Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Czesław Miłosz - O que eu escrevia

Miłosz reflete sobre o ato mesmo de escrever poesia, digo melhor, dos limites do poder da linguagem para capturar o inefável, pois que lhe parece que nenhuma palavra se mostra suficiente para dar conta de tudo o que está à volta de nossas existências ou, ainda, de ir tão fundo para que seja capaz de esgotar os sentidos da beleza e do mistério de que se reveste este universo.

 

Muito de nosso vibrante entorno, por conseguinte, ainda paira no insondável e, mesmo que, a nossos olhos, expresse uma materialidade palpável – basta ver a face tangível do mundo natural –, não se deixa apreender, de todo, em suas abstrações simbólicas, sobretudo no que diz respeito ao plano do absoluto ou da eternidade – tão dessemelhante à impermanência e à fragilidade das quais somos reféns.

 

J.A.R. – H.C.

 

Czesław Miłosz

(1911-2004)

 

To co pisałem

 

To co pisałem, nagle się wydało

błazeństwem. Znaleźć nie mogłem wyrazów.

Patrzyłem na świat olbrzymi, tętniący,

z łokciami o kamienną poręcz opartymi.

Płynęły rzeki, pruły chmurę żagle,

mdlały zachody. Wszystkie piękne kraje,

wszystkie istoty, których pożądałem,

wzeszły na niebo jak wielkie księżyce.

W te lampy dziwne ruchome wpatrzony,

licząc ich łuki astrologiczne,

szeptałem: świecie, giń, litości, tonę.

Żadna na piękność nie wystarczy mowa.

Widziałem w sobie rozległe doliny

i mogłem stopą brązem uskrzydloną

iść ponad nimi na szczudłach powietrza.

Ale to gasło, noc niespamiętana.

 

Paryż, 1934

W: “Wiersze rozproszone” (1930-1936)

 

Monge à beira-mar

(Caspar David Friedrich: pintor alemão)

 

O que eu escrevia

 

O que eu escrevia de súbito pareceu

ridículo. Eu não era capaz de exprimir.

Olhei para o mundo imenso, pulsante,

os cotovelos apoiados em um corrimão de pedra.

Rios corriam, velas rasgavam nuvens,

poentes desmaiavam. Todos os belos países,

todos os seres que desejei

se ergueram no céu como grandes luas.

Olhar fixo nesses estranhos lumes moventes,

contando seus arcos astrológicos,

sussurrei: mundo, cessa, piedade, eu me afogo.

Palavra nenhuma basta para a beleza.

Eu enxergava dentro de mim extensos vales

e podia, o passo alado e brônzeo,

lançar-me acima deles em muletas de ar.

Mas isso se foi, noite sem memória.

 

Paris, 1934

Em: “Poemas dispersos” (1930-1936)

 

Referência:

 

Miłosz, Czesław. To co pisałem / O que eu escrevia. Tradução de Marcelo Paiva de Souza. In: __________. Para isso fui chamado: poemas. Seleção, tradução e introdução de Marcelo Paiva de Souza. 1. ed. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2023. Em polonês: p. 38; em português: p. 39.

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