Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Ferreira Gullar - A alegria

Gullar desconstrói a ideia romântica do sofrimento como algo nobre, transpassado de um valor transcendente, haja vista que não teria o dom de acender “um halo” em volta da cabeça de ninguém. Não sendo a dor muito diferente daquela a que estão expostas quaisquer espécies animais – quer “superiores”, como gatos e cães, quer “inferiores”, como ratos e baratas –, a elas nos nivelamos perante tal miséria.

 

O desejo universal por alegria contrasta brutalmente com a realidade do padecimento e da injustiça que povoa o humano substrato cultural – e que a muitos atinge, sobretudo, diríamos nós, em razão da distribuição infame e hiperconcentrada de riquezas, tornando ainda mais ostensiva a fealdade da exclusão social, da penúria, do mal-estar, da opressão nos grandes centros urbanos.

 

Mas ela – a alegria – paira distante quando nos deparamos com as imagens antipoéticas ou antilíricas do autor, mostrando-se quase inalcançável, denotando um contraponto que torna o sofrimento – seja ele corporal, seja material – ainda mais difícil de suportar.

 

J.A.R. – H.C.

 

Ferreira Gullar

(1930-2016)

 

A alegria

 

O sofrimento não tem

nenhum valor

não acende um halo

em volta de tua cabeça, não

ilumina trecho algum

de tua carne escura

(nem mesmo o que iluminaria

a lembrança ou a ilusão

de uma alegria).

 

Sofres tu, sofre

um cachorro ferido, um inseto

que o inseticida envenena.

Será maior a tua dor

que a daquele gato que viste

a espinha quebrada a pau

arrastando-se a berrar pela sarjeta

sem ao menos poder morrer?

 

A justiça é moral, a injustiça

não. A dor

te iguala a ratos e baratas

que também de dentro dos esgotos

espiam o sol

e no seu corpo nojento

de entre fezes

  querem estar contentes.

 

Alegrias e tristezas da vida

(Purvasha Roy: artista indiano)

 

Referência:

 

GULLAR, Ferreira. A alegria. In: FERRAZ, Eucanaã (Organização e Prefácio). Veneno antimonotonia: os melhores poemas e canções contra o tédio. Rio de Janeiro, RJ: Objetiva, 2005. p. 29.

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