Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 21 de junho de 2026

Allen Tate - O Mediterrâneo

O poeta bem expressa nestes versos a fratura da continuidade histórico-cultural do Ocidente – os EUA no centro desse corte – em relação à herança clássica, malbaratada num jogo de poder em que se desata uma fúria sem conteúdo – a não ser o afã expansionista, dominador e espoliatório – sobre os quatro cantos do mundo. Expressemo-nos imageticamente: piratas que se disfarçam com as vestes de heróis!

 

A civilização do Novo Mundo – sugere Tate – já teria nascido em plena decadência, submersa numa abundância corrupta, ou em outros termos, asfixiada num consumismo disruptivo. E mesmo o Mediterrâneo já não se lhe mostra um mar de conexão entre os povos, senão apenas um elemento recordatório de tudo quanto se perdeu ao longo de séculos de história – seu significado fundador, sua ascendência mítica e sagrada.

 

J.A.R. – H.C.

 

Allen Tate

(1899-1979)

 

The Mediterranean

 

Quem das finem, rex magne, dolorum?

 

Where we went in the boat was a long bay

A slingshot wide, walled in by towering stone –

Peaked margin of antiquity’s delay,

And we went there out of time’s monotone:

 

Where we went in the black hull no light moved

But a gull white-winged along the feckless wave,

The breeze, unseen but fierce as a body loved,

That boat drove onward like a willing slave:

 

Where we went in the small ship the seaweed

Parted and gave to us the murmuring shore

And we made feast and in our secret need

Devoured the very plates Aeneas bore:

 

Where derelict you see through the low twilight

The green coast that you, thunder-tossed, would win,

Drop sail, and hastening to drink all night

Eat dish and bowl – to take that sweet land in!

 

Where we feasted and caroused on the sandless

Pebbles, affecting our day of piracy,

What prophecy of eaten plates could landless

Wanderers fulfil by the ancient sea?

 

We for that time might taste the famous age

Eternal here yet hidden from our eyes

When lust of power undid its stuffless rage;

They, in a wineskin, bore earth’s paradise.

 

Let us lie down once more by the breathing side

Of Ocean, where our live forefathers sleep

As if the Known Sea still were a month wide –

Atlantis howls but is no longer steep!

 

What country shall we conquer, what fair land

Unman our conquest and locate our blood?

We’ve cracked the hemispheres with careless hand!

Now, from the Gates of Hercules we flood

 

Westward, westward till the barbarous brine

Whelms us to the tired land where tasseling corn,

Fat beans, grapes sweeter than muscadine

Rot on the vine: in that land were we born.

 

In: “The Mediterranean and Other Poems” (1936)

 

Navegando pelo Mediterrâneo

(Julius L. Stewart: pintor norte-americano)

 

O Mediterrâneo

 

Quem das finem, rex magne, dolorum? (*)

 

Para onde fomos no barco havia uma longa baía,

Larga como uma funda, ao abrigo de imponente rochedo –

A margem pontiaguda da dilação da antiguidade,

E para lá rumamos, fugindo à monotonia do tempo:

 

Por onde passamos no casco negro, luz alguma se movia,

Só uma gaivota de brancas asas ao longo de uma marola;

A brisa, invisível, semelhantemente ao ardor de quem ama,

Impelia aquele barco adiante, feito um servo complacente:

 

Por onde quer que fôssemos no pequeno escaler, as algas

Separavam-se e nos franqueavam o murmurante litoral;

E nós fazíamos festa e, em nossa irrevelada carência,

Recorríamos aos mesmos farnéis que outrora nutriram Eneias:

 

Onde, à deriva, vislumbrardes pelo Crepúsculo baixo

A verde costa que, açoitada por trovões, sonhais conquistar,

Baixai as velas e pressurosos, a beberdes por toda a noite,

Devorai pratos e concas – para aquela doce terra sujeitar!

 

Lá festejamos e farreamos sobre desarenados calhaus,

Dispensando ao nosso dia certos ares de pirataria;

Que profecia de devorados pratos poderiam cumprir

Os andarilhos sem-terra à borda do vetusto mar?

 

Em tempos idos, poderíamos usufruir aqui a célebre

Era eterna – oculta, nada obstante, a nossos olhos –,

Uma vez que a volúpia do poder nos desatou uma fúria vã;

Enquanto que eles carregavam em odres o éden terreno.

 

Voltemos a nos deitar à margem respirante do Oceano,

Onde jazem os nossos vivos antepassados,

Como se o Mar Conhecido ainda fosse um mês de largo –

A Atlântida ruge, mas nela já não há proeminência!

 

Que país haveremos de conquistar, que terra formosa

Minará nossa conquista e nos derramará o sangue?

Nós dividimos os hemisférios com mãos descuidadas!

Agora, das Colunas de Hércules, deslizemos para oeste,

 

Sempre a oeste, até que as bárbaras águas nos lancem

Sobre a terra exausta, onde o milho de borda,

Grandes feijões e uvas mais doces que a muscadínea

Definham nas lavras: essa é a terra que nos viu nascer.

 

Em: “O Mediterrâneo e Outros Poemas” (1936)

 

Nota:

 

(*). Em latim: Que fim dás, grande rei, às tristezas? Trata-se de uma adaptação latina do verso Quem das finem, rex magne, laborum? (Que fim dás, grande rei, aos trabalhos), que se encontra na “Eneida”, de Virgílio (I, 245).

 

Referência:

 

TATE, Allen. The Mediterranean. In: __________. Poems: 1922-1947. New York, NY: Charles Scribner’s Sons, 1953. p. 3-4.

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