De um lado, a verdade
elementar da vida natural; do outro, a artificialidade da urbe: eis aí o tema
de que trata este poema de Graves. Para ele, o homem somente no campo recupera a
sua linguagem primária, na qual conceitos abstratos, como o amor e o tempo,
traduzem-se em realidades tangíveis e, com alguma frequência, desconfortáveis.
Já agora, estamos nós
marcados pela linguagem do intelectualismo, pela psicologia, pela abstração;
uma linguagem que media e dilui a experiência direta nos domínios do entorno
citadino, onde se percebe o clima somente como frio ou calor, pelo uso de
casacos ou roupas térmicas, pelas flores artificiais e exóticas sem quaisquer
conexões com a ordem natural.
Parece-lhe, sob tal
perspectiva, que a natureza, com os seus ciclos ineludíveis e suas leis
implacáveis, seria o único dicionário legítimo para compreender a própria vida,
mensurá-la, avaliar-lhe as consequências físicas reais, seus extremos de abundância
e de escassez, em conexão tanto com a beleza quanto com a destruição – diga-se
por oportuno, à maneira dos antigos, cuja sabedoria muito se fundamentava no
ritmo das estações.
Daí porque aos olhos
de Graves a nossa desaprovação a tal infringência aos repertórios do meio
ambiente há de ser “legitimista”, um termo político a vincular a ordem natural
com um direito monárquico divino que não deve ser violado.
J.A.R. – H.C.
Robert Graves
(1895-1985)
Language of the
Seasons
Living among
orchards, we are ruled
By the four seasons
necessarily:
This from
unseasonable frosts we learn
Or from usurping suns
and haggard flowers –
Legitimist our
disapproval.
Weather we knew, not
seasons, in the city
While, seasonless,
orange and orchid shone,
Knew it by heavy
overcoat or light,
Framed love in later
terminologies
Than here, where we report
how weight of snow,
Or weight of fruit,
tears branches from the tree.
Parada das Estações
(Anne Gifford: artista
norte-americana)
A Linguagem das
Estações
Vivendo entre pomares,
somos regidos
Necessariamente pelas
quatro estações:
Aprendemo-las com as
geadas fora de época
Ou com sóis
usurpadores e flores murchas –
Legitimista é a nossa
desaprovação.
Na cidade, conhecíamos
o clima, não as estações,
Já que lá, orquídeas
e laranjas reluzem intempestivas;
Sabíamo-lo pelos casacos
pesados ou leves,
o amor delimitado em
terminologias mais tardias
Que as daqui, onde percebemos
como o peso da neve
Ou dos frutos arrancam
os ramos das árvores.
Referência:
GRAVES, Robert.
Language of the seasons. In: __________. Poems: 1938-1945. 1st ed. New
York, NY: Farrar, Straus and Giroux, 1967. p. 23.
❁


Nenhum comentário:
Postar um comentário