O poeta bem expressa nestes
versos a fratura da continuidade histórico-cultural do Ocidente – os EUA no
centro desse corte – em relação à herança clássica, malbaratada num jogo de
poder em que se desata uma fúria sem conteúdo – a não ser o afã expansionista,
dominador e espoliatório – sobre os quatro cantos do mundo. Expressemo-nos imageticamente:
piratas que se disfarçam com as vestes de heróis!
A civilização do Novo
Mundo – sugere Tate – já teria nascido em plena decadência, submersa numa
abundância corrupta, ou em outros termos, asfixiada num consumismo disruptivo.
E mesmo o Mediterrâneo já não se lhe mostra um mar de conexão entre os povos,
senão apenas um elemento recordatório de tudo quanto se perdeu ao longo de
séculos de história – seu significado fundador, sua ascendência mítica e
sagrada.
J.A.R. – H.C.
Allen Tate
(1899-1979)
Quem das finem, rex
magne, dolorum?
Where we went in the boat was a long bay
A slingshot wide, walled in by towering stone –
Peaked margin of antiquity’s delay,
And we went there out of time’s monotone:
Where we went in the
black hull no light moved
But a gull
white-winged along the feckless wave,
The breeze, unseen
but fierce as a body loved,
That boat drove
onward like a willing slave:
Where we went in the
small ship the seaweed
Parted and gave to us
the murmuring shore
And we made feast and
in our secret need
Devoured the very
plates Aeneas bore:
Where derelict you
see through the low twilight
The green coast that
you, thunder-tossed, would win,
Drop sail, and
hastening to drink all night
Eat dish and bowl –
to take that sweet land in!
Where we feasted and
caroused on the sandless
Pebbles, affecting
our day of piracy,
What prophecy of
eaten plates could landless
Wanderers fulfil by
the ancient sea?
We for that time might taste the famous age
Eternal here yet hidden from our eyes
When lust of power undid its stuffless rage;
They, in a wineskin, bore earth’s paradise.
Let us lie down once
more by the breathing side
Of Ocean, where our
live forefathers sleep
As if the Known Sea
still were a month wide –
Atlantis howls but is
no longer steep!
What country shall we
conquer, what fair land
Unman our conquest
and locate our blood?
We’ve cracked the
hemispheres with careless hand!
Now, from the Gates
of Hercules we flood
Westward, westward
till the barbarous brine
Whelms us to the
tired land where tasseling corn,
Fat beans, grapes
sweeter than muscadine
Rot on the vine: in
that land were we born.
In: “The
Mediterranean and Other Poems” (1936)
Navegando pelo
Mediterrâneo
(Julius L. Stewart:
pintor norte-americano)
O Mediterrâneo
Quem das finem, rex
magne, dolorum? (*)
Para onde fomos no
barco havia uma longa baía,
Larga como uma funda,
ao abrigo de imponente rochedo –
A margem pontiaguda da
dilação da antiguidade,
E para lá rumamos,
fugindo à monotonia do tempo:
Por onde passamos no
casco negro, luz alguma se movia,
Só uma gaivota de
brancas asas ao longo de uma marola;
A brisa, invisível, semelhantemente
ao ardor de quem ama,
Impelia aquele barco adiante,
feito um servo complacente:
Por onde quer que
fôssemos no pequeno escaler, as algas
Separavam-se e nos franqueavam
o murmurante litoral;
E nós fazíamos festa
e, em nossa irrevelada carência,
Recorríamos aos
mesmos farnéis que outrora nutriram Eneias:
Onde, à deriva, vislumbrardes
pelo Crepúsculo baixo
A verde costa que, açoitada
por trovões, sonhais conquistar,
Baixai as velas e pressurosos,
a beberdes por toda a noite,
Devorai pratos e concas
– para aquela doce terra sujeitar!
Lá festejamos e farreamos
sobre desarenados calhaus,
Dispensando ao nosso
dia certos ares de pirataria;
Que profecia de devorados
pratos poderiam cumprir
Os andarilhos sem-terra
à borda do vetusto mar?
Em tempos idos,
poderíamos usufruir aqui a célebre
Era eterna – oculta,
nada obstante, a nossos olhos –,
Uma vez que a volúpia
do poder nos desatou uma fúria vã;
Enquanto que eles carregavam
em odres o éden terreno.
Voltemos a nos deitar
à margem respirante do Oceano,
Onde jazem os nossos
vivos antepassados,
Como se o Mar
Conhecido ainda fosse um mês de largo –
A Atlântida ruge, mas
nela já não há proeminência!
Que país haveremos de
conquistar, que terra formosa
Minará nossa
conquista e nos derramará o sangue?
Nós dividimos os
hemisférios com mãos descuidadas!
Agora, das Colunas de
Hércules, deslizemos para oeste,
Sempre a oeste, até
que as bárbaras águas nos lancem
Sobre a terra
exausta, onde o milho de borda,
Grandes feijões e
uvas mais doces que a muscadínea
Definham nas lavras: essa
é a terra que nos viu nascer.
Em: “O Mediterrâneo e
Outros Poemas” (1936)
Nota:
(*). Em latim: Que
fim dás, grande rei, às tristezas? Trata-se de uma adaptação latina do
verso Quem das finem, rex magne, laborum? (Que fim dás, grande rei,
aos trabalhos), que se encontra na “Eneida”, de Virgílio (I, 245).
Referência:
TATE, Allen. The Mediterranean. In: __________. Poems: 1922-1947. New York, NY: Charles Scribner’s Sons, 1953. p. 3-4.
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