Neste que é o poema
introdutório do “Tercer Libro de las Odas” (“Terceiro Libro das Odes”), publicado
originalmente em 1957, Neruda nos oferece uma declaração dos princípios
de sua Lírica em plena fase de maturidade, sob cujos influxos aborda a poesia
como um elemento vital, tão necessário e diverso como o próprio mundo, democratizando-a
e tornando-a um instrumento síncrono de força e de beleza.
O poeta se vê como um
generoso artesão que, a partir de uma perspectiva sóbria e conscienciosa em
relação à premência do tempo, recolhe os materiais mais díspares – do sombrio
ao jubiloso, do selvagem ao doméstico, sem fugir do concreto nem do obscuro,
com fé inquebrantável no poder último da poesia –, para assim forjar um canto a
todos oferecido, sobejamente dotado de predicados para atrair harmonia à
realidade.
J.A.R. – H.C.
(1904-1973)
Odas de Todo el Mundo
Odas para el que pase
galopando
bajo ramas mojadas
en invierno.
Odas
de todos
los colores y tamaños,
seráficas, azules
o violentas,
para comer,
para bailar,
para seguir las
huellas en Ia arena,
para ser y no ser.
Yo vendo odas
delgadas
en ovillo,
como alambre,
otras como cucharas,
vendo
algunas selváticas,
corren con pies de
puma:
se deben manejar
con precaución, con
rejas:
salieron
de los antiguos
bosques,
tienen hambre.
También escribo
para costureras
odas
de inclinación
doliente,
cubiertas por
el
aroma
enterrado
de las Iilas.
Otras
tienen
silvestres minerales,
dureza de los montes
de mi patria,
o simplemente
amor ultramarino.
En fin,
decidirán ustedes
lo que llevan:
tomates
o venados
o cemento,
oscuras alegrías infundadas,
trenes
que
silban
solos
transmigrando
por regiones
con frío y aguacero.
De todo
un poco
tengo para todos.
Yo sé
que hay otras
y otras
cosas
rondando alrededor
de Ia noche o debajo
de los muebles o
adentro
del corazón
perdido.
Sí,
pero
tengo tiempo,
tengo aún mucho
tiempo,
– tengo una caracola
que recoge
Ia tenaz melodía
del secreto
y Ia guarda
en su caja
convertida en
martillo o mariposa –
tiempo
para
mirar
piedras sombrías
o recoger
aún
agua olvidada
y para darte
a ti
o a quien lo quiera
Ia primavera larga de
mi lira.
Así, pues,
en tus manos
deposito
este atado
de flores y herraduras
y adiós,
hasta más tarde:
hasta más pronto:
hasta que todo
sea
y sea canto.
En: “Tercer Libro de
las Odas” (1957)
(Jan Davidsz de Heem:
pintor holandês)
Odes de Todo o Mundo
Odes para o que passe
galopando
sob ramos molhados
no inverno.
Odes
de todas
as cores e tamanhos,
seráficas, azuis
ou violetas,
para comer,
para bailar,
para seguir os
rastros pela areia,
para ser e não ser.
Eu vendo odes
finas
em novelo,
como, arame,
outras como colheres,
vendo
algumas selvagens,
correm com pés de
puma:
devem-se manejar
com precaução,
protegidas:
saíram
dos antigos bosques,
têm fome.
Também escrevo
para costureiras
odes
de inclinação dolente,
cobertas
pelo
aroma
enterrado
dos lilases.
Outras
têm
silvestres minerais,
dureza dos montes
de minha pátria,
ou simplesmente
amor ultramarino.
Enfim,
vocês decidirão
o que levar:
tomates
ou veados
ou cimento,
obscuras alegrias
infundadas,
trens
que
apitam
solitários
transmigrando
por regiões
de frio e aguaceiro.
De tudo
um pouco
tenho para todos.
Bem sei
que há outras
coisas
rodando ao redor
da noite ou debaixo
dos móveis ou dentro
do coração
perdido.
Sim,
mas
tenho tempo,
tenho ainda muito
tempo
– tenho um caracol
que recolhe
a tenaz melodia
do segredo
e guarda-a
em sua caixa
convertida em martelo
ou mariposa –,
tempo
para
olhar
pedras sombrias
ou recolher
ainda
água esquecida
e para te dar
a ti
ou a quem quiser
a longa primavera de
minha lira.
E assim
em tuas mãos
deposito
este feixe
de flores e
ferraduras
e adeus,
até mais tarde:
até logo:
até que tudo
seja
e seja canto.
Em: “Terceiro Livro
das Odes” (1957)
Referências:
Em Espanhol
NERUDA, Pablo. Odas
de todo el mundo. In: __________. Selected odes of Pablo Neruda. A
bilingual edition: spanish x english. Translated, with an introduction by
Margaret Sayers Peden. Berkeley, CA: University of California Press, 1990. p.
240, 242, 244 and 246.
Em Português
NERUDA, Pablo. Odes de todo o mundo. Tradução de Thiago de Mello. In: __________. Antologia poética de Pablo Neruda. Tradução de Thiago de Mello. Rio de Janeiro, GB: Letras e Artes, 1964. p. 139-142.
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