Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Nicolás Guillén - Sons

Preliminarmente, uma observação: na tradução que empreendeu ao português deste poema de Guillén, Drummond, não se lhe conhecem exatamente as razões, intitulou-o assim como aqui está – a saber, “Sons” –, em vez de “Minha pátria é doce por fora”, vale dizer, o primeiro verso da composição, à maneira como se apresenta no Tomo I de sua Obra Poética completa, publicada pelo Editorial de Arte y Literatura, de Havana (CU), cujo inteiro teor, ademais, exibe também ligeiras diferenças, especificamente na escrita da última estrofe, em relação ao texto traduzido pelo poeta itabirano.

 

Muito mais que um painel sobre, v.g., a geografia descritiva de Cuba, o poema formula um diagnóstico atroz de uma nação ferida pela desigualdade, pela exploração interna e externa, bem assim pelo legado do colonialismo: trata-se de uma denúncia sócio-política, com o propósito de desmistificar a imagem turística e edulcorada da ilha, para desvelar-lhe as dores e o muito sangue já vertido em suas terras.

 

Em meio a essa voragem adversativa – melhor seria dizer protestativa –, os versos pulsam num ritmo de canto coletivo ou de lamento ritual, em cujos recessos se veicula uma mensagem de resistência e, sobretudo, de esperança com espeque na unidade solidária e na consciência de todo o povo cubano, transcendendo as suas consabidas barreiras raciais – “china, preta, branca ou rubra”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Nicolás Guillén

(1902-1989)

 

Mi patria es dulce por fuera

 

Mi patria es dulce por fuera,

y muy amarga por dentro;

mi patria es dulce por fuera,

con su verde primavera,

con su verde primavera,

y un sol de hiel en el centro.

 

¡Qué cielo de azul callado

mira impasible tu duelo!

¡Qué cielo de azul callado,

ay, Cuba, el que Dios te ha dado,

ay, Cuba, el que Dios te ha dado,

con ser tan azul tu cielo!

 

Un pájaro de madera

me trajo en su pico el canto;

un pájaro de madera.

¡Ay, Cuba, si te dijera,

yo que te conozco tanto,

ay, Cuba, si te dijera,

que es de sangre tu palmera,

que es de sangre tu palmera,

y que tu mar es de llanto!

Bajo tu risa ligera,

yo, que te conozco tanto,

miro la sangre y el llanto,

bajo tu risa ligera.

 

Sangre y llanto

bajo tu risa ligera;

sangre y llanto

bajo tu risa ligera.

Sangre y llanto.

 

El hombre de tierra adentro

está en un hoyo metido,

muerto sin haber nacido,

el hombre de tierra adentro.

Y el hombre de la ciudad,

ay, Cuba, es un pordiosero:

Anda hambriento y sin dinero,

pidiendo por caridad,

aunque se ponga sombrero

y baile en la sociedad.

(Lo digo en mi son entero,

 porque es la pura verdad.)

 

Hoy yanqui, ayer española,

sí, señor,

la tierra que nos tocó

siempre el pobre la encontró

si hoy yanqui, ayer española,

¡cómo no!

¡Qué sola la tierra sola,

la tierra que nos tocó!

 

La mano que no se afloja

hay que estrecharla en seguida;

la mano que no se afloja,

china, negra, blanca o roja,

china, negra, blanca o roja,

con nuestra mano tendida.

 

Un marino americano,

bien,

en el restaurant del puerto,

bien,

un marino americano

me quiso dar con la mano,

me quiso dar con la mano,

pero allí se quedó muerto,

bien,

pero allí se quedó muerto,

bien,

pero allí se quedó muerto.

 

Manhã no Malecón (Havana, Cuba)

(Anthony Holdsworth: artista inglês)

 

Sons

 

A pátria é doce por fora

e muito amarga por dentro;

a pátria é doce por fora

com a verde primavera,

com a verde primavera,

e o sol de fel que há no centro.

 

Que céu de azul tão calado

mira impassível teu luto!

Que céu de azul tão calado,

ai Cuba, que Deus te deu,

ai Cuba, que Deus te deu,

com ser tão azul teu céu!

 

Um pássaro de madeira

me traz no bico seu canto:

um pássaro de madeira...

Ai Cuba, se eu te dissesse

eu que te conheço tanto,

ai Cuba, se eu te dissesse

que é de sangue tua palmeira,

que é de sangue tua palmeira,

e que teu mar é de pranto!

Sob teu riso ligeiro,

eu que te conheço tanto,

vejo-te o sangue e o pranto.

Sob teu riso ligeiro.

Sangue e pranto,

sob teu sangue ligeiro;

sangue e pranto

sob teu riso ligeiro.

Sangue e pranto...

 

O homem do interior

está num fosso metido,

morto sem haver nascido,

o homem do interior.

Já o homem da cidade,

ai Cuba, está mendigando:

vive com fome e sem prata,

rogando por caridade,

embora ponha chapéu

e dance na sociedade.

(Digo-o com todas as letras

porque é pura verdade.)

 

Ora ianque, ora espanhola,

sim senhor,

a terra que nos tocou

o pobre sempre a encontrou

ora ianque, ora espanhola,

como não...

Que só, a terra tão só,

a terra que nos tocou!

 

A mão que não amolece,

há que apertá-la depressa,

a mão que não amolece,

china, preta, branca ou rubra,

china, preta, branca ou rubra,

com esta mão estendida.

 

Marinheiro americano,

bom,

no restaurante do porto,

bom,

marinheiro americano

queria meter-me o braço,

queria meter-me o braço,

mas lá ficou esticado,

bom,

mas lá ficou esticado,

bom,

mas lá ficou esticado.

 

Referência:

 

GUILLÉN, Nicolás. Mi pátria es dulce por fuera / Sons. Tradução de Carlos Drummond de Andrade. In: ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia traduzida. Organização e notas de Augusto Massi e Júlio Castañon Guimarães. Introdução de Júlio Castañon Guimarães. São Paulo, SP: Cosac Naify, 2011. Em espanhol: p. 172, 174 e 176; em português: p. 173, 175 e 177. (Coleção “Ás de colete”; v. 20)

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