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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Olga Savary - Acomodação do desejo

Este tríptico de Savary é uma ode ao erotismo feminino como força vital, criativa e transformadora, extensível ao cósmico, que se convola em sua máxima expressão a um êxtase que é, ao mesmo tempo, entrega, fusão, uma breve morte ritual e um jogo sagrado.

 

A poetisa eleva o ato físico a uma experiência mística e metafísica, celebrando o seu poder, os seus mistérios e sua inerente beleza, sempre a partir de uma voz que se mostra digna dos prazeres que experimenta e de seu próprio destino.

 

O clímax sexual passa a ser visto, sob tal perspectiva, como uma forma de morte simbólica – não exatamente trágica, senão lúcida, rítmica e primordial toda prova –, uma espécie de trânsito liminar compartilhado, intensamente desejado e fruído, intraduzível em seus veneráveis enigmas a uma integral expressão poética, ou bem por insuficiência da linguagem ou bem por não tencionar se revelar completamente.

 

J.A.R. – H.C.

 

Olga Savary

(1933-2020)

 

Acomodação do desejo

 

I

 

Quando abro o corpo à loucura, à correnteza,

reconheço o mar em teu alto búzio

vindo a galope enquanto cavalgas lento

meu corredor de águas.

 

A boca perdendo a vida sem tua seiva,

os dedos perdendo tempo enquanto

para o amado a amada se abre em flor e fruto

(não vês que esta mulher te faz mais belo?).

 

A vida no corpo alegre de existir,

fiquei à espreita dos grandes cataclismos:

daí beber na festa do teu corpo

que me galga esse castelo de águas.

 

II

 

Dos que se amam na cama rente às nuvens,

nestes jardins ferozes, vê-se que amanhecem.

Nela, anca e espáduas eram como água.

Nele, tudo semelhante à terra. Seus corpos:

êxtase e terror dos deuses.

Que o comova o silêncio de seu corpo morno,

o fragor mudo do seu corpo desabado.

E que ela se abra como se abre uma urna

que se abre não revelando o conteúdo.

 

III

 

Deito-me com quem é livre à beira dos abismos

e estou perto do meu desejo.

 

Depois do silêncio úmido dos lugares de pedra,

dos lugares de água, dos regatos perdidos,

lá onde morremos de um vago êxtase,

de uma requintada barbárie estávamos morrendo,

lá onde meus pés estavam na água

e meu coração sob meus pés,

se seguisses minhas pegadas

e ao êxtase me seguisses

até morrermos, uma tal morte

seria digna de ser morrida.

 

Então morramos dessa breve morte lenta,

cadenciada, rude, dessa morte lúdica.

 

Em: “Magma” (1982)

 

As acomodações do desejo

(Salvador Dalí: pintor espanhol)

 

Referência:

 

SAVARY, Olga. Acomodação do Desejo I, II e III. In: __________. Coração subterrâneo: poemas escolhidos. Posfácio de Laura Erber. 1. ed. São Paulo, SP: Todavia, 2021. p. 73-75.

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