Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Jorge de Sena - Os paraísos artificiais

Sena emprega contrastes e ironia para evidenciar o estado de degradação ambiental e social em seu país, decorrente do processo de desumanização e artificialização da vida urbana moderna, chegando mesmo ao sarcasmo ao afirmar que os “pardieiros só existem em outros países”, negando a própria pobreza em seu país natal.

 

O poeta constrói a imagem de uma cidade – decerto Lisboa – carente de vitalidade, onde a natureza tem sido erradicada mediante ações institucionais deliberadas e mecanizadas, ou confinada nas alturas dos apartamentos, tornando a existência algo inexprimível, “inefável”, sem sentido e sem voz, pois que refém da imposição de hierarquias econômicas e da concomitante opressão social.

 

J.A.R. – H.C.

 

Jorge de Sena

(1919-1978)

 

Os paraísos artificiais

 

Na minha terra, não há terra, há ruas;

mesmo as colinas são de prédios altos

com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.

As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,

e a Câmara tem máquinas especialíssimas

para desenraizar as árvores.

O cântico das aves – não há cânticos,

mas só canários de 3.° andar e papagaios de 5.°.

E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,

que são todos na Pérsia ou na China,

ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.

A vida na minha terra é que é inefável.

Inefável é o que não pode ser dito.

 

Esboço urbano de Alfama em Lisboa

(Elena Petrova Gancheva: artista búlgara)

 

Referência:

 

SENA, Jorge de. Os paraísos artificiais. In: TORGAL, Adosinda Providência; BOTELHO, Clotilde Correia (Organização e Nota Prévia). Lisboa com seus poetas: coletânea. Lisboa, PT: Publicações Dom Quixote, 2000. p. 208.

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