Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Robinson Jeffers - O falcão implacável

Jeffers nos apresenta um dilema substantivo ao contrastar a busca pela pureza extrema, capaz de nos aproximar da verdade nua e crua da existência e da natureza – a morte aí inclusa –, com uma condenação ao lento fenecimento da alma em segurança, suscetível, é verdade, de nos despertar um sentimento de inveja pelo selvagem, mas sem o condão de reverter a tendência de o nosso lado mais lado espiritual ceder lugar a impulsos caóticos, autoflagelantes – nada mais do que uma espécie de reação patética à vida estagnada.

 

O falcão, cruel – mas livre –, erige-se como símbolo inapreensível e ao mesmo tempo essencial da vida que o homem contemporâneo houve por bem se distanciar, da intensidade que muito deseja, a tangenciar o lado mais pungente da existência – as suas forças primárias –, mas que não chega a alcançá-lo em razão da letargia resultante daquilo que a maioria considera como desejável: a comodidade, a paz, o sobredito existir em segurança.

 

J.A.R. – H.C.

 

Robinson Jeffers

(1887-1962)

 

The cruel falcon

 

Contemplation would make a good life, keep it strict, only

The eyes of a desert skull drinking the sun,

Too intense for flesh, lonely

Exultations of white bone;

Pure action would make a good life, let it be sharp –

Set between the throat and the knife.

A man who knows death by heart

Is the man for that life.

In pleasant peace and security

How suddenly the soul in a man begins to die.

He shall look up above the stalled oxen

Envying the cruel falcon,

And dig under the straw for a stone

To bruise himself on.

 

Falcão de cauda vermelha

(Kira Yustak: artista norte-americana)

 

O falcão implacável

 

A contemplação faria uma boa vida, creia; apenas

Os olhos de um crânio deserto bebendo o sol

Intenso demais para a carne, serenas

Exultações solitárias de ossos brancos;

A ação pura faria uma boa vida: deixe-a exatamente

Entre a faca e a garganta ferida.

Um homem que sabe a morte de cor

É o homem ideal para tal vida.

Na agradável paz, na segurança,

Quão súbito começa a morrer a alma num homem.

Invejando o falcão implacável

Seu olhar, para além dos bois do curral, há de subir

E ele escavará a palha em busca de uma pedra

Para com ela se ferir.

 

Referência:

 

JEFFERS, Robinson. The cruel falcon / O falcão implacável. Tradução de Jorge Wanderley. In: WANDERLEY, Jorge (Seleção, tradução e notas). Antologia da nova poesia norte-americana. Edição bilíngue: inglês x português. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 1992. Em inglês: p. 128; em português: p. 129.

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