Melville concede a
este seu poema uma aura de sabedoria arcana e de mistério, sugerindo verdades
ocultas propaladas pelo gnosticismo, uma corrente filosófico-religiosa que via
o mundo material como uma criação defeituosa ou inclusive maligna, aprisionando
chispas de luz divina – no caso, o espírito humano.
Apresentadas como “perdidas”
e “fragmentárias”, suas estrofes albergam as ideias: (i) de futilidade dos
construtos humanos – nomeadamente as estruturas sociais e políticas – frente à
matéria, a qual, com suas leis de decadência, morte e sofrimento, sempre
reclamará seu tributo e os reduzirá a pó; e (ii) concernentes a uma inversão
dos valores, típica do gnosticismo radical, a contemplar a ação como um meio de
perpetuar e expandir tal sistema material espúrio, motivo pelo qual a inação
acaba por converter-se, paradoxalmente, na postura mais virtuosa, por não
sujeitar a alma às cadeias desta prisão mundana, com o que se espera evitar que
a alma se contamine e possa se aproximar de sua libertação espiritual.
Veja-se a entonação
presente nos dois derradeiros versos, devastadora e central para o poema: ainda
que com pureza de intenções, a bondade, a caridade, ou mais extensivamente, as
virtudes convencionais, sedimentadas no esforço para melhorar este mundo
corrupto e imperfeito, somente o mantêm em funcionamento, sustentando as
sobreditas estruturas que fomentam o sofrimento, convertendo-se, desse modo, em
cúmplices involuntárias do mesmo sistema que pretendem sanar.
J.A.R. – H.C.
(1819-1891)
Fragments of a Lost
Gnostic Poem
of the 12th Century
* * * *
Found a family, build
a state,
The pledged event is
still the same:
Matter in end will
never abate
His ancient brutal
claim.
* * * *
Indolence is heaven’s
ally here,
And energy the child
of hell:
The Good Man pouring
from his pitcher clear
But brims the
poisoned well.
Corrupção
Fragmentos de um
Poema Gnóstico Perdido
do Século XII
* * * *
Constituir uma
família, erigir um Estado,
O propósito declarado
ainda é o mesmo:
A matéria, ao final,
jamais renunciará
À sua antiga e brutal
reivindicação.
* * * *
A indolência é aqui a
aliada do céu,
E a energia, a herdeira
do inferno:
O Bom Homem verte
água de seu cântaro impoluto,
Mas acaba por
transbordar o poço envenenado.
Referência:
MELVILLE, Herman. Fragments of a lost gnostic poem of the 12th century. In: __________. Selected poems. Edited by F. O. Matthiessen. Norfolk, CT: New Directions, 1944. p. 19. (“The Poets of the Year”)
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