Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 12 de junho de 2026

William Carlos Williams - O Lamento da Viúva em Plena Primavera

Neste sombrio lamento sobre a natureza insondável da dor, Williams captura o paradoxo de se sentir mais morto(a) do que nunca em plena estação de renovação, crescimento, esperança e boa disposição – a primavera –, em razão de se estar subjugado(a) por um desejo obscuro, embora compreensível, de encontrar a paz através da dissolução final, longe do vibrante mundo que já não se pode habitar com alegria.

 

Trata-se, por conseguinte, de uma ânsia por escape, rendição e desaparecimento em meio à exuberante beleza natural, incapaz de oferecer lenitivo à viúva, agora imersa em suas lembranças de uma vida inteira compartilhada, uma rotina, uma existência entrelaçada com o falecido cônjuge, e que, de uma hora para outra, rompeu-se definitivamente, circunstância que passou a toldar ou distorcer as cores perceptuais de seu mundo interno, desequiparando-as com as de seu entorno.

 

J.A.R. – H.C.

 

William Carlos Williams

(1883-1963)

 

The Widow’s Lament in Springtime

 

Sorrow is my own yard

where the new grass

flames as it has flamed

often before but not

with the cold fire

that closes round me this year.

Thirtyfive years

I lived with my husband.

The plumtree is white today

with masses of flowers.

Masses of flowers

load the cherry branches

and color some bushes

yellow and some red

but the grief in my heart

is stronger than they

for though they were my joy

formerly, today I notice them

and turn away forgetting.

Today my son told me

that in the meadows,

at the edge of the heavy woods

in the distance, he saw

trees of white flowers.

I feel that I would like

to go there

and fall into those flowers

and sink into the marsh near them.

 

In: “Sour Grapes” (1921)

 

Sem título

(Janet W. Sobel: artista norte-americana)

 

O Lamento da Viúva em Plena Primavera

 

O pesar é o meu quintal

onde a grama nova

flameja como tantas vezes

flamejou antes não porém

com o fogo gélido

que se fecha este ano à minha volta.

Trinta e cinco anos

vivi com meu marido.

A ameixeira hoje está branquinha

de pencas de flores.

Pencas de flores

carregam os galhos de cerejeira

e dão a alguns arbustos cor

amarela e vermelha a outros

mas o pesar dentro de mim

é mais forte que elas

pois embora fossem a minha alegria

antigamente, eu hoje as vejo

e lhes volto as costas deslembrada.

Hoje o meu filho me disse

que para lá dos prados,

na orla da floresta cerrada,

viu à distância

árvores de flores brancas.

Bem que eu gostaria

de ir até lá

para deixar-me tombar sobre essas flores

e afundar no brejo perto delas.

 

Em: “Uvas Azedas” (1921)

 

Referência:

 

WILLIAMS, William Carlos. The widow’s lament in springtime / O lamento da viúva em plena primavera. Tradução de José Paulo Paes. In: __________. Poemas. Seleção, tradução e estudo crítico de José Paulo Paes. Edição bilíngue. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1987. Em inglês: p. 48; em português: p. 49.

Nenhum comentário:

Postar um comentário