Barros sugere que a
missão de um poeta seja a de ser um xamã da linguagem, alguém que, venerando as
suas próprias origens, mostre-se capaz de despir as palavras de seu verniz civilizador
para restaurar-lhes o poder mágico, corpóreo e revelador, abrindo assim uma
janela para o eternamente misterioso.
Sob tal descortínio, viabilizado
pelo regresso às origens, à infância das palavras e à voz animal, o que se nos
revela é o “arcano”, o secreto, o misterioso, o não-racional, o sagrado, tudo
aquilo que a nossa linguagem adulta e pensante terminou por ocultar, toda a
matéria de que é feita a poesia – longe do que pode ser dito com clareza, bem
mais perto do balbucio primordial confinante ao que não existe, ao inefável, ao
que ainda não tem nome.
J.A.R. – H.C.
Manoel de Barros
(1916-2014)
Carrego meus
primórdios num andor
Carrego meus
primórdios num andor.
Minha voz tem um
vício de fontes.
Eu queria avançar
para o começo.
Chegar ao
criançamento das palavras.
Lá onde elas ainda
urinam na perna.
Antes mesmo que sejam
modeladas pelas mãos.
Quando a criança
garatuja o verbo para falar
o que não tem.
Pegar no estame do
som.
Ser a voz de um lagarto
escurecido.
Abrir um descortínio
para o arcano.
Natureza Arcana
(Autor não identificado)
Referência:
BARROS, Manoel de.
Carrego meus primórdios num andor. In: __________. Livro sobre nada.
Ilustrações de Wega Nery. 3. ed. Rio de Janeiro, RJ: Record, 1997. p. 47.
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