Sena emprega contrastes
e ironia para evidenciar o estado de degradação ambiental e social em seu país,
decorrente do processo de desumanização e artificialização da vida urbana
moderna, chegando mesmo ao sarcasmo ao afirmar que os “pardieiros só existem em
outros países”, negando a própria pobreza em seu país natal.
O poeta constrói a
imagem de uma cidade – decerto Lisboa – carente de vitalidade, onde a natureza
tem sido erradicada mediante ações institucionais deliberadas e mecanizadas, ou confinada nas alturas dos apartamentos, tornando a existência algo inexprimível,
“inefável”, sem sentido e sem voz, pois que refém da imposição de hierarquias
econômicas e da concomitante opressão social.
J.A.R. – H.C.
Jorge de Sena
(1919-1978)
Os paraísos
artificiais
Na minha terra, não
há terra, há ruas;
mesmo as colinas são
de prédios altos
com renda muito mais
alta.
Na minha terra, não
há árvores nem flores.
As flores, tão
escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem
máquinas especialíssimas
para desenraizar as
árvores.
O cântico das aves –
não há cânticos,
mas só canários de
3.° andar e papagaios de 5.°.
E a música do vento é
frio nos pardieiros.
Na minha terra,
porém, não há pardieiros,
que são todos na
Pérsia ou na China,
ou em países
inefáveis.
A minha terra não é
inefável.
A vida na minha terra
é que é inefável.
Inefável é o que não
pode ser dito.
Esboço urbano de Alfama em Lisboa
(Elena Petrova
Gancheva: artista búlgara)
Referência:
SENA, Jorge de. Os paraísos artificiais. In: TORGAL, Adosinda Providência; BOTELHO, Clotilde Correia (Organização e Nota Prévia). Lisboa com seus poetas: coletânea. Lisboa, PT: Publicações Dom Quixote, 2000. p. 208.
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