Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 16 de junho de 2026

Marly de Oliveira - A função do poema: conhecer?

A poetisa capixaba emprega contrastes e uma enumeração heteróclita do muito que povoa o nosso mundo – atos e fatos, criações e limitações, silogismos e conjecturas –, para então propor uma pergunta fundamental sobre a poesia e, indiretamente, respondê-la.

 

Com esse escopo, sugere que a função última do poema não seja simplesmente “conhecer” em uma perspectiva limitada, mas integrar a experiência humana em toda a sua diversidade e contradição – do sublime ao terrível –, e, por meio da ativa esperança que o próprio poema encarna, convencer-nos de que tudo isso, por mais paradoxal que se nos pareça, tem algum sentido.

 

Cuida-se de um manifesto antiniilista, do qual se depreende a fé no poder da arte – em especial, no da palavra poética –, para encontrar significado na trama do caos existencial, iluminando sombras, conectando o desconectado, encontrando um padrão condutor na teia mais errática e inextricável, como um fio de Ariadne para nos fazer sair do labirinto, encorajando-nos enfim para que lutemos contra a desmemória e a morte.

 

J.A.R. – H.C.

 

Marly de Oliveira

(1935-2007)

 

A função do poema: conhecer?

 

A função do poema: conhecer?

A função do teorema: desafio

que leva à abstração, à conjetura.

A função da esperança: convencer

que o poema, o teorema, a ciência, a invenção,

o semáforo, a história, a explosão

de Hiroshima; Picasso e sua glória;

o decalque, a estrutura, a rachadura,

a ruptura, a eternidade, a desmemória;

a ignorância, a pobreza, a riqueza,

a insuficiência, a morte têm sentido.

 

Em: “A força da paixão” (1982-1984)

 

Imagem do Museu Memorial da Paz em Hiroshima

(Kichisuke Yoshimura: artista japonês)

 

Referência:

 

OLIVEIRA, Marly de. A função do poema: conhecer? In: __________. Antologia poética. Organização e prefácio de João Cabral de Melo Neto. 1. ed., 2. impr. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 1997. p. 158.

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