No teatro, que é a
mente, tem-se a percepção limitada do que seja o drama da eterna – e às vezes pungente
– busca por pertencimento e plenitude na vida, sempre a tornar um pouco mais deslocado
o nosso lugar neste vasto cenário do mundo, um pouco menos definida o que consideramos
ser a nossa verdadeira identidade.
Nesse proscênio óptico,
a mente concebe uma cena em que o próprio “eu” é a personagem observada à
distância, a causar-lhe algum estranhamento ao se configurar como um objeto
distante, quase irreconhecível, um simples ponto em movimento numa paisagem que
é a vastidão bela e profusa do meio natural e, mais extensivamente, do cosmos.
J.A.R. – H.C.
António Gedeão
(1906-1997)
Teatro óptico
Invoco, nos longes, a
minha presença impossível.
Os longes são
permanentes.
Lá, onde a beleza
reside, deliquescentes
azuis, sóis e luares,
são permanência intangível.
Lá.
Ser incluso pormenor
naquela bruma,
esboçado apenas como
um desenho por acabar.
Ser lá, presente como
aqui: uma
como nenhuma
distância entre o meu
ser aqui e o meu estar lá.
Ir-me além, naquele
cerro a ascender-se.
Ver-me daqui a
subi-lo.
Perguntar-me “o que é
aquilo?”,
imperceptível
mexer-se.
Eucaliptos, casas,
montes,
águas, pedras,
horizontes.
coisas finitas em si.
Outeiros, vales,
caminhos,
sebes, rochedos,
moinhos...
Tudo no mundo. E eu
daqui.
Em: “Movimento
Perpétuo” (1956)
Grande rocha entre os
juncos
(Maureen Finck:
artista australiana)
Referência:
GEDEÃO, António. Teatro óptico. In: __________. Poesias completas: 1956-1967. 7. ed. Lisboa, PT: Portugália, 1978. p. 43-44. (Coleção “Poetas de Hoje”; v. 17)
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