O poeta paulista
combina versos de tom quase agônico com uma observação minuciosa e poeticamente
deslumbrante do amanhecer, de forma a caracterizar uma experiência algo mítica pelo
emprego de uma linguagem carregada de simbolismos, sob cujos efeitos se afigura
um cântico à persistência, à resistência obstinada, a aflorar entre feixes alquímicos
de um renascer, com o poder de transformar a náusea quotidiana em arte.
Nesse momento
cromático e liminar, a rotina se converte numa luta épica, quiçá prometeica,
contra o peso avassalador da existência, com os seus desgostos e aversões, frente
aos quais há que se continuar, de opor-se à inércia do nada ou à rendição,
ainda que às custas de um exercício forçado, de uma faina incômoda ou
antinatural.
J.A.R. – H.C.
Carlos Soulié do Amaral
(n. 1944)
Despertar
Por mais que pese o
imemorial e vasto
cansaço, e a náusea e
o asco,
por mais que tudo se
revele gasto,
há que tentar ainda
resistir
ao peso, à náusea, ao
asco
e a pálpebra da
pálpebra soltar
e permitir que um a
vez mais se faça
aquela bruma fluida e
elástica
que em sonho e frio
se entrelaça
uma vez mais
e, lentamente, qual
ginástica
de lesmas na fumaça,
uma vez mais
abrir os olhos para
ver a treva
de pelos brancos
ficar salpicada.
E, pouco a pouco,
emergir dela
até domar essa
tordilha cor,
mista de sono, noite,
madrugada,
que empina o dia,
mais um dia
subitamente aceso na
janela.
Em: “Verba” (1999)
Paisagem matinal
(Frederic Edwin
Church: pintor norte-americano)
Referência:
AMARAL, Carlos Soulié do. Despertar. In: FARIA, Álvaro Alves de; MOISÉS, Carlos Felipe (Orgs.). Antologia poética da geração 60. 1. ed. São Paulo, SP: Nankin Editorial, set. 2000. p. 214-215.
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