Knopfli nos apresenta
uma dissecação lúcida, irônica e ambivalente de sua própria identidade,
centrada na herança portuguesa, com um contraponto suíço mínimo, porém
significativo, ao término da qual resulta um retrato não exatamente complacente
de si mesmo, mas certa sintomia de contradições e traços culturais
profundamente enraizados, alguns dos quais lhe parecem incômodos.
Nesse bosquejo sem
autoindulgência, o falante se expõe entre luzes (a capacidade lírica, a paixão)
e sombras (a amargura, a má-língua, o fatalismo), ou ainda, entre a robusta
ancoragem no sensorial (vinho, comida, olhar lascivo, prazer da fala) –vestígios legados dos ancestrais lusitanos –, e a herança suíça, abstrata (presente
em um de seus sobrenomes) e funcional (um relógio de bolso antigo).
J.A.R. – H.C.
Rui Manuel Correia
Knopfli
(1932-1997)
Autorretrato
De português tenho a
nostalgia lírica
de coisas
passadistas, de um a infância
amortalhada entre
loucos girassóis e folguedos;
a ardência árabe dos
olhos, o pendor
para os extremos: da
lágrima pronta
à incandescência
súbita das palavras contundentes,
do riso claro à
angústia mais amarga.
De português, a
costela macabra, a alma
enquistada de fado,
resistente a todas
as ablações de ordem
cultural e o saber
que o tinto, melhor
que o branco,
há-de atestar a taça
na ortodoxia
de certas vitualhas
de consistência e paladar telúrico.
De português, o
olhinho malandro, concupiscente
e plurirracial, lesto
na mirada ao seio
entrevisto, à nesga
de perna, à fímbria de nádega;
a resposta certeira e
lépida a dardejar nos lábios,
o prazer saboroso e
enternecido da má-língua.
De suíço tenho,
herdados de meu bisavô,
um relógio de bolso
antigo e um vago, estranho nome.
Em: “Memória
consentida” (1982)
O passado no presente
(Natasha Kramskaya:
artista ucraniana)
Referência:
KNOPFLI, Rui. Autorretrato. In: FERREIRA, Manuel (Ed.). 50 Poetas Africanos. Lisboa, PT: Plátano, 1989. p. 384.
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