Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Manoel de Barros - Carrego meus primórdios num andor

Barros sugere que a missão de um poeta seja a de ser um xamã da linguagem, alguém que, venerando as suas próprias origens, mostre-se capaz de despir as palavras de seu verniz civilizador para restaurar-lhes o poder mágico, corpóreo e revelador, abrindo assim uma janela para o eternamente misterioso.

 

Sob tal descortínio, viabilizado pelo regresso às origens, à infância das palavras e à voz animal, o que se nos revela é o “arcano”, o secreto, o misterioso, o não-racional, o sagrado, tudo aquilo que a nossa linguagem adulta e pensante terminou por ocultar, toda a matéria de que é feita a poesia – longe do que pode ser dito com clareza, bem mais perto do balbucio primordial confinante ao que não existe, ao inefável, ao que ainda não tem nome.

 

J.A.R. – H.C.

 

Manoel de Barros

(1916-2014)

 

Carrego meus primórdios num andor

 

Carrego meus primórdios num andor.

Minha voz tem um vício de fontes.

Eu queria avançar para o começo.

Chegar ao criançamento das palavras.

Lá onde elas ainda urinam na perna.

Antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos.

Quando a criança garatuja o verbo para falar

o que não tem.

Pegar no estame do som.

Ser a voz de um lagarto escurecido.

Abrir um descortínio para o arcano.

 

Natureza Arcana

(Autor não identificado)

 

Referência:

 

BARROS, Manoel de. Carrego meus primórdios num andor. In: __________. Livro sobre nada. Ilustrações de Wega Nery. 3. ed. Rio de Janeiro, RJ: Record, 1997. p. 47.

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