Eis aqui mais um
poema a girar em torno da finitude humana, com o poeta catalão fazendo-nos ver
que a memória e o testemunho dos que já partiram outorgam peso e sentido às
nossas existências, explico-me melhor, tornando-nos mais conscientes de que a
morte espelha o paradoxo de pertencermos a um todo perdurável – a saber, a
humanidade e sua memória coletiva.
Com efeito, o ponto
final está inscrito em nosso ser, em nossa biografia. Por isso temos a
tendência de, quando chegamos à velhice, passarmos a medir a vida não em
quantidade de anos pelos quais passamos, senão em termos do que nos marcou
profundamente – as “feridas” –, num ato de contemplação ativa que aspira, com
algum lustro antecipatório, a um diálogo franco com o eterno.
J.A.R. – H.C.
Joan Reventós i
Carner
(1927-2004)
Els vius necessitem
els morts
Sàpigues i recorda
tots els dies de la vida
que els vells
escolten d’una altra manera,
perquè compten i
pesen dels dies la ferida.
La vida breu no
permet esperança llarga,
la natura disposa com
a condició i norma
portar desplegats
dins els gens de finitud.
El dubte de morir en
mi o en altres sorts,
és la lluita entre finitud
i infinitud.
Els vius continuem
necessitant els morts.
Morte e Vida
(Gustave Klimt:
pintor austríaco)
Os vivos precisam dos
mortos
Saiba e lembre todos
os dias da vida
que os velhos escutam
de outra maneira,
porquanto comparam e
pesam dos dias as feridas.
A vida breve não
permite uma esperança longa,
a natureza dispõe
como condição e norma
trazer desdobrados
nos genes de finidade.
A dúvida de morrer em
mim ou em outras sortes,
é a luta entre
finidade e o infinito.
Os vivos continuam a
precisar dos mortos.
Referência:
CARNER, Joan Reventós
i. Els vius necessitem els morts / Os vivos precisam dos mortos. Tradução de
Leopold Rodés i Garriga. In: __________. Els àngels no saben vetllar els
morts / Os anjos não sabem velar os mortos. Edição bilíngue: Catalão x
Português. Tradução de Leopold Rodés i Garriga. Introdução de Alfredo Bosi. 1.
ed. São Paulo, SP: Paralaxe, 2008. Em catalão: p. 82; em português: p. 83.
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