Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 22 de novembro de 2014

William Wordsworth: os ratos como pensionários

Wordsworth, notável poeta inglês – que aqui nunca esteve por pura desatenção do timoneiro deste blog –, recebe neste momento a devida consideração e respeito por sua obra, por meio de uma poesia, ou melhor, um excerto de um longo poema, a tratar do mesmo tema de um marcador que já avança para sua marca centenária: a apologia do gato.

J.A.R. – H.C.
William Wordsworth
(1770-1850)
Retrato de William Shuter (1798)

Addressed to a Child
(Excerpt)

Long may you love your pensioner mouse,
Though one of a tribe that torment the house:
Nor dislike for her cruel sport the cat,
Deadly foe both of mouse and rat;
Remember she follows the law of her kind,
And Instinct is neither wayward nor blind.
Then think of her beautiful gliding form,
Her tread that would scarcely crush a worm,
And her soothing song by the winter fire,
Soft as the dying throb of the lyre. 


Destinado a uma Criança
(Excerto)

Por muito tempo você pode amar o seu rato pensionário,
Ainda que seja de uma tribo que atormenta a casa:
Tampouco desaprova a gata por seu cruel esporte,
Inimiga mortal tanto do rato quanto da rata;
Relembre que ela segue a lei de seu tipo,
E o instinto nem é caprichoso nem cego.
Pense então em sua bela e deslizante figura,
Seu passo que a muito custo esmagaria um verme,
E sua canção tranquilizadora junto ao fogo do inverno,
Suave como o acorde minguante da lira.

Referência:

WORDSWORTH, William. Loving and liking: addressed to a child (excerpt). In: __________. The complete poetical works: poems founded on the affections. London (EN): Edward Moxon, Son, and Co., 1869. p. 104.
ö

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Efeitos Poéticos na Dicotomia Público x Privado

Para começar bem o dia, trago um poema do escritor mineiro Affonso Romano de Sant’Anna: “A Coisa Pública e a Privada”. O trocadilho que ele emprega entre os termos “público” e “privado” aproveita-se da polissemia deste último vocábulo para atingir um efeito bastante cômico.

J.A.R. – H.C.


Affonso Romano de Sant’Anna
(n. 1937)

A Coisa Pública e a Privada

Entre a coisa pública
e a privada
achou-se a República
assentada.

Uns queriam privar
da coisa pública
outros queriam provar
da privada,
conquanto, é claro,
que, na provação,
a privada, publicamente
parecesse perfumada.

Dessa luta intestina
entre a gula pública e a privada
a República
acabou desarranjada
e já ninguém sabia
quando era a empresa pública
privada pública
ou
pública privada.

Assim ia a rês pública: avacalhada
uma rês pública: charqueada
uma rês pública, publicamente
corneada, que por mais
que lhe batessem na cangalha
mais vivia escangalhada.

Qual o jeito?
Submetê-la a um jejum?
Ou dar purgante à esganada
que embora a prisão de ventre
tinha a pança inflacionada?

O que fazer?
Privatizar a privada
onde estão todos
publicamente assentados?
Ou publicar, de uma penada,
que a coisa pública
se deixar de ser privada
pode ser recuperada?

– Sim, é preciso sanear,
desinfetar a coisa pública,
limpar a verba malversada,
dar descarga na privada.

Enfim, acabar com a alquimia
de empresas públicas-privadas
que querem ver suas fezes
em ouro alheio transformadas.


Referência:

SANT’ANNA, Affonso Romano de. A coisa pública e a privada. In: __________.
Intervalo amoroso & Outros poemas escolhidos. Porto Alegre: L&PM, 2009 (Coleção L&PM Pocket n. 153). p. 19-20.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Maurice Rollinat – O Gato

Continuando na linha dos longos poemas, trazemos mais um repleto de loas aos gatos, de autoria do francês Maurice Rollinat. Nele, a figura do felino aparece detentora de ampla liberdade e, bem mais que isso, arrebatada pela luxúria. Talvez sim, talvez não, a identidade do autor com o seu bichano presumivelmente denota muito da índole mental do próprio poeta.

Observe-se que o poema em questão se encontra na seção “Luxúrias” da obra em referência, a reforçar ainda mais a sua atmosfera rica em alusões sensuais. Além disso, há versos de explícita intertextualidade, como os que se reportam a Baudelaire e seus inúmeros poemas sobre o animal, alguns dos quais aqui já postados – melhor dizendo, todos os que se encontram em sua obra-prima “As Flores do Mal”.

J.A.R. – H.C.
Maurice Rollinat
(1846-1903)
(Desenho de F. Desmoulin)

Le Chat

(À Léon Cladel)

Je comprends que le chat ait frappé Baudelaire
Par son être magique où s’incarne le sphinx;
Par le charme câlin de la lueur si claire
Qui s’échappe à longs jets de ses deux yeux de lynx,
Je comprends que le chat ait frappé Baudelaire.

Femme, serpent, colombe et singe par la grâce,
Il ondule, se cambre et regimbe aux doigts lourds;
Et lorsque sa fourrure abrite une chair grasse,
C’est la beauté plastique en robe de velours:
Femme, serpent, colombe et singe par la grâce.

Vivant dans la pénombre et le silence austère
Où ronfle son ennui comme un poêle enchanté,
Sa compagnie apporte à l’homme solitaire
Le baume consolant de la mysticité
Vivant dans la pénombre et le silence austère.

Tour à tour triste et gai, somnolent et folâtre,
C’est bien l’âme du gîte où je me tiens sous clé;
De la table à l’armoire et du fauteuil à l’âtre,
Il vague, sans salir l’objet qu’il a frôlé,
Tour à tour triste et gai, somnolent et folâtre.

Sur le bureau couvert de taches d’encre bleue
Où livres et cahiers gisent ouverts ou clos,
Il passe comme un souffle, effleurant de sa queue
La feuille où ma pensée allume ses falots,
Sur le bureau couvert de taches d’encre bleue.

Quand il mouille sa patte avec sa langue rose
Pour lustrer son poitrail et son minois si doux,
Il me cligne de l’œil en faisant une pause,
Et je voudrais toujours l’avoir sur mes genoux
Quand il mouille sa patte avec sa langue rose.

Accroupi chaudement aux temps noirs de décembre
Devant le feu qui flambe, ardent comme un enfer,
Pense-t-il aux souris dont il purge ma chambre
Avec ses crocs de nacre et ses ongles de fer?
Non ! assis devant l’âtre aux temps noirs de décembre.

Entre les vieux chenets qui figurent deux nonnes
À la face bizarre, aux tétons monstrueux,
Il songe à l’angora, mignonne des mignonnes,
Qu’il voudrait bien avoir, le beau voluptueux,
Entre les vieux chenets qui figurent deux nonnes.

Il se dit que l’été, par les bons clairs de lune,
Il possédait sa chatte aux membres si velus;
Et qu’aujourd’hui, pendant la saison froide et brune,
Il doit pleurer l’amour qui ne renaîtra plus
Que le prochain été, par les bons clairs de lune.

Sa luxure s’aiguise aux râles de l’alcôve,
Et quand nous en sortons encor pleins de désir,
Il nous jette un regard jaloux et presque fauve,
Car tandis que nos corps s’enivrent de plaisir,
Sa luxure s’aiguise aux râles de l’alcôve.

Quand il bondit enfin sur la couche entrouverte,
Comme pour y cueillir un brin de volupté,
La passion reluit dans sa prunelle verte:
Il est beau de mollesse et de lubricité
Quand il bondit enfin sur la couche entrouverte.

Pour humer les parfums qu’y laisse mon amante,
Dans le creux où son corps a frémi dans mes bras,
Il se roule en pelote, et sa tête charmante
Tourne de droite à gauche en flairant les deux draps,
Pour humer les parfums qu’y laisse mon amante.

Alors il se pourlèche, il ronronne et miaule,
Et quand il s’est grisé de la senteur d’amour,
Il s’étire en bâillant avec un air si drôle,
Que l’on dirait qu’il va se pâmer à son tour;
Alors il se pourlèche, il ronronne et miaule.

Son passé ressuscite, il revoit ses gouttières
Où, matou lovelace et toujours triomphant,
Il s’amuse à courir pendant des nuits entières
Les chattes qu’il enjôle avec ses cris d’enfant:
Son passé ressuscite, il revoit ses gouttières.

Panthère du foyer, tigre en miniature,
Tu me plais par ton vague et ton aménité,
Et je suis ton ami, car nulle créature
N’a compris mieux que toi ma sombre étrangeté,
Panthère du foyer, tigre en miniature.

Um Gato na Janela
(Van den Eycken: 1859-1923)

O Gato
(A Léon Cladel)

Compreendo que o gato haja impressionado Baudelaire
Por seu ser mágico no qual se encarna a esfinge;
Pelo charme mimoso do resplendor tão claro
Que escapa em longos raios de seus dois olhos de lince,
Compreendo que o gato haja impressionado Baudelaire.

Mulher, serpente, pomba e símia pela graça,
Ele ondula, arqueia-se e resiste aos dedos letargos;
E quando seu pelo protege uma gorda carne,
É a beleza plástica em vestido de veludo:
Mulher, serpente, pomba e símia pela graça.

Vivendo na penumbra e no silêncio austero
Onde ronca seu tédio como uma mortalha encantada,
Sua companhia leva ao homem solitário
O bálsamo consolador da mística
Vivendo na penumbra e no silêncio austero.

Volta à volta triste a alegre, sonolento e folgazão,
És bem a alma da morada onde me mantenho confinado;
Da mesa ao armário e da poltrona à lareira,
Ele vagueia, sem macular o objeto em que roçou,
Volta à volta triste a alegre, sonolento e folgazão.

Sobre a escrivaninha coberta de manchas de tinta azul
Onde livros e cadernos repousam abertos ou fechados,
Ele passa como um sopro, aflorando de sua cauda
A folha onde meus pensamentos alumiam seus faróis,
Sobre a escrivaninha coberta de manchas de tinta azul.

Quando ele molha sua pata com a língua rosa
Para lustrar seu torso e o rostinho tão doce,
Ele me pisca o olho fazendo uma pausa,
E eu gostaria sempre de tê-lo sobre meus joelhos
Quando ele molha sua pata com a língua rosa.

Sentado calorosamente nos tempos escuros de dezembro
Diante do fogo que flameja, ardente como um inferno,
Será que ele pensa nos ratos dos quais livra meu quarto
Com suas presas de nácar e suas garras de ferro?
Não! Senta-se diante da lareira nos tempos escuros de dezembro.

Entre os velhos suportes que mais parecem duas freiras
Em vista da face bizarra, das tetas monstruosas,
Ele sonha com a angorá, sedutora das sedutoras,
Que ele bem gostaria de ter, a bela voluptuosa,
Entre os velhos suportes que mais parecem duas freiras.

Ele se diz que no verão, pelos bons clarões da lua,
Possuía a sua gata em seus membros peludos;
E que hoje em dia, durante a temporada fria e escura,
Há de se lamentar do amor que não mais renascerá
Até o próximo verão, pelos bons clarões da lua.

Sua luxúria se aguça com os gemidos da alcova,
E quando nos encontramos outra vez cheios de desejo,
Ele nos atira um olhar ciumento e quase selvagem,
Pois enquanto nossos corpos se embriagam de prazer,
Sua luxúria se aguça com os gemidos da alcova.

Quando por fim ele salta sobre a colcha entreaberta,
Como que para recolher um pouco de volúpia,
A paixão reluz em sua pupila verde:
Revelando em sua beleza brandura e lascívia
Quando por fim ele salta sobre a colcha entreaberta.

Para aspirar os perfumes exalados por minha amante,
No vazio onde seu corpo fremiu em meus braços,
Ele rola feito bola, e sua cabeça com encanto
Gira da direita à esquerda farejando os dois lençóis,
Para aspirar os perfumes exalados por minha amante.

Então ele se lambe, ele ronrona e mia,
E quando fica inebriado com o aroma do amor,
Estira-se a bocejar com um ar tão engraçado,
Que diria que vai aturdir e desmaiar;
Então ele se lambe, ele ronrona e mia.

Seu passado ressuscita, ele revê seus beirais
Onde, gato aliciador e sempre triunfante,
Diverte-se em rastrear durante noites inteiras
As gatas que ele seduz com seus gritos infantis:
Seu passado ressuscita, ele revê seus beirais.

Pantera da chaminé, tigre em miniatura,
Tu me contentas pelo teu vagar e amenidade,
E sou teu amigo, pois nenhuma criatura
Compreendeu melhor que tu minha obscura estranheza,
Pantera da chaminé, tigre em miniatura.

Referência:

ROLLINAT, Maurice. Les luxures: le chat. In: __________. Les névroses. Paris (FR): G. Charpentier et Cie., 1885. p. 103-106.
ö

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Jorge de Sena – A Morte, o Espaço, a Eternidade

Jorge de Sena, indiscutivelmente um dos maiores poetas portugueses do Século XX e, quiçá, de todos os tempos – aqui, com os meus botões: julgo que Camões deve estar me censurando lá do outro lado do rio! (rs) –, doura este espaço com o soberbo poema em epígrafe.

Ao lê-lo pela primeira vez, logo depois de adquirir o livro a que se faz referência ao final desta inserção, nele capturei certos elementos que são como que filigranas que deixamos escapar em nossas experiências diuturnas, detalhes que somente autores de grande sensibilidade ousam discernir sob esse véu turvo a que está submetida “A Máquina do Mundo”, diga-se, mecanismo labiríntico cujos sentidos um outro grande poeta, Drummond, buscou decifrar com desvelo e paixão. Terá conseguido?!

P.s.: A grafia do texto se encontra tal como na Antologia, ou seja, atendendo aos padrões da escrita em Portugal.

J.A.R. – H.C. 
Jorge de Sena
(1919-1978)

A Morte, o Espaço, a Eternidade

De morte natural nunca ninguém morreu.
Não foi para morrer que nós nascemos,
não foi só para a morte que dos tempos
chega até nós esse murmúrio cavo,
inconsolado, uivante, estertorado,
desde que anfíbios viemos a uma praia
e quadrumanos nos erguemos. Não.
Não foi para morrermos que falámos,
que descobrimos a ternura e o fogo,
e a pintura, a escrita, a doce música.
Não foi para morrer que nós sonhámos
ser imortais, ter alma, reviver,
ou que sonhámos deuses que por nós
fossem mais imortais que sonharíamos.
Não foi. Quando aceitamos como natural,
dentro da ordem das coisas ou dos anjos,
o inominável fim da nossa carne; quando
ante ele nos curvamos como se ele fora
inescapável fome de infinito; quando
vontade o imaginamos de outros deuses
que são rostos de um só; quando que a dor
é um erro humano a que na dor nos damos
porque de nós se perde algo nos outros, vamos
traindo esta ascensão, esta vitória, isto
que é ser-se humano, passo a passo, mais.

A morte é natural na natureza. Mas
nós somos o que nega a natureza. Somos
esse negar da espécie, esse negar do que
nos liga ainda ao Sol, à terra, às águas.
Para emergir nascemos. Contra tudo e além
de quanto seja o ser-se sempre o mesmo
que nasce e morre, nasce e morre, acaba
como uma espécie extinta de outras eras.
Para emergirmos livres foi que a morte
nos deu um medo que é nosso destino.
Tudo se fez para escapar-lhe, tudo
se imaginou para iludi-la, tudo
até coragem, desapego, amor,
tudo para que a morte fosse natural.

Não é. Como, se o fora, há tantos milhões de anos
a conhecemos, a sofremos, a vivemos,
e mesmo assassinando a não queremos?
Como nunca ninguém a recebeu
senão cansado de viver? Como a ninguém
sequer é concebível para quem lhe seja
um ente amado, um ser diverso, um corpo
que mais amamos que a nós próprios? Como
será que os animais, junto de nós,
a mostram na amargura de um olhar
que lânguido esmorece rebelado?

E desde sempre se morreu. Que prova?
Morrem os astros, porque acabam. Morre
tudo o que acaba, diz-se. Mas que prova?
Só prova que se morre de universo pouco,
do pouco de universo conquistado.

Não há limites para a Vida. Não
aquela que de um salto se formou
lá onde um dia alguns cristais comeram;
nem bem aquela que, animal ou planta,
foi sendo pelo mundo este morrer constante
de vidas que outras vidas alimentam
para que novas vidas surjam que
como primárias células se absorvam.
A Vida Humana, sim, a respirada,
suada, segregada, circulada,
a que é excremento e sangue, a que é semente
e é gozo e é dor e pele que palpita
ligeiramente fria sob ardentes dedos.
Não há limites para ela. É uma injustiça
que sempre se morresse, quando agora
de tanto que matava se não morre.
É o pouco de universo a que se agarram,
para morrer, os que possuem tudo.
O pouco que não basta e que nos mata,
quando como ele a Vida não se amplia,
e é como a pel’ do onagro, que se encolhe,
retráctil e submissa, conformada.
É uma injustiça a morte. É cobardia
que alguém a aceite resignadamente.
O estado natural é complacência eterna,
é uma traição ao medo por que somos,
àquilo que nos cabe: ser o espírito
sempre mais vasto do Universo infindo.

O Sol, a Via Láctea, as nebulosas,
teremos e veremos até que
a Vida seja de imortais que somos
no instante em que da morte nos soltamos.
A Morte é deste mundo em que o pecado,
a queda, a falta originária, o mal
é aceitar seja o que for, rendidos.

E Deus não quer que nós, nenhum de nós,
nenhum aceite nada. Ele espera,
como um juiz na meta da corrida,
torcendo as mãos de desespero e angústia,
porque nada pode fazer nada e vê
que os corredores desistem, se acomodam,
ou vão tombar exaustos no caminho.
De nós se acresce ele mesmo que será
o espírito que formos, o saber e a força.
Não é nos braços dele que repousamos,
mas ele se encontrará nos nossos braços
quando chegarmos mais além do que ele.
Não nos aguarda – a mim, a ti, a quem amaste,
a quem te amou, a quem te deu o ser –
não nos aguarda, não. Por cada morte
a que nos entregamos el’ se vê roubado,
roído pelos ratos do demónio,
o homem natural que aceita a morte,
a natureza que de morte é feita.

Quando a hora chegar em que já tudo
na terra foi humano – carne e sangue –,
não haverá quem sopre nas trombetas
clamando o globo a um corpo só, informe,
um só desejo, um só amor, um sexo.
Fechados sobre a terra, ela nos sendo
e sendo ela nós todos, a ressurreição
é morte desse Deus que nos espera
para espírito seu e carne do Universo.
Para emergir nascemos. O pavor nos traça,
este destino claramente visto:
podem os mundos acabar, que a Vida,
voando nos espaços, outros mundos,
há-de encontrar em que se continue.
E, quando o infinito não mais fosse,
e o encontro houvesse de um limite dele,
a Vida com seus punhos levá-lo-á na frente,
para que em Espaço caiba a Eternidade.

Em: “As Metamorfoses”.

  
Referência:

SENA, Jorge de. A morte, o espaço, a eternidade. In: COSTA E SILVA, Alberto da; BUENO, Alexei (orgs.). Antologia da poesia portuguesa contemporânea: um panorama. Rio de Janeiro: Lacerda, 1999. p. 89-93.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Joachim du Bellay – Epitáfio de um Gato

Extraído do longo poema “Épitaphe d’un Chat” (“Epitáfio de um Gato”), constante do livro “Divers Jeux Rustiques” (“Diversos Jogos Rústicos”), o excerto abaixo, de autoria do francês Joacquim Du Bellay – aqui já apresentado em outro ‘post’ felino –, retrata a natureza insigne e pacata de seu bichano, Belaud, incapaz de ações mais predadoras que o “simples” abate de algumas aves que lhe importunavam a paciência...

J.A.R. – H.C. 


Jeux

Mon Dieu! Quel passe-temps c’était
Quand ce Belaud virevoltait
Folâtre autour d’une pelote!
Quel plaisir, quand sa tête sotte
Suivant sa queue en mille tours
D’un rouet imitait le cours!
Ou quand assis sur le derrière
Il s’en faisait une jar’tière,
Et montrant l’estomac velu,
De panne blanche crêpelu,
Semblait tant sa trogne était bonne
Quelque docteur de la Sorbonne!
Belaud n’était point mal plaisant,
Belaud n’était point malfaisant
Et ne fit onc plus grand dommage
Que de manger un vieux fromage,
Une linotte, et un pinson,
Qui le fâchaient de leur chanson. 



Jogos

Meu Deus! Que distração ocorria
Quando Belaud dava cabriolas
Festivas em torno de uma bola!
Quanto prazer, quando sua zonza cabeça
Rastreava a cauda em mil voltas,
A imitar o curso de uma carretilha!
Ou quando, acomodado sobre as ancas,
Convertia-se numa jarreteira,
E mostrando a barriga aveludada,
De branco e anelado pelo,
Parecia, pela sua boa aparência,
Algum doutor da Sorbonne!
Belaud não chegava a ser desagradável,
Não atingia o ponto da maldade,
E em razão disso nunca provocou maior perda
Do que comer um envelhecido queijo,
Um pintarroxo e um pardal,
Que lhe importunavam com seu trinado.

Referência:

Du Bellay, Joachim. Jeux. In: NOVARINO-POTHIER, Albine (Éd.). Le chat em 60 poèmes. Paris: Omnibus, 2013. p. 12.
ö