Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 9 de junho de 2026

Gerard Manley Hopkins - Nada pior, nada

Estas palavras de Hopkins, um sacerdote jesuíta, não nos oferece qualquer tipo de redenção ao desespero humano, somente o reconhecimento de nossa fragilidade frente ao sofrimento e a morte como único refúgio final, vista aqui como um “consolo” sombrio deslindado na aceitação de nossa finitude.

 

Vê-se no soneto o poder da inovação linguística do poeta inglês, além de certa intensidade visionária, para assim plasmar em versos uma experiência cabal de dor psíquica e espiritual, mormente por achar-se invadido por um sentimento de abandono divino, como se, contemplando um cenário aterrador, o falante se comportasse à maneira de quem se encontra à beira do abismo. Em suma: é a crise da fé diante de um “Deus Absconditus”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Gerard Manley Hopkins

(1844-1889)

 

No worst, there is none

 

No worst, there is none. Pitched past pitch of grief,

More pangs will, schooled at forepangs, wilder wring.

Comforter, where, where is your comforting?

Mary, mother of us, where is your relief?

My cries heave, herds-long, huddle in a main, a chief-

Woe, world-sorrow; on an age-old anvil wince and sing –

Then lull, then leave off. Fury had shrieked ‘No ling-

Ering! Let me be fell: force I must be brief.’

O the mind, mind has mountains; cliffs of fall

Frightful, sheer, no-man-fathomed. Hold them cheap

May who ne’er hung there. Nor does long our small

Durance deal with that steep or deep. Here! creep,

Wretch, under a comfort serves in a whirlwind: all

Life death does end and each day dies with sleep.

 

Dublin, 1885 (?)

(Posthumous publ.)

 

A dor do mundo

(Tannin Sun: artista chinesa)

 

Nada pior, nada

 

Nada pior, nada. De cume a cume da dor arremessado,

Piores torturas virão, treinadas em tortura anterior.

Mas onde, onde achar o teu consolo, Ó Espírito consolador?

Maria, mãe de todos nós, onde o alívio esperado?

Arfo em longos mugidos, montão de uma dor

Mor – a dor-do-mundo; canta acuada em ancestral bigorna –

Depois amansa, chega a parar. A Fúria gritara, “Sem demora,

Feroz no malhar; tenho de ser veloz em meu furor”.

A mente, oh! a mente tem montanhas, íngremes penhascos,

Terríveis, a pique, insondáveis. Faça deles pouco

Quem nunca ali ficou pendendo. Nem por tempo longo

Nossa tênue têmpera suporta tal escarpa. Vem! de rastros,

Miserável, ao conforto que serve neste vórtice: a alforria

Da vida é a morte, e ao dormir se morre cada dia.

 

Dublin, 1885 (?)

(Publicação póstuma)

 

Referência:

 

HOPKINS, Gerard Manley. No worst, there is none / Nada pior, nada. Tradução de Aíla de Oliveira Gomes. In: __________. Poemas. Seleção, tradução, introdução e notas de Aíla de Oliveira Gomes. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1989. Em inglês: p. 128; em português: p. 129.

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