma
crítica mordaz e desencantada sobre a dinâmica perversa de inveja, sabotagem e
vazio que, quase invariavelmente, domina o mundo da arte (além de outros âmbitos
competitivos, é claro!).
Sant’Anna censura a
falta de solidariedade no domínio em questão, bem assim a transformação do
ascenso profissional em uma degradação ética, ou melhor, uma pugna
individualista de baixas paixões, em cujos dédalos a maior conquista não é a excelência
da criação, senão haver escapado – ainda que temporariamente – da destruição propinada
pelos próprios pares.
Tal é o preço do
êxito na seara artística: um triunfo oco e amargo, conquistado à custa da
integridade e sob a constante ameaça de vir a ser derrubado. Em suma: por trás
da ideia romântica ou idealizada da vida de um artista, o que há, de fato, é
uma luta darwiniana por sobrevivência, na qual prevalece a lei do mais forte ou
do mais desapiedado.
J.A.R. – H.C.
Affonso Romano de Sant’Anna
(1937-2025)
Vida artística
Queriam escalar a
montanha
como quem fugisse de
um afogamento.
Mas ao invés de oferecerem
os ombros
para que os pés dos
outros se elevassem
puxavam para baixo
tentando impedir
que os demais
galgassem.
Assim a escalada para
cima
era para baixo uma
escalada
e os que chegavam ao
topo
ao invés de se
extasiarem com as alturas
e a beleza dos
lugares
rejubilavam-se, por
algum tempo
de não terem sido
ainda destruídos por seus pares.
(Imagem sem créditos)
Referência:
SANT’ANNA, Affonso Romano de. Vida artística. Fórnix: revista de creación y crítica. Edición bilingüe: Portugués x Español. Lima (PE): Editorial Nido de Cuervos, n. 13, oct. 2013. p. 10. (“Brasil en el II Fiplima”)
❁


Nenhum comentário:
Postar um comentário