Alpes Literários

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Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 28 de janeiro de 2024

Jacques Prévert - O Discurso sobre a paz

Prévert aqui revela toda a sua irreverência ao censurar o lado mais obscuro e retórico dos discursos dos estadistas e outras figuras políticas, hipócritas e contraditórios até a medula, pois que, ao mesmo tempo que sublinham a necessidade da paz para a garantia do pacto civilizatório, fomentam, em sua prática diária, a guerra por razões econômicas, ou seja, em face da “delicada questão do dinheiro”.

 

Poder-se-ia afirmar que não somente são hipócritas e ocos os seus discursos sobre o valor da paz, como também o são os termos eufemísticos empregados pelos detentores do poder para falarem sobre os atos de guerra, sobretudo quando aludem a contextos nada abonadores, como o morticínio real da população civil, digam o que queiram dizer os belicistas a título do falacioso dístico dos “ataques cirúrgicos” a instalações militares!

 

J.A.R. – H.C.

 

Jacques Prévert

(1900-1977)

 

Le Discours sur la paix

 

Vers la fin d’un discours extrêmement important

le grand homme d’État trébuchant

sur une belle phrase creuse

tombe dedans

et désemparé la bouche grande ouverte

haletant

montre les dents

et la carie dentaire de ses pacifiques raisonnements

met à vif le nerf de la guerre

la délicate question d’argent.

 

Charlie Chaplin

em “O Grande Ditador” (1940)

 

O Discurso sobre a paz

 

Ao final de um discurso extremamente importante,

o grande estadista, tropeçando

em uma bela e oca frase,

rende-se hesitante e,

desamparado, com a boca bem aberta,

ofegante,

mostra os dentes

e a cárie dentária de seus pacíficos raciocínios,

deixando exposto o nervo da guerra:

a delicada questão do dinheiro.

 

Referência:

 

PRÉVERT, Jacques. Le Discours sur la paix. In: __________. Selections from ‘Paroles’. A bilingual edition: french x english. Translated and introduced by Lawrence Ferlinghetti. 1st reprint. Harmondsworth (MX/EN): Penguin Books, 1970. p. 114. (‘Penguin Modern European Poets’)

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sábado, 27 de janeiro de 2024

Raúl Bañuelos - Uma Vida

O cantor baiano Caetano Veloso, em uma de suas belas composições – “Dom de iludir”, lá pelos anos 70 –, afirma que “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”: e é a tal abstração que se refere o poeta mexicano nestas linhas, a saber, do arrebatamento que cada qual expressa pela via do autoconhecimento, pela superação dos percalços que a vida nos impõe, pelas interações nem sempre livres das forças de atrito (as quais, nada obstante, permitem-nos avançar a outros patamares), pelas conquistas ao final alcançadas.

 

Por outro lado, se nos revela certa “amargura” em não poder experimentar outras realidades – “de não ser mar, nem rio ou chuva” –, um mundo alternativo do qual só nos resta fantasiar, especular, teorizar, a contrastar com este outro bem mais tendente à máxima de Terêncio (~ 185 a.C – 159 a.C.): “Nada do que é humano me é estranho”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Raúl Bañuelos

(n. 1954)

 

Una Vida

 

Un pez me dijo del río cosas largas y tremendas.

Me dijo que a sus piedras la dureza

les viene del agua que las golpea.

Y que la lluvia le duele y le entusiasma

más que cualquier cosa cualquiera.

 

Un pez me dijo del mar cosas anchas y tremendas.

Me dijo que a sus aguas el río le duele y le entusiasma

más que cualquier cosa cualquiera.

Y que la amargura le viene del agua

de lluvia que le golpea.

 

Un pez me dijo del hombre cosas largas, anchas y tremendas.

Me dijo que la dureza le viene de la amargura que le golpea.

Y que la vida le duele y le entusiasma

más que cualquier cosa cualquiera.

 

Una vida me dijo del hombre cosas largas, anchas y tremendas.

Me dijo que la amargura le viene

de no ser mar, ni río ni lluvia

y de ser hombre como cualquier cosa cualquiera.

 

Recolhendo as redes

(Winslow Homer: pintor norte-americano)

 

Uma Vida

 

Um peixe me disse do rio coisas longas e tremendas.

Disse-me que a suas pedras a dureza

vem da água que as golpeia.

E que a chuva lhe dói e entusiasma

mais do que qualquer coisa seja qual for.

 

Um peixe me disse do mar coisas largas e tremendas.

Disse-me que a suas águas o rio lhe dói e entusiasma

mais do que qualquer coisa seja qual for.

E que a amargura lhe vem da água

de chuva que o golpeia.

 

Um peixe me disse do homem coisas longas, largas e tremendas.

Disse-me que a dureza lhe vem da amargura que o golpeia.

E que a vida lhe dói e entusiasma

mais do que qualquer coisa seja qual for.

 

Uma vida me disse do homem coisas longas, largas e tremendas.

Disse-me que a amargura lhe vem

de não ser mar, nem rio ou chuva

e de ser homem como qualquer coisa seja qual for.

 

Referências:

 

Em Espanhol

 

BAÑUELOS, Raúl. Una vida. In: __________. Casa de sí. 1. ed. México, D.F.: Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), 1993. p. 19-20.

 

Em Português


BAÑUELOS, Raúl. Uma vida. Tradução de Floriano Martins. In: LANGAGNE, Eduardo (Organização e Estudo Introdutório). Dentro do poema (poetas mexicanos nascidos entre 1950 e 1959). Tradução de Floriano Martins. Coedição com a Secretaria de Cultura do Estado do Ceará (Secult). Fortaleza, CE: Edições UFC, 2009. p. 92.

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sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Lélia Coelho Frota - A janela de Fernando Pessoa

De Fernando Pessoa, detentor de um estado mental multivariado, a poetisa carioca apreende saudades de saudades, recordações nostálgicas translativas que, em primeiro grau, surgem abstraídas à distância – pois que Lisboa é o seu ponto de mirada preferencial, janela que se abre a um estuário de cenas transmutadas a uma cornucópia de outros tantos vislumbres –, mas que logo após associam-se a uma cidade jamais visitada pelo poeta lusitano – Paris.

 

A perplexidade tencionada pela poetisa carioca à mirada do leitor, como se percebe, resulta da presunção em se ter saudade de um sítio perante o qual se está presente – e não em outro tempo e/ou lugar –, assim como se ter saudade de um lugar onde nunca se esteve, do qual somente a imaginação poderia suscitar suspiros nostálgicos: ah... o visionário que assoma da pena de poetas daqui e de além-mar!

 

J.A.R. – H.C.

 

Lélia Coelho Frota

(1938-2010)

 

A janela de Fernando Pessoa

 

Estar em Lisboa

era ter saudade de Paris.

Quis

o destino de um amor brotado

como ervas, à beira do rio súbito,

a confundir a calma

da longa degustação da própria alma

 

que estar em Lisboa

fosse ter saudade de Lisboa

onde se tinha saudade de Paris.

 

O olhar para fora

(Henry Scott Tuke: pintor inglês)

 

Referência:

 

FROTA, Lélia Coelho. A janela de Fernando Pessoa. In: __________. Poesia reunida: 1956-2006. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Bem-Te-Vi, 2012. p. 407.

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quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

César Young Núnez - A pedido de parte interessada

Por meio de um insólito acordo, o poeta substabeleceu o seu ofício a uma caneta Sheaffer em troca de cigarros e de tranquilizantes e, em consequência, volta e meia, a caneta pôs-se a perguntar o significado de determinada palavra empregada. Resultado: um tipo de poesia com “versos espantosos”, uma verdadeira “droga para dormir” – um sonífero, dir-se-ia.

 

As linhas do poema transcorrem hilárias – e tal, sem dúvida, é o efeito colimado pelo poeta sino-panamenho: ao final, o falante requer aos leitores que sigam estritamente a receita para a leitura dos versos – “sem comer os pontos e as vírgulas” –, pois não tem a intenção de assistir a um enterro, caso o efeito do aludido sonífero estenda-se para muito além do prescrito! (rs)

 

J.A.R. – H.C.

 

César Young Núnez

(1934-2017)

 

A solicitud de parte interesada

 

Con la mano en el pecho de mi libro,

certifico que estos versos espantosos,

no fueron escritos por mi mano.

Ustedes me preguntarán quién pudo ser.

La verdad sea dicha sin tapujos!

Fue mi pluma Sheaffer!

 

Verán ustedes mis carísimos lectores.

Hice un trato con mi buena amiga la Poesía:

dos cajetillas de cigarrillos por poema,

y una caja de ecuanil para los nervios.

Menudo lío que me metí con este trato.

A cada rato me llamaba la pluma por teléfono

preguntándome el significado de un vocablo.

 

A los que hagan el esfuerzo de leerlos,

sin comerse los puntos y las comas,

(No confundir con un restorán el libro)

desde la primera hasta la última palabra

yo les doy las buenas noches,

mi poesía es una droga de dormir.

 

Antes de terminar les pido,

ceñirse estrictamente a la receta.

No tengo ganas

de asistir a un entierro.

 

En: “Poemas de rutina” (1967)

 

Retrato de um homem escrevendo

em seu gabinete

(Gustave Caillebotte: pintor francês)

 

 

A pedido de parte Interessada

 

Com a mão no peito de meu livro,

certifico que estes versos espantosos

não foram escritos pela minha mão.

Perguntar-me-ão quem os poderia ter feito.

A verdade seja dita sem subterfúgio!

Foi minha caneta Sheaffer!

 

Como veem, meus caríssimos leitores.

Fiz um trato com a minha boa amiga – a Poesia:

dois maços de cigarro por poema

e uma caixa de tranquilizantes para os nervos.

Meti-me em confusão com esse negócio.

De vez em quando a caneta telefonava-me

para perguntar o significado de um vocábulo.

 

Àqueles que se derem ao trabalho de lê-los,

sem comer os pontos e as vírgulas,

(Não confundir o livro com um restaurante)

da primeira à última palavra,

dou-lhes as boas noites,

minha poesia é uma droga para dormir.

 

Antes de terminar, peço-lhes

que sigam rigorosamente a receita.

Não pretendo

assistir a um funeral.

 

Em: “Poemas de rotina” (1967)

 

Referência:

 

NÚNEZ, César Young. A solicitud de parte interesada. In: VEJA, Luis Wong; JAMES, Winston Churchill; LEW, Rita Wong (Sels.). 1. ed. Vástagos del Dragón: 26 poetas chino-panameños. Panamá (PA): Ediciones del Año de la Cabra de Madera, mar. 2015. p. 44.

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quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Khalil Gibran - Sobre os filhos

Neste breve e instigante discurso, o “profeta” orienta os pais sobre como devem criar os seus filhos, não os tomando como sua propriedade, senão como parte de um projeto maior que se assume pela metáfora de uma alma que reside “na casa do amanhã”, imperscrutável mesmo para quem os gerou – meros arcos fletidos por meio dos quais se disparam os rebentos futuros.

 

Tem-se aí o cotejo antinômico entre a afeição egoísta e a altruísta, pois pretender que outrem seja o objeto de imposições que reflitam os pensamentos e interesses dos pais, a pretexto de que são estes que proveem o sustento dos filhos, torna o contexto uma cilada em que a liberdade é a peça liminarmente suprimida do tabuleiro do jogo da vida.

 

Pior é quando aquele que sofre a coação renuncia a jogar uma partida de cartas marcadas: poder-se-ia ilustrar a situação por meio de uma das cenas do marcante filme “Sociedade dos Poetas Mortos” (1989), do diretor australiano Peter Weir (n. 1944), na qual um dos rapazes protagonistas – Neil Perry –, sendo reiteradamente impedido de fazer o que deseja de sua vida, pois que seu pai tem outros projetos para ele, decide suicidar-se. Um fim trágico como corolário de um conflito de vontades aversas!

 

J.A.R. – H.C.

 

Khalil Gibran

(1883-1931)

 

Sobre os filhos

 

E uma mulher que segurava um bebê junto ao peito pediu: “Fale-nos dos Filhos”. Ao que ele disse:

 

Seus filhos não são seus.

São os filhos e as filhas do desejo da Vida por si mesma.

Chegam por meio de vocês, mas não são de vocês.

Embora estejam com vocês, não lhes pertencem.

Podem dar-lhes o amor, mas não os pensamentos, pois eles têm pensamentos próprios.

Podem abrigar-lhes o corpo, mas a alma, não, pois a alma deles mora na casa do amanhã, a qual não lhes é possível visitar, nem sequer em sonhos.

Podem esforçar-se por ser semelhantes a eles, porém não busquem torná-los iguais a vocês.

Pois a vida não segue para trás, nem se retarda no ontem.

O Arqueiro mira o alvo no caminho do infinito, e com Seu poder curva vocês para que Ele possa disparar suas flechas rápidas e distantes.

Que o ato de se curvarem sob a mão do Arqueiro seja pela alegria; pois, assim como Ele ama a flecha que voa, também ama o arco que se mantém estável.

 

Mulher taitiana com duas crianças

(Paul Gauguin: pintor francês)

 

Referência:

 

GIBRAN, Khalil. Sobre os filhos. Tradução de Alda Porto. In: __________. O profeta. Tradução de Alda Porto. São Paulo, SP: Martin Claret, 2013. p. 27. (Coleção ‘A obra-prima de cada autor’; v. 165)

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