Nesta ode ao poder
transcendente do espírito, Baudelaire nos guia em uma viagem desde o plano do tangível
e do opressivo – tão característicos de nossa realidade terrena – até as
paragens do etéreo, do puro e do sublime, sempre a empregar aquela sua forma de
linguagem dominantemente sinestésica – digo melhor, sensorial –, para pormenorizar
as graduações dessa progressão ascensional hiperbólica.
Para além do escape
ao meramente físico, de seus “mórbidos miasmas”, o que o autor nos propõe é um voo
interior, ascético e imaginativo – logo poético –, com o objetivo de nos guindar
à iluminação, pela via de uma conexão mística com o cosmos e o universo: assim
purificados, poderemos entrar num estado de êxtase, em conexão com o divino, quiçá
atingindo até mesmo as lindes de onde sejamos capazes de vislumbrar os “scripts”
da linguagem secreta da Criação.
J.A.R. – H.C.
Charles Baudelaire
(1821-1867)
Élévation
Au-dessus des étangs,
au-dessus des vallées,
Des montagnes, des
bois, des nuages, des mers,
Par delà le soleil,
par delà les éthers,
Par delà les confins
des sphères étoilées,
Mon esprit, tu te
meus avec agilité,
Et, comme un bon
nageur qui se pâme dans l’onde,
Tu sillonnes gaiement
l’immensité profonde
Avec une indicible et
mâle volupté.
Envole-toi bien loin
de ces miasmes morbides;
Va te purifier dans l’air
supérieur,
Et bois, comme une
pure et divine liqueur,
Le feu clair qui
remplit les espaces limpides.
Derrière les ennuis
et les vastes chagrins
Qui chargent de leur
poids l’existence brumeuse,
Heureux celui qui
peut d’une aile vigoureuse
S’élancer vers les
champs lumineux et sereins;
Celui dont les
pensers, comme des alouettes,
Vers les cieux le
matin prennent un libre essor,
– Qui plane sur la
vie, et comprend sans effort
Le langage des fleurs
et des choses muettes!
Elevação da alma
(Irina Rasquinet:
artista chechena)
Elevação
Por sobre os
pantanais, os vales orvalhados,
As montanhas, os
bosques, as nuvens, os mares,
Para além do ígneo
sol e do éter que há nos ares,
Para além dos confins
dos tetos estrelados,
Flutuas, meu
espírito, ágil peregrino,
E, como um nadador
que nas águas afunda,
Sulcas alegremente a
imensidão profunda
Com um lascivo e
fluido gozo masculino.
Vai mais, vai mais
além do lodo repelente,
Vai te purificar onde
o ar se faz mais fino,
E bebe, qual licor
translúcido e divino,
O puro fogo que enche
o espaço transparente.
Depois do tédio e dos
desgostos e das penas
Que gravam com seu
peso a vida dolorosa,
Feliz daquele a quem
uma asa vigorosa
Pode lançar às
várzeas claras e serenas;
Aquele que, ao
pensar, qual pássaro veloz,
De manhã rumo aos
céus liberto se distende,
Que paira sobre a
vida e sem esforço entende
A linguagem da flor e
das coisas sem voz!
Referência:
BAUDELAIRE, Charles. Élévation
/ Elevação. Tradução de Ivan Junqueira. In: __________. As flores do mal.
Apresentação de Marcelo Jacques. Tradução, introdução e notas de Ivan
Junqueira. Edição especial. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 2012. Em
francês: p. 136 e 138; em português: p. 137 e 139. (Coleção “Saraiva de Bolso”)
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