O título atribuído
por Adams a este poema – “April Mortality” – mostra-se de algum modo
antitético, pois congrega duas ideias que notoriamente se opõem, a saber: de um
lado, a menção a abril, mês em que se inicia a primavera no hemisfério norte, símbolo
de renovação; e de outro, a perspectiva de mortalidade, apontando, por
conseguinte, para os territórios antípodas do deperecimento e da decadência.
Estruturado como um
diálogo entre a voz da experiência – os ossos ancestrais – e um coração vulnerável,
o poema desmonta a ilusão de permanência e abraça uma amarga resignação: o
potencial eterno da beleza nunca se materializa de modo pleno, exaurindo-se sem
apelo no limbo da fugacidade, motivo pelo qual se deve ter consciência de que a
morte é implacável, de que ela nos é um atávico e infausto desenlace.
J.A.R. – H.C.
Léonie Adams
(1899-1988)
April Mortality
Rebellion shook an
ancient dust,
And bones, bleached dry of rottenness,
Said: Heart, be
bitter still, nor trust
The earth, the sky,
in their bright dress.
Heart, heart, dost
thou not break to know
This anguish thou
wilt bear alone?
We sang of it an age
ago,
And traced it dimly
upon stone.
With all the drifting
race of men
Thou also art begot
to mourn
That she is crucified
again,
The lonely Beauty yet
unborn.
And if thou dreamest
to have won
Some touch of her in
permanence,
’Tis the old cheating
of the sun,
The intricate lovely
play of sense.
Be bitter still,
remember how
Four petals, when a
little breath
Of wind made stir the
pear-tree bough,
Blew delicately down
to death.
Natureza-morta com
buquê e crânio
(Adriaen van Utrecht:
pintor flamengo)
Mortalidade de Abril
A rebelião sacudiu uma
poeira antiga, e os ossos,
Alvos e dessecados da
podridão, sentenciaram:
Coração, conserva-te
amargo e não confies
Na terra e no céu, em
seus refulgentes atavios.
Coração, coração, não
te despedaças por saber
Que esta angústia
haverás de suportar a sós?
Nós a cantamos em eras
remotas,
E tenuemente a
inscrevemos em pedra.
Com toda a estirpe
errante dos homens,
Tu também estás fadado
a lamentar
Que ela seja
novamente crucificada,
A solitária Beleza
ainda por nascer.
E se dela sonhas
haver apreendido
Algum vestígio
perdurável,
Trata-se apenas do
velho ludíbrio do sol,
A intrincada e bela
farsa dos sentidos.
Persiste em teu
amargor: recorda como
Quatro pétalas, ao
leve sopro
Do vento sobre o ramo
da pereira,
voaram delicadamente
para a morte.
Referência:
ADAMS, Léonie. April mortality. In: __________. Poems: a selection. New York, NY: Funk & Wagnalls Co., 1954. p. 100.
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