Com economia de palavras,
o poeta italiano mostra-nos como a admiração pode tornar-se possessão
destrutiva quando as expectativas não se cumprem, colocando em polos antagônicos
a beleza natural e a liberdade de uma borboleta e a crueldade latente de um
observador que a esmigalha em uma das mãos, assim que o lepidóptero cai numa
espécie de imobilidade forçada.
Vemos, assim, como o
deslumbre pode se converter num ato exacerbado, até mesmo mefistofélico, contra
um ser indefeso: da contemplação pura à perda de paciência e à frustração,
resultando, por fim, na determinação disruptiva – como se o observador conjecturasse
“se não é capaz de voar, um atributo próprio de sua essência, este ser não merece
existir como borboleta”.
Mas não há grandeza
alguma em tal “decisão suprema”, apenas disposição niilista e extermínio gratuito!
J.A.R. – H.C.
Gaetano Longo
(n. 1964)
Decisione suprema
Una farfalla
con ali dai mille
colori
ferma su un foglio.
Lui la guarda,
l’ammira.
Il tempo si è
fermato.
Una farfalla
con ali dai mille
colori.
Lui la guarda,
immobile.
Attende il gran volo.
Il tempo
è svanito.
Una farfalla
con ali dai mille
colori
e non può volare.
Lui la guarda
e con un pugno la
schiaccia.
O velho e a borboleta
(Elizabeth Samuel: artista
indiana)
Decisão suprema
Uma borboleta
com asas de mil cores
pousa sobre uma
folha.
Ele a olha,
a admira.
O tempo está parado.
Uma borboleta
com asas de mil cores.
Ele a olha,
imóvel.
Aguarda o grande voo.
O tempo
esvaiu-se.
Uma borboleta
com asas de mil cores
e não pode voar.
Ele a olha
e com o punho a
esmigalha.
Referência:
LONGO, Gaetano.
Decisione suprema / Decisão suprema. Tradução de José Eduardo Degrazia. In:
DEGRAZIA, José Eduardo (Organização e Tradução). Poeti italiani
contemporanei: poesie scelte / Poetas italianos contemporâneos: poesias
escolhidas. Porto Alegre, RS: Sagra-Luzzatto, 1995. Em italiano: p. 88; em
português: p. 89.
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