Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Efeitos Poéticos na Dicotomia Público x Privado

Para começar bem o dia, trago um poema do escritor mineiro Affonso Romano de Sant’Anna: “A Coisa Pública e a Privada”. O trocadilho que ele emprega entre os termos “público” e “privado” aproveita-se da polissemia deste último vocábulo para atingir um efeito bastante cômico.

J.A.R. – H.C.


Affonso Romano de Sant’Anna
(n. 1937)

A Coisa Pública e a Privada

Entre a coisa pública
e a privada
achou-se a República
assentada.

Uns queriam privar
da coisa pública
outros queriam provar
da privada,
conquanto, é claro,
que, na provação,
a privada, publicamente
parecesse perfumada.

Dessa luta intestina
entre a gula pública e a privada
a República
acabou desarranjada
e já ninguém sabia
quando era a empresa pública
privada pública
ou
pública privada.

Assim ia a rês pública: avacalhada
uma rês pública: charqueada
uma rês pública, publicamente
corneada, que por mais
que lhe batessem na cangalha
mais vivia escangalhada.

Qual o jeito?
Submetê-la a um jejum?
Ou dar purgante à esganada
que embora a prisão de ventre
tinha a pança inflacionada?

O que fazer?
Privatizar a privada
onde estão todos
publicamente assentados?
Ou publicar, de uma penada,
que a coisa pública
se deixar de ser privada
pode ser recuperada?

– Sim, é preciso sanear,
desinfetar a coisa pública,
limpar a verba malversada,
dar descarga na privada.

Enfim, acabar com a alquimia
de empresas públicas-privadas
que querem ver suas fezes
em ouro alheio transformadas.


Referência:

SANT’ANNA, Affonso Romano de. A coisa pública e a privada. In: __________.
Intervalo amoroso & Outros poemas escolhidos. Porto Alegre: L&PM, 2009 (Coleção L&PM Pocket n. 153). p. 19-20.

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