Eis aqui mais alguns
versos sobre o processo criativo, especificamente a escrita poética, invertendo
os papéis tradicionais entre o poeta e o poema, com o segundo não sendo mais
visto como um objeto passivo criado pelo primeiro, mas como uma entidade ativa,
viva além do mais, que “escreve através do poeta”, convertido, por conseguinte,
em mero “médium”, em instrumento.
O poema personifica-se,
então, como um “inquilino” que tomou posse do poeta, um dinâmico “ocupante”, algo
autoritário, um crítico, um julgador peremptório que, por impor perda de
controle e completa submissão, suscita dúvidas no senhorio – agora um “esqueleto
inútil” – se ainda lhe dedica algum amor.
O sujeito lírico sugere,
com tais lucubrações, que a linguagem possui vida e lógica próprias, particularmente
quando em sua forma poética, em cujas tramas o poema atinge plenitude e fruição
precisamente por meio da exclusão daquele que o engendrou, imergindo o poeta em
certa resignação silenciosa, enquanto põe-se a criar mundos a seu emancipado
talante.
J.A.R. – H.C.
Alain Bosquet
(1919-1998)
Le mot par le mot
C’est le poème en moi
qui écrit mon poème;
Le mot par le mont
engendré.
Il est mon occupant;
je ne sais pas s’il m’aime.
Mon locataire veut
gérer
Mon espace vital et,
de plus, il me gronde:
peut-être suis-je
dans mon tort.
Il m’absoudra un
jour; en ses couches profondes,
je lui prépare un
meilleur sort.
Nous formerons un
couple heureux; mon allégresse
aura raison de ses
soucis.
Il a horreur des
trémolos; il ne me laisse
aucun emploi: ni le
récit,
ni le déroulement, ni
l’air, ni la musique
car il prétend tout
décider.
Mon cerveau se
rétracte et ma pauvre logique
vaut moins, dit-il,
qu’un coup de dé.
Je suis pour mon
poème un squelette inutile,
qui ferait mieux dans
un linceul.
Il est adulte, il
peut devenir la presqu’île,
l’oiseau, l’azur et
le tilleul.
Je n’ai plus rien à
dire, Ô poète: en silence
je rêve au défi de
rêver.
Mon poème sans moi en
soi-même se pense,
luxure dont il m’a
privé.
O poeta e sua musa
(Giorgio de Chirico:
pintor italiano)
Do verbo o verbo...
É o poema em mim que
escreve o meu poema,
do verbo o verbo se origina.
Ele é meu ocupante; e
nem sei se me ama.
Quer a poesia, essa
inquilina,
meu espaço vital
gerir e, furibunda,
ralha: quem sabe
estou errado.
Há de absolver-me um
dia; em sua porção mais funda,
eu lhe preparo um
melhor fado.
Faremos par feliz; há
de a minha alegria
vencer-lhe toda
inquietação.
Os trêmulos detesta;
a mim não cederia
emprego algum: a
narração,
nem a trama, ou a
letra, ou mesmo a melodia,
pois tudo quer
decidir logo.
Meu cérebro retrai-se
e a minha razão fria
não vale um dado posto
em jogo.
Sou para o meu poema
esqueleto ilusório;
numa mortalha ia
melhor.
Ele é adulto, pode
ser o promontório,
a ave, o azul e a
tília em flor.
Nada mais a dizer,
poeta; quieto assim
sonhando com sonhar
eu vou.
Em si mesmo se pensa
o poema, sem mim;
luxúria de que me
privou.
Referência:
BOSQUET, Alain. Le
mot par le mot / Do verbo o verbo... Tradução de Mário Laranjeira. In:
LARANJEIRA, Mário (Seleção, tradução e introdução). Poetas de França hoje: 1945-1995.
Edição bilíngue. Apresentação de Nelson Ascher. São Paulo, SP: Edusp, 1996. Em
francês e em português: p. 56-57.
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