Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 14 de junho de 2026

Carlos Soulié do Amaral - Despertar

O poeta paulista combina versos de tom quase agônico com uma observação minuciosa e poeticamente deslumbrante do amanhecer, de forma a caracterizar uma experiência algo mítica pelo emprego de uma linguagem carregada de simbolismos, sob cujos efeitos se afigura um cântico à persistência, à resistência obstinada, a aflorar entre feixes alquímicos de um renascer, com o poder de transformar a náusea quotidiana em arte.

 

Nesse momento cromático e liminar, a rotina se converte numa luta épica, quiçá prometeica, contra o peso avassalador da existência, com os seus desgostos e aversões, frente aos quais há que se continuar, de opor-se à inércia do nada ou à rendição, ainda que às custas de um exercício forçado, de uma faina incômoda ou antinatural.

 

J.A.R. – H.C.

 

Carlos Soulié do Amaral

(n. 1944)

 

Despertar

 

Por mais que pese o imemorial e vasto

cansaço, e a náusea e o asco,

por mais que tudo se revele gasto,

há que tentar ainda resistir

ao peso, à náusea, ao asco

e a pálpebra da pálpebra soltar

e permitir que um a vez mais se faça

aquela bruma fluida e elástica

que em sonho e frio se entrelaça

uma vez mais

e, lentamente, qual ginástica

de lesmas na fumaça,

uma vez mais

abrir os olhos para ver a treva

de pelos brancos ficar salpicada.

E, pouco a pouco, emergir dela

até domar essa tordilha cor,

mista de sono, noite, madrugada,

que empina o dia, mais um dia

subitamente aceso na janela.

 

Em: “Verba” (1999)

 

Paisagem matinal

(Frederic Edwin Church: pintor norte-americano)

 

Referência:

 

AMARAL, Carlos Soulié do. Despertar. In: FARIA, Álvaro Alves de; MOISÉS, Carlos Felipe (Orgs.). Antologia poética da geração 60. 1. ed. São Paulo, SP: Nankin Editorial, set. 2000. p. 214-215. 

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