Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 13 de junho de 2026

Rudyard Kipling - A Vampira

Tendo por inspiração uma tela do pintor inglês Philip Burne-Jones (1861-1926), na qual se mostra um homem sendo consumido por uma mulher vampírica, refletindo ansiedades vitorianas sobre a “femme fatale”, Kipling, nas linhas e entrelinhas deste poema, traslada tal metáfora ao âmbito de uma destruição emocional, digo melhor, às tintas de uma relação desigual de amor não correspondido com alguém afetivamente indiferente e ausente, incapaz de compreender os sentimentos e sacrifícios do “tolo” ao seu lado.

 

Curiosamente, o autor nunca usa a palavra “vampira” no corpo do poema, embora, à vista do exposto, caracterize a mulher com uma imagem fria, descarnada e carente de alma, junto a quem o companheiro não experimenta os prazeres de um convívio saudável, senão apenas sobrevive fisicamente, já que emocional e espiritualmente arruinado.

 

Ao final, a dolorosa constatação: o relacionamento não passou de um monólogo trágico, haja vista o absoluto alheamento da companheira (ou – por que não? – num vice-versa extensivo, do companheiro), indolente e insensível, a tudo consumir sem dar nada em troca, sem sequer estar consciente dos danos provocados.

 

J.A.R. – H.C.

 

Rudyard Kipling

(1865-1936)

 

The Vampire

 

The verses: as suggested by the painting by

Philip Burne-Jones.

 

A fool there was and he made his prayer

(Even as you and I!)

To a rag and a bone and a hank of hair

(We called her the woman who did not care)

But the fool he called her his lady fair –

(Even as you and I!)

 

Oh, the years we waste and the tears we waste

And the work of our head and hand

Belong to the woman who did not know

(And now we know that she never could know)

And did not understand!

 

A fool there was and his goods he spent

(Even as you and I!)

Honour and faith and a sure intent

(And it wasn’t the least what the lady meant)

But a fool must follow his natural bent

(Even as you and I!)

 

Oh, the toil we lost and the spoil we lost

And the excellent things we planned

Belong to the woman who didn’t know why

(And now we know that she never knew why)

And did not understand!

 

The fool was stripped to his foolish hide

(Even as you and I!)

Which she might have seen when she threw him aside –

(But it isn’t on record the lady tried)

So some of him lived but the most of him died –

(Even as you and I!)

 

And it isn’t the shame and it isn’t the blame

That stings like a white-hot brand –

It’s coming to know that she never knew why

(Seeing, at last, she could never know why)

And never could understand!

 

A Vampira

(Philip Burne-Jones: pintor inglês)

 

A Vampira

 

Os versos: como sugerido pela pintura de

Philip Burne-Jones.

 

Um tolo havia que dirigia preces

(Assim como você e eu!)

A uma mescla de trapos, ossos e mechas de cabelo,

(Nós a víamos como uma mulher descuidada),

Mas o tolo chamava-lhe a sua bela senhora –

(Assim como você e eu!)

 

Oh, os anos e as lágrimas que desperdiçamos

E os labores de nossas mãos e da mente

Pertencem àquela mulher que não os reconhecia

(E agora sabemos que nunca os poderia reconhecer)

E nem os compreender!

 

Havia um tolo que dissipava os seus haveres,

(Assim como você e eu!)

Honra, fidelidade e probos intentos

(E não era nem de longe o que a dama valorava)

Mas um tolo deve seguir o seu pendor natural

(Assim como você e eu!)

 

Oh, a baldada labuta e os esbulhos que sofremos,

E aquilo que em excelência planejamos,

Pertencem àquela mulher que não lhes discernia as razões

(E agora sabemos que nunca as poderia discernir)

E nem as compreender!

 

O tolo foi despojado até a sua nudez insana,

(Assim como você e eu!)

O que talvez ela bem visse quando o pôs de lado –

(Embora não haja registro de que tencionasse deixá-lo)

Então, parte dele subsistiu, mas sua essência expirou –

(Assim como você e eu!)

 

E não é a vergonha, tampouco a culpa,

Que laceram como um ferro em brasa –

Mas vir a saber que ela nunca discernia as aludidas razões

(Visto que, em suma, jamais as poderia discernir)

E de modo algum as compreender!

 

Referência:

 

KIPLING, Rudyard. The vampire. In: __________. Poems of Rudyard Kipling. With a biographical introduction by Nathan Haskell Dole. New York, NY: Thomas Y. Crowell & Co. Publ., [1899]. p. 268-269.

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