Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Jorge de Lima - O Grande Circo Místico

O poeta descreve a história de gerações de uma família circense, a começar pela relação de um aristocrata – Oto Frederico Knieps – com uma encantadora equilibrista – Agnes –, crônica essa que deu ensejo à recente película homônima, lançada em fins de 2018, pelo diretor Cacá Diegues, com trilha musical composta por Edu Lobo e Chico Buarque, lá pelos idos dos 80.

O falante, ao longo do poema, reitera o interesse da imprensa acerca dos episódios marcadamente triviais que envolvem a trupe, mas o desinteresse dessa mesma imprensa quanto aos milagres a que estão associados os nomes das gêmeas Marie e Helene – aptos a homologar a conexão dos fatos humanos às premissas etéreas.

J.A.R. – H.C.

 

Jorge de Lima

(1893-1953)

 

O Grande Circo Místico

 

O médico de câmara da imperatriz Teresa – Frederico Knieps –

resolveu que seu filho também fosse médico,

mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes,

com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps

de que tanto se tem ocupado a imprensa.

Charlote, filha de Frederico, se casou com o clown,

de que nasceram Marie e Oto.

E Oto se casou com Lily Braun a grande deslocadora

que tinha no ventre um santo tatuado.

A filha de Lily Braun – a tatuada no ventre

quis entrar para um convento,

mas Oto Frederico Knieps não atendeu,

e Margarete continuou a dinastia do circo

de que tanto se tem ocupado a imprensa.

Então, Margarete tatuou o corpo

sofrendo muito por amor de Deus,

pois gravou em sua pele rósea

a Via-Sacra do Senhor dos Passos.

E nenhum tigre a ofendeu jamais;

e o leão Nero que já havia comido dois ventríloquos,

quando ela entrava nua pela jaula adentro,

chorava como um recém-nascido.

Seu esposo – o trapezista Ludwig – nunca mais a pôde amar,

pois as gravuras sagradas afastavam

a pele dela o desejo dele.

Então, o boxeur Rudolf que era ateu

e era homem fera derrubou Margarete e a violou.

Quando acabou, o ateu se converteu, morreu.

Margarete pariu duas meninas que são o prodígio do

Grande Circo Knieps.

Mas o maior milagre são as suas virgindades

em que os banqueiros e os homens de monóculo têm esbarrado;

são as suas levitações que a plateia pensa ser truque;

é a sua pureza em que ninguém acredita;

são as suas mágicas em que os simples dizem que há o diabo;

mas as crianças creem nelas, são seus fiéis, seus amigos,

seus devotos.

Marie e Helene se apresentam nuas,

dançam no arame e deslocam de tal forma os membros

que parece que os membros não são delas.

A plateia bisa coxas, bisa seios, bisa sovacos.

Marie e Helene se repartem todas,

se distribuem pelos homens cínicos,

mas ninguém vê as almas que elas conservam puras.

E quando atiram os membros para a visão dos homens,

atiram as almas para a visão de Deus.

Com a verdadeira história do grande circo Knieps

muito pouco se tem ocupado a imprensa.

 

Em: “A túnica inconsútil (1938)

 

Cavalo de Circo

(Marc Chagall: pintor russo-francês)


Referência:

LIMA, Jorge de. O grande circo místico. In: __________. Poesia completa: em um volume. Organização de Alexei Bueno. Rio de Janeiro, RJ: Nova Aguilar, 1997. p. 372-373. (Biblioteca luso-brasileira; Série brasileira)

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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Anne Stevenson - Depois de Isso Findar

O falante está a redarguir às vindicações de sua provável companheira – ou a um presumível credor, talvez –, por doar-se e doar-se a uma vigília de filantropia ou de caridade a terceiros, esquecendo-se das “dívidas” contraídas por amor – ou por um ajuste firmado de compra e venda –, tal que, agora, já não dispõe de haveres que a possam quitar.

Emergem das linhas do poema duas inferências mais facilmente perscrutáveis: a primeira (i), alusiva ao objeto de troca do empréstimo concedido por Shylock, judeu de origem, ao mercador Antônio, na peça “O Mercador de Veneza”, de William Shakespeare (1564-1616) – uma libra da carne extraída ao corpo do devedor –; e a outra (ii), mais mediata, associável às palavras de Cristo em Mateus 7: 7-8, no sentido da provisão infinita do universo, pois dar e receber são faces da mesma moeda, literalmente: 

“Pedi, e vos será dado; buscai, e achareis; batei, e a porta se abrirá. Pois todo aquele que pede recebe; quem procura acha; e, para todos os que batem, a porta se abrirá”.

J.A.R. – H.C.

 

Anne Stevenson

(1933-2020)

 

After the End of It

 

You gave and gave,

and now you say you’re poor.

I’m in your debt, you say,

and there’s no way to repay you

but by my giving more.

 

Your pound of flesh is what you must have?

Here’s what I’ve saved.

 

This sip of wine is yours,

this sieve of laughter. Yours,

too, these broken haloes

from my cigarette, these coals

that flicker when the salt wind howls

and the letter box blinks like a loud

eyelid over the empty floor.

 

I’ll send this, too, this gale between rains,

this wild day. Its cold so cold

I want to break it into panes

like new ice on a pond; then pay it

pain by pain to your account.

Let it freeze us both into some numb country!

Giving and taking might be the same there.

A future of measurement and blame

gone in a few bitter minutes.

 

Bote Salva-Vidas com Equipamento Manby

Saindo ao Resgate de Navio Encalhado

Que Emite Sinais de Socorro (Luzes Azuis)

(J. M. W. Turner: pintor inglês)

 

Depois de Isso Findar

 

Doaste e doaste,

e agora dizes que és pobre.

Estou em dívida contigo, confessas-me,

e não há forma de reembolsar-te

senão doando mais.

 

Tua libra de carne é o que deves ter?

Aqui está a que preservei a salvo.

 

Este trago de vinho é teu,

este tamis de risos. Teus,

por igual, estes halos partidos

de meu cigarro, estas brasas

que esplendem quando o vento salgado uiva

e a caixa de correio cintila como uma pálpebra

aprumada sobre o chão vazio.

 

Hei de enviar-te, também, este vendaval entre chuvas,

este dia selvagem. Faz tanto frio

que quero rompê-lo em cristais

como gelo novo num lago; depois, quitá-lo

dor por dor à tua conta.

Deixemo-nos congelar assim em algum país letargo!

Ali, dar e receber podem equivaler-se.

Um futuro de vindicações e censuras

esvai-se em poucos e amargos minutos.


Referência:

STEVENSON, Anne. After the end of it. In: ASTLEY, Neil (Ed.). Staying alive: real poems for unreal times. 1st. ed. New York, NY: Miramax Books, 2003. p. 281.

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terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

William Carlos Williams - Estas

Com uma sintaxe em volutas, de negações geminadas e enigmas sentenciosos, a transitar por uma cena de solstício de inverno naninha, cruciante e melancólica, há neste poema de Williams algum desconforto ou incredulidade do falante quanto ao poder de a natureza se renovar, de uma forma ou de outra, para melhor, ou – seria mais cômodo deixar o ponto às claras – de o homem tornar-se menos insensato.

Trata-se de assombrosa meditação, assente em paisagem visionária, senão fantasmagórica, assim como que a profetizar trevas pósteras, mesmo diante do sustentáculo proporcionado pelas artes e pelas ciências. A propósito, o cenário sombrio que se difunde pelos versos desvela o crepitar de um fogo “obscuro”, acirrado pelo gênero humano, à vista de conflitos bélicos ratificadores do estado de “estupidez” em que este se demora.

J.A.R. – H.C.

 

William Carlos Williams

(1883-1963)

 

These

 

are the desolate, dark weeks

when nature in its barrenness

equals the stupidity of man.

 

The year plunges into night

and the heart plunges

lower than night

 

to an empty, windswept place

without sun, stars or moon

but a peculiar light as of thought

 

that spins a dark fire –

whirling upon itself until,

in the cold, it kindles

 

to make a man aware of nothing

that he knows, not loneliness

itself – Not a ghost but

 

would be embraced – emptiness,

despair – (They

whine and whistle) among

 

the flashes and booms of war;

houses of whose rooms

the cold is greater than can be thought,

 

the people gone that we loved,

the beds lying empty, the couches

damp, the chairs unused –

 

Hide it away somewhere

out of the mind, let it get roots

and grow, unrelated to jealous

 

ears and eyes – for itself.

In this mine they come to dig – all.

Is this the counterfoil to sweetest

 

music? The source of poetry that

seeing the clock stopped, says,

The clock has stopped

 

that ticked yesterday so well?

and hears the sound of lakewater

splashing – that is now stone.

 

Pedregulhos à margem de um lago

(Alexandre Calame: pintor suíço)

 

Estas

 

são as semanas sombrias, desoladas

em que na sua aridez a natureza

iguala a estupidez do homem.

 

O ano submerso faz-se noite

e o coração submerge

mais fundo do que a noite

 

num sítio vácuo, varrido pelo vento

sem sol, sem lua nem estrelas,

só uma estranha luz como de pensamento

 

que incita um fogo obscuro –

a girar sobre si mesma até,

na frialdade, incendiar-se

 

para tornar um homem cônscio

de nada que saiba, não a própria

solitude – Não um fantasma mas

 

seria abraçado – vacuidade,

desespero – (Eles

silvam e soluçam) entre

 

os clarões e estrondos da guerra;

casas em cujos aposentos

o frio é maior do que se possa pensar,

 

partidas as pessoas a quem amávamos,

os leitos vazios, as poltronas

úmidas, as cadeiras sem uso –

 

Trata de a esconder nalgum lugar

longe da lembrança, onde enraíze

e cresça, a salvo dos ouvidos

 

zelosos e dos olhos – por si mesma.

Esta mina vêm eles escavá-la – todos.

Será isto a contraparte da música

 

mais suave? A fonte de poesia que

vendo o relógio parado, diz,

Parou o relógio que

 

ontem tiquetaqueava tão bem?

e ouve o som de água do lago

esparrinhando – pedras agora.


Referência:

WILLIAMS, William Carlos. These / Estas. Tradução de José Paulo Paes. In: __________. Poemas. Seleção, tradução e estudo crítico de José Paulo Paes. Edição bilíngue. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1987. Em inglês: p. 138 e 140; em português: p. 139 e 141.

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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Carlos Drummond de Andrade - Resíduo

O poeta de Itabira nos fala das coisas que remanescem na memória, enquanto história de vida de cada um sobre a terra: é o que nos sobra do passado, mesmo com todo o risco de a mente falsear a categórica realidade dos fatos – isto se nos dispusermos a crer que, deveras, estes possam existir, pois a julgar por Nietzsche, tudo são suas contingentes interpretações.

A rigor, o contexto em que imersas as coisas revela-se determinante para que firmemos uma recordação na mente: para Drummond, entretanto, tudo parece emergir em sua indefectível forma, diante de uma memória viva, como um empuxo a compilar cada momento haurido, sem vácuos a interpolar, sem o intercurso de ausências deliberadas a revelar paúras.

J.A.R. – H.C.

 

Carlos Drummond de Andrade

(1902-1987)

 

Resíduo

 

De tudo ficou um pouco.

Do meu medo. Do teu asco.

Dos gritos gagos. Da rosa

ficou um pouco

 

Ficou um pouco de luz

captada no chapéu.

Nos olhos do rufião

de ternura ficou um pouco

(muito pouco).

 

Pouco ficou deste pó

de que teu branco sapato

se cobriu. Ficaram poucas

roupas, poucos véus rotos

pouco, pouco, muito pouco.

 

Mas de tudo fica um pouco.

Da ponte bombardeada,

de duas folhas de grama,

do maço

– vazio – de cigarros, ficou um pouco.

 

Pois de tudo fica um pouco.

Fica um pouco de teu queixo

no queixo de tua filha.

De teu áspero silêncio

um pouco ficou, um pouco

nos muros zangados,

nas folhas, mudas, que sobem.

 

Ficou um pouco de tudo

no pires de porcelana,

dragão partido, flor branca,

ficou um pouco

de ruga na vossa testa,

retrato.

 

Se de tudo fica um pouco,

mas por que não ficaria

um pouco de mim? no trem

que leva ao norte, no barco,

nos anúncios de jornal,

um pouco de mim em Londres,

um pouco de mim algures?

na consoante?

no poço?

 

Um pouco fica oscilando

na embocadura dos rios

e os peixes não o evitam,

um pouco: não está nos livros.

 

De tudo fica um pouco.

Não muito: de uma torneira

pinga esta gota absurda,

meio sal e meio álcool,

salta esta perna de rã,

este vidro de relógio

partido em mil esperanças,

este pescoço de cisne,

este segredo infantil...

De tudo ficou um pouco:

de mim; de ti; de Abelardo.

Cabelo na minha manga,

de tudo ficou um pouco;

vento nas orelhas minhas,

simplório arroto, gemido

de víscera inconformada,

e minúsculos artefatos:

campânula, alvéolo, cápsula

de revólver... de aspirina.

De tudo ficou um pouco.

 

E de tudo fica um pouco.

Oh abre os vidros de loção

e abafa

o insuportável mau cheiro da memória.

 

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,

e sob as ondas ritmadas

e sob as nuvens e os ventos

e sob as pontes e sob os túneis

e sob as labaredas e sob o sarcasmo

e sob a gosma e sob o vômito

e sob o soluço, o cárcere, o esquecido

e sob os espetáculos e sob a morte de escarlate

e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes

e sob ti mesmo e sob teus pés já duros

e sob os gonzos da família e da classe,

fica sempre um pouco de tudo.

Às vezes um botão. Às vezes um rato.

 

Em: “A Rosa do Povo” (1945)

 

Violino e Candelabro

(Georges Braque: pintor francês)


Referência:

ANDRADE, Carlos Drummond de Andrade. Resíduo. In: __________. Antologia poética. Organizada pelo autor. Prefácio de Marco Lucchesi. 48. ed. Rio de Janeiro, RJ: Record, 2001. p. 320-323.

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