Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

António Salvado – Natal


Natal

Que nos trazes a não ser
lágrimas cada vez mais,
natal eterno a nascer
de outros natais!...

Ligeira esperança que toca
os nossos olhos molhados
e o sangue da nossa boca,
amordaçados…

Ah, bruxuleante luz
acenando ao longe em vão
e que a dor nos reproduz
em ilusão…

Ternura dum breve instante
que o próprio instante desterra,
morta no fato constante
de tanta guerra!

Referência:
Salvado, António. Anunciação e Natal na poesia
portuguesa. Lisboa: Polis, 1969. p. 227.

J.A.R. – H.C.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Lembranças do Natal


Pinheiro Perene

Enquanto o adorno com bolas e piscas,
o que me dirá o pinheiro
que reaparece a cada fim de ano,
a desafiar a integridade da memória,
sob o ânimo de sua luz?

Lembranças, decerto,
de palavras que ressoam em ecos
advindos desde a infância;
e de entes ausentes de quem
o tempo logrou distanciar-nos sem apelo.

Desse vínculo rompido
persiste a reminiscência
no apego de quem agora
busca manter o foco na luz:
uma luz que é eterna em seu trânsito
de revezamento ininterrupto.

(Autoria Própria)

J.A.R. – H.C.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Objetivos Universais

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Estive consultando alguns sites para encontrar logogramas chineses simplificados que representassem as palavras paz, felicidade e amor. E o olhem o que encontrei:




Não são uma beleza?! Eles não estão aí por acaso, mas para expressar o meu desejo de que tais valores estejam presentes na vida de todos os seres humanos, uma vez que, imagino, sejam universais. E não somente nesta época de final de ano, como também ao longo de todos os seus dias!

J.A.R./H.C.

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Afonso Celso – Dezembro


Dezembro

Dezembro! Mês derradeiro!
A gente em todo este mês
Dá balanço ao ano inteiro,
Lembra o que fez e não fez.

E diz: Meu Deus, mais um ano
Breve estará terminado,
Largo pedaço amputado
Do curto existir humano!

Quanta saudade apagada
Dezembro avivar-se faz!
É como a volta da estrada:
Convida a olhar para trás!

Sim! É mês de coisas sérias:
A Conceição de Maria
Celebra no oitavo dia,
Mas é também mês de férias.

Tem um padrão, além disto,
Que de orgulho o deve encher:
Foi mês que Jesus Cristo
Preferiu para nascer!

Referência:
CARVALHO, Edgar de. As mais belas poesias de Natal.
Rio de Janeiro: Vecchi, 1957. p. 13.

J.A.R. – H.C.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Exercício de Paródia


Elogio da Experiência sem Intermediários

Prefiro a trilha menos ou nunca percorrida,
àquela já batida pelo acúmulo dos anos;
a meticulosa inobservância das regras mais verazes,
porque delas é o reino da perdição!

Mesmo que atravesse o mar obscuro do desconhecido,
não retornarei a abraçar o que restou finito,
uma vez que o seu oposto, o infinito,
não contém barreiras a superar, meras incógnitas!

Onde a vida se estiola, que haja rompantes de sensações.
Que o nirvana, a beatitude e o gozo se manifestem
em toda a ruína açulada pelo vendaval do tempo.
E que o tempo deixe se ser apenas uma pedra no caminho!

Em verdade, digo-vos que não atingireis quaisquer verdades,
se estas não forem eflúvios de um coração perdido,
ávido pela nebulosa do ignoto,
ali, onde nada é seguro, senão apenas o que te permites experimentar!

(Autoria Própria)

J.A.R. - H.C.

Amadeu Torres (Castro Gil) – Natal Português

O poema abaixo, de autoria do sacerdote e poeta português Amadeu Torres, falecido no início do ano passado, desconstrói as imagens que hoje temos do Natal, por demais consumistas, fazendo-o retornar à sua dimensão primitiva, centrada nas figuras elementares que compõem o presépio franciscano.

Mantivemos na transcrição a mesma grafia constante da referência apresentada ao final, com o objetivo de retratar a pureza linguística do autor luso, reconhecidamente um dos maiores latinistas de seu país.

J.A.R. - H.C.


Natal Português

Sem pinheiros do Norte em ramalhar de luzes,
Missangas, e vidrilhos do coruto aos pés;
Nem papás-anciãos de alforges e capuzes
Descendo em paraquedas pelas chaminés;

Sem jeitos de Valquírias, bicabraque e sagas,
Brancas de Neve e Anões que não sei donde vêm,
O Natal português, mais que de imagens vagas,
É o Natal de Jesus, Deus-Menino em Belém.

União de Céus e Terra nesse casto abraço
Que a aconchegou ao seio das certezas calmas,
E alongou asas de águia sobre abismo e espaço,
E encheu de vias-lácteas a amplidão das almas.

Fim e princípio, centro e meta das lonjuras
Que o tempo berma de inquietude e luz dos céus;
Epopeia de Amor no infólio das criaturas,
Onde a sangue ficou a rubrica de Deus.

Sei que em S. Nicolau radicam tais desvelos,
No começo bem puros de intenção e Fé.
Mas as árvores hoje e esse Papá dos Gelos
Só deixam ver aquilo que o Natal não é.

Sem pinheiros do Norte ou barbudos anciãos
De trenó ou snowmobiles de não sei donde,
O Natal português é o Dia Um dos cristãos,
Em que primeiro o Verbo se entremostra e esconde.

Sem quermesse ou bazar nem visões de quitanda,
O Natal é o Presépio humílimo, real.
Dentro e fora do lar, na igreja, em toda a banda
O Natal português é o Natal só Natal!

Referência:
ARAÚJO, Domingos da Silva. O Natal visto por poetas do
distrito de Viana. Cadernos Vianenses, n. 39, 2007, p. 324-325.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Luís de Camões – Natal


Natal

Dos Céus à Terra desce a maior Beleza,
Une-se à nossa carne e fá-la nobre;
E sendo a humanidade dantes pobre,
Hoje subida fica à maior alteza.

Busca o Senhor mais rico a maior pobreza;
Que como ao mundo o seu amor descobre,
De palhas vis o corpo tenro encobre,
E por elas o mesmo Céu despreza.

Como? Deus em pobreza à terra desce?
O que é mais pobre tanto lhe contenta,
Que este somente rico lhe parece.

Pobreza este Presépio representa;
Mas tanto por ser pobre já merece,
Que quanto mais o é, mais lhe contenta.

Referência:
LÍRICA de Natal. São Paulo: Refaga, 1963. p. 16.

J.A.R. – H.C.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Raul de Leoni – Árvore de Natal


Árvore de Natal

Tarde! Estou muito triste, triste, assim
De uma tristeza imóvel e vazia.
E uma ronda de crianças esfuzia
Na aquarela chinesa do jardim.

Aos poucos a frândola leviana
chega-se a mim, cerca-me ousadamente:
Inquietas lavrazinhas de alma humana,
Misteriosos destinos em semente

Vêm parar a meus pés depois – meigas violetas
Sob a sombra de uma árvore doente.
Não tenho nada para dar-lhes; sou

Como um pinheiro contemplativo,
Cujos ramos dolentes não têm frutos,
Que há muito um vento cruel os arrancou.

Referência:
CARVALHO, Edgar de. As mais belas poesias de Natal.
Rio de Janeiro: Vecchi, 1957. p. 11.

J.A.R. – H.C.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Brasileirão 2013 – Série A – Fim do Campeonato


Prezado(a)s amigo(a)s do futebol,

1. Findo o Brasileirão 2013, restam-nos neste final de 2013, apenas, observar o que poderá fazer o Galo Mineiro em sua busca de um título mundial.

2. Obviamente que seus torcedores, tanto quanto este que vos subscreve, estão de cabelo em pé depois da goleada inapelável de 7 x 0 que o Bayern de Munique aplicou no Werder Bremen, no último sábado, pelo campeonato alemão. E olhem que a partida foi fora de seus domínios, oportunidade em que não contou, ademais, com o futebol do holandês Robben, uma das estrelas do elenco.

3. Por estas paragens, tutto è finito, ou para parodiar o evangelista João, consummatum est: dois times cariocas na Segundona do ano que vem – Vasco da Gama e Fluminense; dois times cariocas também na Libertadores – Botafogo e Flamengo. Ou seja: o futebol do Rio a unir o Céu ao Inferno (rs)! Isso, é óbvio, se a Ponte Preta não superar o Lanús, lá na Argentina, pois se o conseguir ficará com a quarta vaga.

4. No caso específico do Fluminense, 46 pontos ao final, talvez tenha sido o time rebaixado com o maior aproveitamento em toda a era de certames nos moldes de pontos corridos. Já ao Vasco da Gama restou a lição, tantas vezes propalada, de que não se deve entrar num campeonato assim sem se arranjar uma defesa consistente. A goleada de ontem, 5 x 1, fê-lo tornar-se a terceira pior zaga, atrás apenas das defesas do Náutico e do Criciúma.

5. Passemos a outras considerações bem mais interessantes. Querem saber de uma bem insólita: o Náutico, lanterninha, conseguiu oito de seus vinte pontos contra Flamengo e Corinthians, de quem não perdeu nem em casa nem fora. No total, 4 x 1 contra cada um deles, decorrentes de um vitória e um empate.

6. Outro aspecto: não me recordo se houve outro campeonato no qual a distância do 9º ao 17º, o primeiro rebaixado, tivesse se limitado a apenas quatro pontos.

7. Contudo, a questão mais contundente que vem à baila depois de se analisar a classificação final é a seguinte: o Corinthians tornou-se a “melhor defesa” mais inútil em termos de potencial para se sustentar entre os primeiros, com 22 gols tomados. Esse total somente não supera o do São Paulo, campeão em 2007, com 19 gols sofridos.

8. Mas também pudera: o ataque do Timão, com 27 tentos, só não foi pior do que o do Timbu, com 22 gols. Exuberante, mesmo, foi a linha de frente do Cruzeiro, que alcançou a média de pouco mais de dois gols por partida, o que representou, praticamente, um tento para cada ponto conquistado no certame. É brincadeira?

9. E ano que vem tem mais! Muitas emoções nos esperam: Libertadores como sempre, Brasileirão e... Copa do Mundo! E o que dizem o(a)s colegas: o Brasil chegará ao título? Joguem aí os seus búzios! Se não der, espero que uma seleção sul-americana vença, nem que seja a dos “hermanos” (rs). Afinal, do que gosto, mesmo, é do futebol muito bem jogado, não importa de quem seja! Só não vale é me postar no sofá para ver uma pelada. Ah, isso não! Desligo a televisão no ato e vou contemplar outras paragens...

10. Aproveito a oportunidade de que este é o 10º parágrafo de minha mensagem, para encerrá-la com chave de ouro, aliás, como faziam os parnasianos em seus poemas. Afinal, 10 é o número do Rei, aquele mesmo que, ao superar as defesas, dava um salto no ar e o esmurrava com todo o apuro (rs):

Que sejamos capazes de superar todos os desafios a que a vida nos expõe. Que o Eterno abrace a nossa causa por um mundo melhor, mais feliz, mais sereno, mais fraterno.

Se houve algo de muito importante que se perdeu na tríade da grande revolução da história, foi exatamente o lema da fraternidade.

E penso que as festas de final de ano, embora limitadas a uma simples temporada, sempre conseguem resgatar muito desse espírito, bem à luz dos enredos de Dickens – é claro –, tudo muito humano, demasiado humano, diria algum filósofo, por fim.

Um grande Natal para todo(a)s. Um Ano Novo pleno de saúde e de realizações.

Bola para frente. Que venha 2014!

Um abração.

J.A.R. – H.C.

J. G. de Araújo Jorge – Natal


Natal

Longe, surgem no céu clarões de um novo dia!
Por que terá fugido o ignorado pastor?
Na tosca manjedoura, os olhos de Maria
Falam um infeliz e imorredouro amor!

Um menino nasceu! Chamaram-lhe “Senhor”.
Aqueles que seu pai, sem lar, sem alegria,
Encontraram seu berço, numa estrebaria
E trouxeram com a vida, o destino da dor!

Jesus! Seu próprio nome já sugere a luz!
Seu corpo foi mais tarde a bandeira ferida,
Desfraldada a sangrar no mastro de uma cruz!

Não teve pai, – no entanto, em seu amor profundo
Divinizou o ventre que lhe deu a vida,
E humanizou e deu paternidade ao mundo!

Referência:
CARVALHO, Edgar de. As mais belas poesias de Natal.
Rio de Janeiro: Vecchi, 1957. p. 142.

J.A.R. – H.C.