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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Léonie Adams - Mortalidade de Abril

O título atribuído por Adams a este poema – “April Mortality” – mostra-se de algum modo antitético, pois congrega duas ideias que notoriamente se opõem, a saber: de um lado, a menção a abril, mês em que se inicia a primavera no hemisfério norte, símbolo de renovação; e de outro, a perspectiva de mortalidade, apontando, por conseguinte, para os territórios antípodas do deperecimento e da decadência.

 

Estruturado como um diálogo entre a voz da experiência – os ossos ancestrais – e um coração vulnerável, o poema desmonta a ilusão de permanência e abraça uma amarga resignação: o potencial eterno da beleza nunca se materializa de modo pleno, exaurindo-se sem apelo no limbo da fugacidade, motivo pelo qual se deve ter consciência de que a morte é implacável, de que ela nos é um atávico e infausto desenlace.

 

J.A.R. – H.C.

 

Léonie Adams

(1899-1988)

 

April Mortality

 

Rebellion shook an ancient dust,

And bones, bleached dry of rottenness,

Said: Heart, be bitter still, nor trust

The earth, the sky, in their bright dress.

 

Heart, heart, dost thou not break to know

This anguish thou wilt bear alone?

We sang of it an age ago,

And traced it dimly upon stone.

 

With all the drifting race of men

Thou also art begot to mourn

That she is crucified again,

The lonely Beauty yet unborn.

 

And if thou dreamest to have won

Some touch of her in permanence,

’Tis the old cheating of the sun,

The intricate lovely play of sense.

 

Be bitter still, remember how

Four petals, when a little breath

Of wind made stir the pear-tree bough,

Blew delicately down to death.

 

Natureza-morta com buquê e crânio

(Adriaen van Utrecht: pintor flamengo)

 

Mortalidade de Abril

 

A rebelião sacudiu uma poeira antiga, e os ossos,

Alvos e dessecados da podridão, sentenciaram:

Coração, conserva-te amargo e não confies

Na terra e no céu, em seus refulgentes atavios.

 

Coração, coração, não te despedaças por saber

Que esta angústia haverás de suportar a sós?

Nós a cantamos em eras remotas,

E tenuemente a inscrevemos em pedra.

 

Com toda a estirpe errante dos homens,

Tu também estás fadado a lamentar

Que ela seja novamente crucificada,

A solitária Beleza ainda por nascer.

 

E se dela sonhas haver apreendido

Algum vestígio perdurável,

Trata-se apenas do velho ludíbrio do sol,

A intrincada e bela farsa dos sentidos.

 

Persiste em teu amargor: recorda como

Quatro pétalas, ao leve sopro

Do vento sobre o ramo da pereira,

voaram delicadamente para a morte.

 

Referência:

 

ADAMS, Léonie. April mortality. In: __________. Poems: a selection. New York, NY: Funk & Wagnalls Co., 1954. p. 100.

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