Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Bertolt Brecht - Que foi que recebeu a mulher do soldado

Entre a crítica social e a tragédia da guerra, Brecht ironiza, por meio de contrastes, a situação vivenciada pelas esposas dos soldados em luta, marcada por incerteza, solidão e pobreza, em cotejo aos presentes por elas recebidos, amiúde luxuosos ou exóticos – até que se mencione o regalo final, proveniente da Rússia, nada menos que um véu de viúva, a denotar o luto pela morte do companheiro em batalha.

 

O dramaturgo alemão, por trás de toda sátira instilada ao poema, desvela as futilidades de uma sociedade de consumo: as esposas dos soldados, em vez de obter bens que lhe sejam úteis ou necessários – ou mesmo a segurança e o regresso do marido –, recebe objetos frívolos, que somente servem para alimentar a vaidade e a cupidez.

 

Para além da superficialidade das contribuições – a denotar certa diversidade cultural, haja vista que provenientes de capitais europeias distintas –, o que remanesce sem solução é a realidade absurda dos conflitos armados, suas consequências brutais e devastadoras, a carrearem perda e dor por todos os cantões conflagrados.

 

J.A.R. – H.C.

 

Bertolt Brecht

(1898-1956)

 

Und was bekam des Soldaten Weib (1)

 

Und was bekam des Soldaten Weib

Aus der alten Hauptstadt Prag?

Aus Prag bekam sie die Stöckelschuh,

Einen Gruß und dazu die Stöckelschuh

Das bekam sie aus der Stadt Prag.

 

Und was bekam des Soldaten Weib

Aus Oslo über dem Sund?

Aus Oslo bekam sie das Kräglein aus Pelz,

Hoffentlich gefällt’s, das Kräglein aus Pelz,

Das bekam sie aus Oslo am Sund.

 

Und was bekam des Soldaten Weib

Aus dem reichen Amsterdam?

Aus Amsterdam bekam sie den Hut

Und er steht ihr gut, der holländische Hut

Den bekam sie aus Amsterdam.

 

Und was bekam des Soldaten Weib

Aus Brüssel im belgischen Land?

Aus Brüssel bekam sie die seltenen Spitzen,

Ach, das zu besitzen, die belgischen Spitzen,

Die bekam sie aus belgischem Land.

 

Und was bekam des Soldaten Weib

Aus der Lichterstadt Paris?

Aus Paris bekam sie das seidene Kleid.

Zu der Nachbarin Neid das seidene Kleid

Das bekam sie aus Paris.

 

Und was bekam des Soldaten Weib

Aus den südlichen Bukarest?

Aus Bukarest bekam sie das Hemd

So bunt und so fremd, das rumänische Hemd,

Das bekam sie aus Bukarest.

 

Und was bekam des Soldaten Weib

Aus dem weiten Russenland?

Aus Russenland bekam sie den Witwenschleier,

Zu der Totenfeier den Witwenschleier

Das bekam sie aus Russenland.

 

A Esposa do Soldado

(Elizabeth Cann: artista canadense)

 

Que foi que recebeu a mulher do soldado? (2)

 

Que foi que recebeu a mulher do soldado,

de Praga, a velha capital?

De Praga recebeu os sapatos de salto alto.

Um amor de feitio, aqueles sapatos de salto alto!

Eis o que de Praga ela recebeu.

 

Que foi que recebeu a mulher do soldado,

lá de cima, de Oslo, na Noruega?

De Oslo recebeu a gola de pele.

E como lhe fica bem a sua gola de pele!

Eis o que de Oslo, na Noruega, ela recebeu.

 

Que foi que recebeu a mulher do soldado,

da rica Amsterdão?

De Amsterdão recebeu o chapéu.

Era uma encomenda sua, aquele chapéu de palha

Que ela recebeu da rica Amsterdão.

 

Que foi que recebeu a mulher do soldado,

de Bruxelas, no Brabante?

De Bruxelas recebeu umas rendas preciosas.

Fritz ficará orgulhoso ao vê-la, sob as rendas preciosas

que ela recebeu de Bruxelas.

 

Que foi que recebeu a mulher do soldado,

de Paris, a Cidade-Luz?

De Paris recebeu um vestido de seda.

Todo o quarteirão pasma ante o vestido de seda

que de Paris ela recebeu.

 

Que foi que recebeu a mulher do soldado,

De Bucarest, lá no sul?

De Bucarest recebeu uma camisa.

São tão femininas, essas camisas da Transilvânia!

Eis o que ela recebeu de Bucarest.

 

Que foi que recebeu a mulher do soldado,

do longínquo país dos russos?

Da Rússia ela recebeu o seu véu de viúva,

de um pano que não acaba, esse véu de viúva!

Eis o que da Rússia ela recebeu.

 

Notas:

 

(1). Trata-se da primeira versão atribuída ao poema por Brecht, em resposta aos acontecimentos da 2GM, no inverno de 1941/42, mas que, posteriormente, foi várias vezes retrabalhada, com a inclusão de outras cidades (Varsóvia, Roterdã e Trípoli) e remoção de algumas anteriormente mencionadas (Amsterdã e Bucareste), com o que se chegou, então, à versão final, apresentada neste endereço.

 

(2). A rigor, a tradução de Carlos Drummond de Andrade ao português ocorreu através da versão ao francês elaborada por Jean Richard Bloch – tal como se pode ratificar pela observação contida no topo do poema, neste endereço (p. 9 de 12) –, versão, aliás, inserta às págs. 108 e 110 da obra em referência (ANDRADE, 2011).

 

Referências:

 

Em Alemão

 

BRECHT, Bertolt. Und was bekam des soldaten weib. Disponível neste endereço. Acesso em: 27 fev. 2025.

 

Em Português

 

BRECHT, Bertolt. Que foi que recebeu a mulher do soldado? Tradução de Carlos Drummond de Andrade. In: ANDRADE, Carlos Drummond de (Seleção e Tradução). Poesia traduzida. Organização e notas de Augusto Massi e Júlio Castañon Guimarães. Introdução de Júlio Castañon Guimarães. São Paulo, SP: Cosac Naify, 2011. Em português: 109 e 111. (Coleção ‘Ás de colete’; v. 20)

❁

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Ferreira Gullar - Verão

Apresentando uma visão particular da beleza passadiça do verão – carregada de simbolismos e metáforas bem mais além da simples caracterização de um clima cálido em fluxo nos dias do mês de fevereiro, com o firmamento no apogeu do “azul”, mas com “prevista duração” e “morte certa” –, o poeta acaba por encetar um paralelo entre as estações do ano e as quadras por que passamos ao longo da vida.

 

Mais alguns dias e o outono estará à porta, e a consciência de que, doravante, as coisas passarão a definhar um pouco mais celeremente deflagra uma agônica “luta de resistência”, como um ato de rebeldia ante a inevitabilidade da morte, aferrando-se o verão, enquanto “fera ferida”, a tudo quanto existe: areia, mar, relva – até mesmo o coração do poeta.

 

Da plena maturidade à velhice, eis a luta por um sentido de permanência, permeado por um desconsolo que nos atinge n’alma, mormente quando passamos a prestar mais atenção aos estalidos repentinos e efêmeros que assinalam cada dia que se vai, dando curso à escala dos éons, indiferentemente às paixões e aos pesares humanos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Ferreira Gullar

(1930-2016)

 

Verão

 

Este fevereiro azul

como a chama da paixão

nascido com a morte certa

com prevista duração

 

deflagra suas manhãs

sobre as montanhas e o mar

com o desatino de tudo

que está para se acabar.

 

A carne de fevereiro

tem o sabor suicida

de coisa que está vivendo

vivendo mas já perdida.

 

Mas como tudo que vive

não desiste de viver,

fevereiro não desiste:

vai morrer, não quer morrer.

 

E a luta de resistência

se trava em todo lugar:

por cima dos edifícios

por sobre as águas do mar.

 

O vento que empurra a tarde

arrasta a fera ferida,

rasga-lhe o corpo de nuvens,

dessangra-a sobre a Avenida

 

Vieira Souto e o Arpoador

numa ampla hemorragia.

Suja de sangue as montanhas,

tinge as águas da baía.

 

E nesse esquartejamento

a que outros chamam verão,

fevereiro ainda agonia

resiste mordendo o chão.

 

Sim, fevereiro resiste

como uma fera ferida.

É essa esperança doida

que é o próprio nome da vida.

 

Vai morrer, não quer morrer.

Se apega a tudo que existe:

na areia, no mar, na relva,

no meu coração – resiste.

 

Em: “Poemas Concretos / Neoconcretos” (1957-1958)

 

O Verão

(Claude Monet: pintor francês)

 

Referência:

 

GULLAR, Ferreira. Verão. In: __________. Os melhores poemas de Ferreira Gullar. Seleção e apresentação de Alfredo Bosi. 4. ed. São Paulo, SP: Global, ago. 1990. p. 68-69. (Coleção ‘Os Melhores Poemas’; v. 3)

❁

domingo, 23 de fevereiro de 2025

Jorge Luis Borges - O instante

Centrando-se no tema da fugacidade do tempo, Borges se pergunta o que teria restado dos grandes eventos do passado, das guerras, das conquistas, dos sonhos de antigas civilizações, das muralhas e dos monumentos que erigiram, até mesmo de tudo quanto, no afã de apreensão por parte do espírito humano, se aglutina à volta das ideologias e religiões que atravessam a História, tantas vezes penhoradas pelo embate divisionista do bem contra o mal.

 

Sob a sua ótica, o tempo se erige através da memória, essa soma imperfeita de nossas percepções do passado, tão enganosa quanto mais que somente costumamos evocá-la no presente em relação aos atos e fatos matizados por critérios de interesse e vontade, raramente de fidedignidade ao ocorrido – mesmo porque também o registro do que capturamos à realidade, por intermédio dos sentidos, sujeita-se, induvidosamente, ao influxo de vieses que acabam por se fixar nos escaninhos da mente.

 

A sucessão dos anos se mostra, dessa forma, como um cenário vazio, e nossa identidade de “hoje” não é a mesma que a de ontem, restando-nos, por conseguinte, viver no presente, esse único momento sob o nosso controle – efêmero e eterno a um só tempo –, sem desperdiçá-lo em frívolos sonhos e arrependimentos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Jorge Luis Borges

(1899-1986)

 

El instante

 

¿Dónde estarán los siglos, dónde el sueño

de espadas que los tártaros soñaron,

dónde los fuertes muros que allanaron,

dónde el Árbol de Adán y el otro Leño?

 

El presente está solo. La memoria

erige el tiempo. Sucesión y engaño

es la rutina del reloj. El año

no es menos vano que la vana historia.

 

Entre el alba y la noche hay un abismo

de agonías, de luces, de cuidados;

el rostro que se mira en los gastados

 

espejos de la noche no es el mismo.

El hoy fugaz es tenue y es eterno;

otro Cielo no esperes, ni otro Infierno.

 

En: “El otro, el mismo” (1964)

 

O juízo final

(John Martin: pintor inglês)

 

O instante

 

Onde estarão os séculos, o sonho

de espadas pelos tártaros sonhado,

onde as fortes muralhas derrubadas,

onde a Árvore de Adão e o outro Lenho?

 

O presente está só. É a memória

que erige o tempo. Sequência e engano,

essa é a rotina do relógio. O ano

é tão vazio quanto a vazia história.

 

Entre a aurora e a noite há um abismo

de agonias, de luzes, de cuidados;

o rosto que se observa nos usados

 

espelhos da noite já não é o mesmo.

O hoje fugaz é tênue e é eterno;

não haverá outro Céu nem outro Inferno.

 

Em: “O outro, o mesmo” (1964)

 

Referência:

 

BORGES, Jorge Luis. El instante / O instante. Tradução de Heloisa Jahn. In: __________. Nova antologia pessoal. 1 ed. Traduções de Davi Arrigucci Jr., Heloisa Jahn e Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. Em espanhol: p. 310; em português: p. 46.

❁

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Daniel Faria - Labirinto III

Em meio a uma atmosfera polifacética de mistério e fascínio, pejada de associações mitológicas e literárias, o poeta tece versos que nos levam a refletir sobre o nosso lugar no mundo, ou melhor, sobre o processo de individuação que todo ser humano deve enfrentar para encontrar seu próprio caminho na vida – esse arcabouço labiríntico a nos impor contínuos obstáculos e desafios, suscitando-nos a emersão dos medos e demônios interiores.

 

Em tal jornada transformadora, sem embargo, há também esperança de um renascer mais conforme aos nossos desejos de liberdade e de concretização do vasto potencial de que somos dotados: esse é o itinerário do herói que, “nel mezzo del cammin”, em trânsito por um inferno dantesco, encontrará drummondianas pedras e pedras obstrutoras, frente às quais assumirá o múnus de as converter em catres onde pousar a cabeça em seus momentos mais serenos, para poder assim alcançar as luzes mais agudas do solstício.

 

J.A.R. – H.C.

 

Daniel Faria

(1971-1999)

 

Labirinto III

 

No meio do caminho da nossa vida

No meio do poema, havia

Uma pedra onde reclinar a cabeça.

 

A mulher andava no meio das estradas

Por sobre o mundo tecendo e destecendo

Duas asas que o pai soldava para o filho.

No meio do filho estava o labirinto

 

E o touro de Ariadne puxado por um fio

Lavrando

No coração de Teseu tão manso

No meio da idade aonde existe

O primeiro sinal do solstício.

 

Ariadne na Ilha de Naxos

(Watts George Frederick: artista inglês)

 

Referência:

 

FARIA, Daniel. Labirinto III. In: __________. Poesia. Edição de Vera Vouga. 1. ed. Porto, PT: Assírio & Alvim, mai. 2012. p. 68.

❁