Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 31 de maio de 2026

Charles Simic - Errata

Simic, como poderia se deduzir apressadamente por meio do título atribuído a este poema, não nos pede para que corrijamos um texto através da leitura, senão que reinterpretemos radicalmente a realidade, capturando a verdade por trás de crueldades, traumas e exílios, eventos para os quais a linguagem convencional dificilmente oferece retratos fidedignos.

 

Em consequência, remanesce um peso enorme por aquilo que não foi dito, expressado terminantemente, ou o que foi expresso de modo falho, distorcido, equivocado, insuficiente, enganoso: a violência sofrida, o desenraizamento experimentado, as palavras omitidas que se tornaram cicatrizes, o erro existencial de guardar silêncio quando o que mais se exigia era um potente grito de repúdio.

 

J.A.R. – H.C.

 

Charles Simic

(1938-2023)

 

Errata

 

Where it says snow

read teeth marks of a virgin

Where it says knife read

you passed through my bones

like a police whistle

Where it says table read horse

Where it says horse read my migrant’s bundle

Apples are to remain apples

Each time a hat appears

think of Isaac Newton

reading the Old Testament

Remove all periods

They are scars made by words

I couldn’t bring myself to say

Put a finger over each sunrise

it will blind you otherwise

That damn ant is still stirring

Will there be time left to list

all errors to replace

all hands guns owls plates

all cigars ponds woods and reach

that beer bottle my greatest mistake

the word I allowed to be written

when I should have shouted

her name

 

Ritmo

(Sonia Delaunay: pintor ucraniano-francesa)

 

Errata

 

Onde se lê neve

leia-se marca da mordida de uma virgem

Onde se lê faca leia-se

atravessaste-me os ossos

como um silvo da polícia

Onde se lê mesa leia-se cavalo

Onde se lê cavalo leia-se meu fardo de migrante

Que as maçãs continuem a chamar-se maçãs

Toda vez que aparecer um chapéu

pense em Isaac Newton

lendo o Antigo Testamento

Remova todos os pontos finais

São eles cicatrizes engendradas por palavras

que não me atreveria a dizer

Ponha um dedo sobre cada amanhecer

pois do contrário ele vai pô-lo às cegas

Aquela maldita formiga ainda está se mexendo

Haverá tempo para elencar

todos os erros a retificar

todas as mãos armas mochos pratos

todos os cigarros lagoas bosques e alcançar

aquela garrafa de cerveja meu erro maior

a palavra que me permiti escrever

quando deveria ter gritado

o seu nome

 

Referência:

 

SIMIC, Charles. Errata. In: __________. New and selected poems: 1962-2012. Boston (MA): Houghton Mifflin Harcourt, 2013. p. 20.

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