Jeffers nos apresenta
um dilema substantivo ao contrastar a busca pela pureza extrema, capaz de nos
aproximar da verdade nua e crua da existência e da natureza – a morte aí
inclusa –, com uma condenação ao lento fenecimento da alma em segurança, suscetível,
é verdade, de nos despertar um sentimento de inveja pelo selvagem, mas sem o
condão de reverter a tendência de o nosso lado mais lado espiritual ceder lugar
a impulsos caóticos, autoflagelantes – nada mais do que uma espécie de reação
patética à vida estagnada.
O falcão, cruel – mas
livre –, erige-se como símbolo inapreensível e ao mesmo tempo essencial da vida
que o homem contemporâneo houve por bem se distanciar, da intensidade que muito
deseja, a tangenciar o lado mais pungente da existência – as suas forças
primárias –, mas que não chega a alcançá-lo em razão da letargia resultante daquilo
que a maioria considera como desejável: a comodidade, a paz, o sobredito
existir em segurança.
J.A.R. – H.C.
Robinson Jeffers
(1887-1962)
Contemplation would
make a good life, keep it strict, only
The eyes of a desert
skull drinking the sun,
Too intense for
flesh, lonely
Exultations of white
bone;
Pure action would
make a good life, let it be sharp –
Set between the
throat and the knife.
A man who knows death
by heart
Is the man for that
life.
In pleasant peace and
security
How suddenly the soul
in a man begins to die.
He shall look up
above the stalled oxen
Envying the cruel
falcon,
And dig under the
straw for a stone
To bruise himself on.
Falcão de cauda
vermelha
(Kira Yustak: artista
norte-americana)
O falcão implacável
A contemplação faria
uma boa vida, creia; apenas
Os olhos de um crânio
deserto bebendo o sol
Intenso demais para a
carne, serenas
Exultações solitárias
de ossos brancos;
A ação pura faria uma
boa vida: deixe-a exatamente
Entre a faca e a
garganta ferida.
Um homem que sabe a
morte de cor
É o homem ideal para
tal vida.
Na agradável paz, na
segurança,
Quão súbito começa a
morrer a alma num homem.
Invejando o falcão
implacável
Seu olhar, para além
dos bois do curral, há de subir
E ele escavará a
palha em busca de uma pedra
Para com ela se
ferir.
Referência:
JEFFERS, Robinson. The cruel falcon / O falcão implacável. Tradução de Jorge Wanderley. In: WANDERLEY, Jorge (Seleção, tradução e notas). Antologia da nova poesia norte-americana. Edição bilíngue: inglês x português. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 1992. Em inglês: p. 128; em português: p. 129.
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