Hesse captura nestes
versos, com rara precisão, a agonia de quem, tendo dominado a arte da máscara e
da autocrítica racional, descobre que perdeu o contato com as fontes vitais de
sua própria alma, com aquilo que confere a cada ser humano a sua autenticidade:
a emoção espontânea, a intuição, o mistério dos sonhos e a capacidade de expressar
emoções genuínas.
Eis aí os perigos de
um autoconhecimento que, em vez de libertar, encarcera o espírito numa luta
inglória entre o eu consciente – controlador e analítico – e o eu inconsciente –
sensitivo, livre do cálculo e do autoexame –, em desfavor deste último, pelo
que, em decorrência, se elimina quaisquer surpresas ou mistérios nas
profundezas do ser, tornando a vida interior mecânica, estéril, até mesmo previsível.
J.A.R. – H.C.
Hermann Hesse
(1877-1962)
Das ist mein Leid
Das ist mein Leid,
daß ich in allzuvielen
Bemalten Masken
allzugut zu spielen
Und mich und andre
allzugut
Zu täuschen lernte.
Keine leise Regung
Zuckt in mir auf und
keines Lieds Bewegung,
In der nicht Spiel
und Absicht ruht.
Das muss ich meinen
Jammer nennen:
Mich selber so ins
Innerste zu kennen,
vorwissend jedes
Pulses Schlag,
dass keines Traumes unbewusste
Mahnung
und keiner Lust und
Leides Ahnung
mir mehr die Seele
rühren mag.
Autorretrato
ou Homem caminhando à
noite
(Edvar Munch: pintor
norueguês)
Esta é a minha mágoa
Esta é a minha mágoa:
com tão numerosas
máscaras ter representado
tanto,
a mim e aos outros
igualmente bem
ter sabido enganar.
Em mim não há
qualquer gesto ou
qualquer menção de canto
sem algum truque ou
segunda intenção.
Devo dizer que é esta
a minha desgraça:
conhecer o meu íntimo
tão bem,
antessabendo cada
batida do pulso,
que não há símbolo
inconsciente de sonho,
nem perspectiva de
alegria ou de tristeza,
capaz de alvoroçar-me
ainda o coração.
Referências:
Em Alemão
HESSE, Hermann. Das
ist mein leid. In: __________. Die gedichte von Hermann Hesse. Zürich,
CH: Fretz & Wasmuth, 1942. s. 104.
Em Português
HESSE, Hermann. Esta
é a minha mágoa. Tradução de Geir Campos. In: __________. Andares:
antologia poética. Tradução e prólogo de Geir Campos. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira,
1976. p. 38.
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