Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 27 de junho de 2026

José Paulo Paes - Poética

Nestes quatro dísticos, Paes nos apresenta um manifesto pessoal, lapidado em numa declaração de princípios éticos e estéticos, no qual torna explícita a sua postura perante o mundo e o seu ofício, sempre comprometida com o bem comum, misto de honestidade existencial e de esperançosa resistência.

 

A exemplo de um poema-programa, esta “Poética” escora-se na solidariedade humana e na busca incansável de uma “ilha prometida” mais justa, mediante o emprego da palavra escrita como ferramenta conciliatória e como farol a orientar a jornada rumo ao aludido ideal.

 

Ademais, propõe o poeta e tradutor paulista que a poesia se comprometa com a clareza dos seus propósitos, vale dizer: (i) a denúncia da arbitrariedade e a solidariedade com os mais vulneráveis; (ii) a rejeição da posse egoísta e a exaltação do valor de uma vida compartilhada; (iii) e o rechaço da adoção dos papéis extremos de autoridade ou de vítima, ou seja, nem a superioridade moral, nem a falsa humildade que busca escusas, para assim se desincumbir de sua missão fora dos jogos binários de poder e das vias labirínticas da autojustificação.

 

J.A.R. – H.C.

 

José Paulo Paes

(1926-1998)

 

Poética

 

Não sei palavras dúbias. Meu sermão

Chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão.

 

Com duas mãos fraternas, cumplicio

A ilha prometida à proa do navio.

 

A posse é-me aventura sem sentido.

Só compreendo o pão se dividido.

 

Não brinco de juiz, não me disfarço em réu.

Aceito meu inferno, mas falo do meu céu.

 

Em: “Cúmplices” (1951)

 

O lobo e o cordeiro:

ilustração para a fábula de La Fontaine

(Gustave Doré: gravurista francês)

 

Referência:

 

PAES, José Paulo. Poética. In: __________. Melhores poemas de José Paulo Paes. Seleção de Davi Arrigucci Jr. 3. ed. São Paulo, SP: Global, 2000. p. 103. (Série “Melhores Poemas”; v. 37)

Nenhum comentário:

Postar um comentário