A poetisa capixaba emprega
contrastes e uma enumeração heteróclita do muito que povoa o nosso mundo – atos
e fatos, criações e limitações, silogismos e conjecturas –, para então propor
uma pergunta fundamental sobre a poesia e, indiretamente, respondê-la.
Com esse escopo,
sugere que a função última do poema não seja simplesmente “conhecer” em uma
perspectiva limitada, mas integrar a experiência humana em toda a sua
diversidade e contradição – do sublime ao terrível –, e, por meio da ativa
esperança que o próprio poema encarna, convencer-nos de que tudo isso, por mais
paradoxal que se nos pareça, tem algum sentido.
Cuida-se de um
manifesto antiniilista, do qual se depreende a fé no poder da arte – em especial,
no da palavra poética –, para encontrar significado na trama do caos
existencial, iluminando sombras, conectando o desconectado, encontrando um padrão condutor na teia mais errática e inextricável, como um fio de Ariadne para nos
fazer sair do labirinto, encorajando-nos enfim para que lutemos contra a desmemória e a morte.
J.A.R. – H.C.
Marly de Oliveira
(1935-2007)
A função do poema:
conhecer?
A função do poema:
conhecer?
A função do teorema:
desafio
que leva à abstração,
à conjetura.
A função da
esperança: convencer
que o poema, o
teorema, a ciência, a invenção,
o semáforo, a
história, a explosão
de Hiroshima; Picasso
e sua glória;
o decalque, a
estrutura, a rachadura,
a ruptura, a
eternidade, a desmemória;
a ignorância, a pobreza,
a riqueza,
a insuficiência, a
morte têm sentido.
Em: “A força da
paixão” (1982-1984)
Imagem do Museu Memorial da Paz em Hiroshima
(Kichisuke Yoshimura:
artista japonês)
Referência:
OLIVEIRA, Marly de. A
função do poema: conhecer? In: __________. Antologia poética.
Organização e prefácio de João Cabral de Melo Neto. 1. ed., 2. impr. Rio de
Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 1997. p. 158.
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