Com um discurso entre
evocador e melancólico, o poeta mineiro nos fala de uma busca infecunda de
sentido num mundo permeado pelo vazio, haja vista que o sujeito poético expressa
certo distanciamento não somente de um determinado lugar físico, mas de algo
mais significativo – talvez de si mesmo ou de uma sensação de pertencimento.
Confrontado à perda
de direção e de propósito, o falante incorre numa atroz desesperança, o que nos
parece demarcar o cenário de um mundo pós-sagrado, no qual o Criador, tendo abandonado
o ser humano à própria sorte, suprimiu-lhe o eco responsivo às dúvidas, lançando-o
num desterro íntimo, existencial, restando-lhe, nesse caso, nada mais do que,
resignadamente, aceitar a ausência, interpretada esta em sua máxima amplitude: ausência
de sentido – repita-se –, ausência de integridade psíquica, ausência do outro e
do coletivo, ausência de futuro e – a involucrar todo o rol – ausência divina
ou do sagrado.
J.A.R. – H.C.
Emílio Moura
(1902-1971)
Aqui termina o
caminho
Os sinos cantando, as
sombras todas se diluindo
dentro da tarde.
Dentro da tarde, o teu grave
pensamento de exílio.
Porque ainda esperas?
Aqui termina o caminho,
aqui morre a voz, e
não há mais eco, nem nada.
Por que não esquecer,
agora, as imagens que tanto
nos perturbaram
e que inutilmente nos
conduziram
para nos deixar de
súbito na primeira esquina?
Essa voz que vem não
sei de onde,
esses olhos que olham
não sei o quê,
esses braços que se
estendem não sei para onde...
Debalde esperarás que
o eco de teus passos acorde
os espaços que já não
têm voz.
As almas já
desertaram daqui.
E nenhum milagre te
espera,
nenhum.
Em: “Canto da hora
amarga” (1936)
O fim do caminho
(Pablo Picasso: pintor
espanhol)
Referência:
MOURA, Emílio. Aqui
termina o caminho. Revista Acadêmica: Antologia da moderna poesia
brasileira, Rio de Janeiro, n. 44, p. 142, jun. 1939. Disponível neste endereço. Acesso em: 10 out.
2024.
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