Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Miguel Hernández - Um carnívoro punhal

Eis aqui a primeira seção da coletânea “El rayo que no cesa” (“O raio que não cessa”), de 1936, do renomado poeta espanhol, ao longo da qual nos é transmitido um juízo do quanto de complexo há na condição humana, dominada pelo sofrimento e, como no presente caso, pelas tormentas que fustigam o falante, simbolizadas pelas figuras do “punhal” e do “raio”, sejam eles forças externas ou, como suponho, voragens que lhe desassossegam o espírito.

 

Trata-se, ademais, de um testemunho da luta do sujeito lírico para manter a sua própria dignidade e a fé, mesmo sob esse mar de desesperança. Afinal, talvez haja um propósito redentor em cada dor que nos transpassa, e manter a resiliência, mesmo diante dos golpes do destino e da inevitabilidade da morte, poderá nos trazer algum sentido de orientação e de serenidade para nos desvencilhar do caos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Miguel Hernández

(1910-1942)

 

Un carnívoro cuchillo

 

Un carnívoro cuchillo

de ala dulce y homicida

sostiene un vuelo y un brillo

alrededor de mi vida.

 

Rayo de metal crispado

fulgentemente caído,

picotea mi costado

y hace en él un triste nido.

 

Mi sién, florido balcón

de mis edades tempranas,

negra está, y mi corazón,

y mi corazón con canas.

 

Tal es la mala virtud

del rayo que me rodea,

que voy a mi juventud

como la luna a la aldea.

 

Recojo con las pestañas

sal del alma y sal del ojo

y flores de telarañas

de mis tristezas recojo.

 

¿A dónde iré que no vaya

mi perdición a buscar?

Tu destino es de la playa

y mi vocación del mar.

 

Descansar de esta labor

de huracán, amor o infierno

no es posible, y el dolor

me hará a mi pesar eterno.

 

Pero al fin podré vencerte,

ave y rayo secular,

corazón, que de la muerte

nadie ha de hacerme dudar.

 

Sigue, pues, sigue, cuchillo,

volando, hiriendo. Algún día

se pondrá el tiempo amarillo

sobre mi fotografía.

 

Dor

(Golam Faruque: artista bangladeshiano)

 

Um carnívoro punhal

 

Um carnívoro punhal

de asa doce e homicida

mantém seu voo desigual

ao redor da minha vida.

 

Raio de metal crispado

brilhantemente daninho,

recorta o meu costado

e nele faz triste ninho.

 

A minha fronte, balcão

florido da juventude,

negra está, e o coração

encerra decrepitude.

 

E tão grande é a desgraça

do raio que me rodeia,

que retomo à velha praça

como a lua vê minha aldeia.

 

Recolho nestas pestanas

sal da alma, sal do olho

e flores de filigranas

destas tristezas recolho.

 

Até mesmo nesta raia

vem perdição me buscar?

Teu destino é a praia

minha missão, a do mar.

 

Descansar deste labor

de vento, de amor, de inferno

não é possível, e a dor

fará meu pesar eterno.

 

Mas ao fim acho meu norte,

ave e raio secular,

coração, que nem da morte

alguém me faz duvidar.

 

Segue, pois, segue, punhal,

voa, fere que algum dia

será o tempo areal

em minha fotografia.

 

Referência:

 

HERNÁNDES, Miguel. Un carnívoro cuchillo / Um carnívoro punhal. Tradução de Alexandre Pilati. In: __________. O raio que não cessa. Tradução de Alexandre Pilati. Brasília, DF: Editora da UnB, 2022. Em espanhol: p. 34, 36 e 38; em português: p. 35, 37 e 39. (Coleção “Poetas do Mundo”)

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