Miłosz reflete sobre
o ato mesmo de escrever poesia, digo melhor, dos limites do poder da linguagem
para capturar o inefável, pois que lhe parece que nenhuma palavra se mostra suficiente
para dar conta de tudo o que está à volta de nossas existências ou, ainda, de ir
tão fundo para que seja capaz de esgotar os sentidos da beleza e do mistério de
que se reveste este universo.
Muito de nosso vibrante
entorno, por conseguinte, ainda paira no insondável e, mesmo que, a nossos
olhos, expresse uma materialidade palpável – basta ver a face tangível do mundo
natural –, não se deixa apreender, de todo, em suas abstrações simbólicas,
sobretudo no que diz respeito ao plano do absoluto ou da eternidade – tão dessemelhante
à impermanência e à fragilidade das quais somos reféns.
J.A.R. – H.C.
Czesław Miłosz
(1911-2004)
To co pisałem, nagle
się wydało
błazeństwem. Znaleźć nie mogłem wyrazów.
Patrzyłem na świat olbrzymi, tętniący,
z łokciami o kamienną poręcz opartymi.
Płynęły rzeki, pruły chmurę żagle,
mdlały zachody.
Wszystkie piękne kraje,
wszystkie istoty,
których pożądałem,
wzeszły na niebo jak
wielkie księżyce.
W te lampy dziwne
ruchome wpatrzony,
licząc ich łuki astrologiczne,
szeptałem: świecie, giń, litości, tonę.
Żadna na piękność nie wystarczy mowa.
Widziałem w sobie
rozległe doliny
i mogłem stopą brązem uskrzydloną
iść ponad nimi na szczudłach powietrza.
Ale to gasło, noc
niespamiętana.
Paryż, 1934
W: “Wiersze rozproszone”
(1930-1936)
Monge à beira-mar
(Caspar David
Friedrich: pintor alemão)
O que eu escrevia
O que eu escrevia de
súbito pareceu
ridículo. Eu não era
capaz de exprimir.
Olhei para o mundo
imenso, pulsante,
os cotovelos apoiados
em um corrimão de pedra.
Rios corriam, velas
rasgavam nuvens,
poentes desmaiavam.
Todos os belos países,
todos os seres que
desejei
se ergueram no céu
como grandes luas.
Olhar fixo nesses
estranhos lumes moventes,
contando seus arcos
astrológicos,
sussurrei: mundo,
cessa, piedade, eu me afogo.
Palavra nenhuma basta
para a beleza.
Eu enxergava dentro
de mim extensos vales
e podia, o passo
alado e brônzeo,
lançar-me acima deles
em muletas de ar.
Mas isso se foi,
noite sem memória.
Paris, 1934
Em: “Poemas dispersos”
(1930-1936)
Referência:
Miłosz, Czesław. To
co pisałem / O que eu escrevia. Tradução de Marcelo Paiva de Souza. In:
__________. Para isso fui chamado: poemas. Seleção, tradução e
introdução de Marcelo Paiva de Souza. 1. ed. São Paulo, SP: Companhia das
Letras, 2023. Em polonês: p. 38; em português: p. 39.
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