Com imagens
sensoriais e densa linguagem – às vezes tangenciando vogas surrealistas e até
mesmo mitológicas –, Hart adentra o entrançado território da memória, onde passa
a navegar pelas águas agitadas do passado, evocando traumas então vivenciados, mesclando-os
a experiências mundanas com suas provas de vida, para, no fim das contas,
alcançar o porto da calma interior, no qual ecos antigos transformam-se em
música perene e pacífica.
Nesse itinerário lírico,
o poeta revela-nos a tensão existente entre as recordações opressoras da infância
e a plenitude da memória adulta, renovada constantemente pelo repouso ativo,
invariavelmente povoado pela presença sonora de salgueiros, cuja reiteração tem
o condão de reforçá-la de um “som lento”, de início, a um “som firme”, ao
final.
J.A.R. – H.C.
(1899-1932)
The willows carried a slow sound,
A sarabande the wind mowed on the mead.
I could never remember
That seething, steady leveling of the marshes
Till age had brought me to the sea.
Flags, weeds. And remembrance of steep alcoves
Where cypresses shared the noon’s
Tyranny; they drew me into hades almost.
And mammoth turtles climbing sulphur dreams
Yielded, while sun-silt rippled them
Asunder...
How much I would have bartered! the black gorge
And all the singular nestings in the hills
Where beavers learn stitch and tooth.
The pond I entered once and quickly fled –
I remember now its singing willow rim.
And finally, in that
memory all things nurse;
After the city that I
finally passed
With scalding
unguents spread and smoking darts
The monsoon cut
across the delta
At gulf gates...
There, beyond the dykes
I heard wind flaking
sapphire, like this summer,
And willows could not
hold more steady sound.
In: “White Buildings”
(1926)
(Claude Monet: pintor
francês)
Remanso dos Rios
Os salgueiros traziam
um som lento,
Uma sarabanda segada
pelo vento na pradaria.
Jamais pude recordar
Aquele bulir, o contínuo
aplainar dos charcos,
Até que a idade me conduzisse
ao mar.
Lírios, juncos. E lembranças
de íngremes refúgios,
Onde ciprestes
partilhavam a tirania do sol
A pino, quase a me
arrastarem para o Hades.
Tartarugas-mamute, ao
escalarem sonhos sulfúreos,
Rendiam-se, enquanto
o sol-sedimento as ondeava
Em irisadas
estilhas...
O quanto eu teria cedido em troca! O negro desfiladeiro
E todas as
reentrâncias singulares nas encostas,
Onde os castores aprendem
a trincar e a empilhar.
O lago onde uma vez
entrei para logo fugir –
Relembro agora o coro
de salgueiros em sua orla.
E por fim, nessa
memória que todas as coisas nutrem;
Para além da cidade,
por mim finalmente transposta
Com o dispersar de unguentos
ferventes e dardos fumegantes,
A monção levou a cabo
a travessia do delta
No estuário do golfo...
Lá, depois dos diques,
Ouvi o vento a exfoliar
safiras, como neste verão,
E não poderiam os
salgueiros tecer um som mais firme.
Em: “Edifícios
Brancos” (1926)
Referência:
CRANE, Hart. Repose
of rivers. In: __________. The collected poems of Hart Crane. Edited
with an introduction by Waldo Frank. New York, NY: Liveright Publ. Co., jul.
1946. p. 79-80. (“Black & Gold Edition”)
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