Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Conrad Aiken - Exílio

Aiken formula nestas linhas uma metáfora sombria sobre a devastação espiritual que se produz a partir da perda do “lar essencial”, seja ele de ordem geográfica ou – o que é mais provável! – emocional/existencial: transformado numa espécie de aranha, o falante nos fala de um processo de desumanização última que um “exílio” prolongado pode acarretar, ao longo do qual a única adaptação possível, lôbrega e inapelável, passa pela conversão do sujeito na própria aridez que o consome.

 

A voz lírica aspira por beleza e vitalidade, privativas de um paraíso exuberante no qual o ar se enche de ditosas expectativas, tudo como antítese direta ao entorno ermo e hostil em que se encontra. Contudo, finda o poema num tom de resignação do falante com o seu estado vulnerável e desesperançado, de morte em vida, ao fio de uma espectral sobrevivência sustentada pela umidade do orvalho – insuficiente, mas indispensável.

 

J.A.R. – H.C.

 

Conrad Aiken

(1889-1973)

 

Exile

 

These hills are sandy. Trees are dwarfed here. Crows

Caw dismally in skies of an arid brilliance,

Complain in dusty pine-trees. Yellow daybreak

Lights on the long brown slopes a frost-like dew,

Dew as heavy as rain; the rabbit tracks

Show sharply in it, as they might in snow.

But it’s soon gone in the sun – what good does it do?

The houses, on the slope, or among brown trees,

Are grey and shrivelled. And the men who live here

Are small and withered, spider-like, with large eyes.

 

Bring water with you if you come to live here –

Cold tinkling cisterns, or else wells so deep

That one looks down to Ganges or Himalayas.

Yes, and bring mountains with you, white, moon-bearing,

Mountains of ice. You will have need of these

Profundities and peaks of wet and cold.

 

Bring also, in a cage of wire or osier,

Birds of a golden colour, who will sing

Of leaves that do not wither, watery fruits

That heavily hang on long melodious boughs

In the blue-silver forests of deep valleys.

 

I have now been here – how many years? Years unnumbered.

My hands grow clawlike. My eyes are large and starved.

I brought no bird with me, I have no cistern

Where I might find the moon, or river, or snow.

Some day, for lack of these, I’ll spin a web

Between two dusty pine-tree tops, and hang there

Face downward, like a spider, blown as lightly

As ghost of leaf. Crows will caw about me.

Morning and evening I shall drink the dew.

 

Estado de Exílio

(Scott McLachlan: artista escocês)

 

Exílio

 

Estas colinas são arenosas. As árvores aqui se ananzam. Corvos

Crocitam lugubremente seus gemidos em pinheiros poeirentos,

Sob céus de um árido resplendor. A amarelada aurora

Banha as longas encostas pardas com um orvalho escarchado,

Um orvalho tão denso quanto a chuva; nele, as pegadas

De coelho destacam-se com nitidez, como se sobre a neve.

Mas logo o sol o dissipa – qual o proveito que dele resulta?

As casas, sobre a encosta ou entre as árvores pardas,

São cinzentas e engelhadas. E os homens que cá vivem,

Pequenos e mirrados, araneiformes, têm grandes olhos.

 

Trazei água convosco, caso venhais aqui habitar:

Cisternas frias e tilintantes, ou então poços tão profundos

Nos quais se possam descortinar o Ganges ou os Himalaias.

Sim, e trazei montanhas convosco, brancas, lunares,

Montanhas de gelo. Vós tereis necessidade de tais

Profundezas, bem assim desses cumes úmidos e frios.

 

Trazei também, numa gaiola de vime ou de aço,

Pássaros dourados, que haverão de trinar seus cantos

Às folhagens que não murcham, frutos aquosos

Que pendem pesadamente de ramos longos e melódicos

Nas florestas azul-prateadas de vales profundos.

 

Já cá estou há quantos anos? Há incontáveis anos.

Minhas mãos tornam-se garras. Meus olhos, grandes e famintos.

Não trouxe pássaro algum comigo, não tenho cisterna

Onde eu possa encontrar a lua, o rio ou a neve.

Um dia, por falta disso, tecerei uma teia

Entre duas copas de pinheiros poeirentos, e ali penderei

De ponta-cabeça, como uma aranha, soprado tão levemente

Quanto um espectro de folha. Corvos crocitarão à minha volta.

Ao alvorecer e ao crepúsculo, sorverei o orvalho.

 

Referência:

 

AIKEN, Conrad. Exile. In: __________. Selected poems. With a new foreword by Harold Bloom. New York, NY: Oxford University Press, 2003. p. 44-45.

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