Alpes Literários

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Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Mina Loy - Cilindros Humanos

Desde o título, já se pode ter uma ideia do que a poetisa inglesa esgaravateia nestes versos, numa elocução fragmentada e desafiadora: a essência alienada e frustrada da condição humana na sociedade contemporânea, reverberada num grito contra a mecanização do espírito, a perda de conexões autênticas e os perigos de se reduzir a complexidade do ser e do universo a perspectivas simplistas.

 

São particularmente perceptíveis as incursões sobre os temas do revés da linguagem e da comunicação para nos aproximar de um modo saudável – tanto mais porque enredados nos ardis da autoconsciência –, bem assim o do vazio existencial, que nos atira num sem-sentido crepuscular, atônitos entre as molas do desejo de uma regressão ao plano animal e a aspiração a algo mais além do meramente mundano – transcendente, intuitivo, cósmico.

 

J.A.R. – H.C.

 

Mina Loy

(1882-1966)

 

Human Cylinders

 

The human cylinders

Revolving in the enervating dusk

That wraps each closer in the mystery

Of singularity

Among the litter of a sunless afternoon

Having eaten without tasting

Talked without communion

And at least two of us

Loved a very little

Without seeking

To know if our two miseries

In the lucid rush-together of automatons

Could form one opulent wellbeing

 

Simplifications of men

In the enervating dusk

Your indistinctness

Serves me the core of the kernel of you

When in the frenzied reaching out of intellect to intellect

Leaning brow to brow     communicative

Over the abyss of the potential

Concordance of respiration

Shames

Absence of corresponding between the verbal sensory

And reciprocity

Of conception

And expression

Where each extrudes beyond the tangible

One thin pale trail of speculation

From among us we have sent out

Into the enervating dusk

One little whining beast

Whose longing

Is to slink back to antediluvian burrow

And one elastic tentacle of intuition

To quiver among the stars

 

The impartiality of the absolute

Routs     the polemic

Or which of us

Would not

Receiving the holy-ghost

Catch it     and caging

Lose it

Or in the problematic

Destroy the Universe

With a solution

 

(Imagem sem créditos)

 

Cilindros Humanos

 

Os cilindros humanos

Revolvendo-se no ocaso enervante

Que os aconchega no mistério

Da singularidade

Em meio ao lixo de uma tarde sem sol

Tendo comido sem saborear

Falado sem comungar

E ao menos dois de nós

Amamos minimamente

Sem procurar

Saber se nossas duas misérias

No afã-encontro lúcido de autômatos

Poderiam formar um bem-estar opulento

 

Simplificações de homens

No ocaso enervante

Sua indistinção

Me serve o colo do caroço de você

Quando no frenético lançar-se de intelecto a intelecto

Juntando fronte a fronte     comunicativos

Sobre o abismo do potencial

Concordância de respiração

Vergonhas

Ausência de correlação entre o sensorial verbal

E reciprocidade

De concepção

E expressão

Onde cada um excreta além do tangível

Um rastro fino e frágil de especulação

Dentre nós enviamos

Ao ocaso enervante

Uma pequena besta queixosa

Que anseia

Por volver à toca antediluviana

E um tentáculo elástico de intuição

Para fremir entre as estrelas

 

A imparcialidade do absoluto

Rechaça     a polêmica

Ou qual de nós

Não iria

Ao receber o espírito santo

Apanhá-lo     e engaiolando

Perdê-lo

Ou na problemática

Destruir o Universo

Com uma solução

 

Referência:

 

LOY, Mina. Human cylinders / Cilindros humanos. Tradução de Maíra Mendes Galvão. In: MENDONÇA, Vanderley (Ed.). Lira argenta: poesia em tradução. Edição bilíngue. São Paulo, SP: Selo Demônio Negro, 2017. Em inglês: p. 206 e 208; em português: p. 207 e 209.

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