Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 11 de junho de 2026

António Gedeão - Teatro óptico

No teatro, que é a mente, tem-se a percepção limitada do que seja o drama da eterna – e às vezes pungente – busca por pertencimento e plenitude na vida, sempre a tornar um pouco mais deslocado o nosso lugar neste vasto cenário do mundo, um pouco menos definida o que consideramos ser a nossa verdadeira identidade.

 

Nesse proscênio óptico, a mente concebe uma cena em que o próprio “eu” é a personagem observada à distância, a causar-lhe algum estranhamento ao se configurar como um objeto distante, quase irreconhecível, um simples ponto em movimento numa paisagem que é a vastidão bela e profusa do meio natural e, mais extensivamente, do cosmos.

 

J.A.R. – H.C.

 

António Gedeão

(1906-1997)

 

Teatro óptico

 

Invoco, nos longes, a minha presença impossível.

Os longes são permanentes.

Lá, onde a beleza reside, deliquescentes

azuis, sóis e luares, são permanência intangível.

 

Lá.

Ser incluso pormenor naquela bruma,

esboçado apenas como um desenho por acabar.

Ser lá, presente como aqui: uma

como nenhuma

distância entre o meu ser aqui e o meu estar lá.

 

Ir-me além, naquele cerro a ascender-se.

Ver-me daqui a subi-lo.

Perguntar-me “o que é aquilo?”,

imperceptível mexer-se.

 

Eucaliptos, casas, montes,

águas, pedras, horizontes.

coisas finitas em si.

Outeiros, vales, caminhos,

sebes, rochedos, moinhos...

Tudo no mundo. E eu daqui.

 

Em: “Movimento Perpétuo” (1956)

 

Grande rocha entre os juncos

(Maureen Finck: artista australiana)

 

Referência:

 

GEDEÃO, António. Teatro óptico. In: __________. Poesias completas: 1956-1967. 7. ed. Lisboa, PT: Portugália, 1978. p. 43-44. (Coleção “Poetas de Hoje”; v. 17)

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