Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 20 de junho de 2026

Alain Bosquet - Do verbo o verbo...

Eis aqui mais alguns versos sobre o processo criativo, especificamente a escrita poética, invertendo os papéis tradicionais entre o poeta e o poema, com o segundo não sendo mais visto como um objeto passivo criado pelo primeiro, mas como uma entidade ativa, viva além do mais, que “escreve através do poeta”, convertido, por conseguinte, em mero “médium”, em instrumento.

 

O poema personifica-se, então, como um “inquilino” que tomou posse do poeta, um dinâmico “ocupante”, algo autoritário, um crítico, um julgador peremptório que, por impor perda de controle e completa submissão, suscita dúvidas no senhorio – agora um “esqueleto inútil” – se ainda lhe dedica algum amor.

 

O sujeito lírico sugere, com tais lucubrações, que a linguagem possui vida e lógica próprias, particularmente quando em sua forma poética, em cujas tramas o poema atinge plenitude e fruição precisamente por meio da exclusão daquele que o engendrou, imergindo o poeta em certa resignação silenciosa, enquanto põe-se a criar mundos a seu emancipado talante.

 

J.A.R. – H.C.

 

Alain Bosquet

(1919-1998)

 

Le mot par le mot

 

C’est le poème en moi qui écrit mon poème;

Le mot par le mont engendré.

Il est mon occupant; je ne sais pas s’il m’aime.

Mon locataire veut gérer

 

Mon espace vital et, de plus, il me gronde:

peut-être suis-je dans mon tort.

Il m’absoudra un jour; en ses couches profondes,

je lui prépare un meilleur sort.

 

Nous formerons un couple heureux; mon allégresse

aura raison de ses soucis.

Il a horreur des trémolos; il ne me laisse

aucun emploi: ni le récit,

 

ni le déroulement, ni l’air, ni la musique     

car il prétend tout décider.

Mon cerveau se rétracte et ma pauvre logique

vaut moins, dit-il, qu’un coup de dé.

 

Je suis pour mon poème un squelette inutile,

qui ferait mieux dans un linceul.

Il est adulte, il peut devenir la presqu’île,

l’oiseau, l’azur et le tilleul.

 

Je n’ai plus rien à dire, Ô poète: en silence

je rêve au défi de rêver.

Mon poème sans moi en soi-même se pense,

luxure dont il m’a privé.

 

O poeta e sua musa

(Giorgio de Chirico: pintor italiano)

 

Do verbo o verbo...

 

É o poema em mim que escreve o meu poema,

do verbo o verbo se origina.

Ele é meu ocupante; e nem sei se me ama.

Quer a poesia, essa inquilina,

 

meu espaço vital gerir e, furibunda,

ralha: quem sabe estou errado.

Há de absolver-me um dia; em sua porção mais funda,

eu lhe preparo um melhor fado.

 

Faremos par feliz; há de a minha alegria

vencer-lhe toda inquietação.

Os trêmulos detesta; a mim não cederia

emprego algum: a narração,

 

nem a trama, ou a letra, ou mesmo a melodia,

pois tudo quer decidir logo.

Meu cérebro retrai-se e a minha razão fria

não vale um dado posto em jogo.

 

Sou para o meu poema esqueleto ilusório;

numa mortalha ia melhor.

Ele é adulto, pode ser o promontório,

a ave, o azul e a tília em flor.

 

Nada mais a dizer, poeta; quieto assim

sonhando com sonhar eu vou.

Em si mesmo se pensa o poema, sem mim;

luxúria de que me privou.

 

Referência:

 

BOSQUET, Alain. Le mot par le mot / Do verbo o verbo... Tradução de Mário Laranjeira. In: LARANJEIRA, Mário (Seleção, tradução e introdução). Poetas de França hoje: 1945-1995. Edição bilíngue. Apresentação de Nelson Ascher. São Paulo, SP: Edusp, 1996. Em francês e em português: p. 56-57.

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