Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Emílio Moura - Aqui termina o caminho

Com um discurso entre evocador e melancólico, o poeta mineiro nos fala de uma busca infecunda de sentido num mundo permeado pelo vazio, haja vista que o sujeito poético expressa certo distanciamento não somente de um determinado lugar físico, mas de algo mais significativo – talvez de si mesmo ou de uma sensação de pertencimento.

 

Confrontado à perda de direção e de propósito, o falante incorre numa atroz desesperança, o que nos parece demarcar o cenário de um mundo pós-sagrado, no qual o Criador, tendo abandonado o ser humano à própria sorte, suprimiu-lhe o eco responsivo às dúvidas, lançando-o num desterro íntimo, existencial, restando-lhe, nesse caso, nada mais do que, resignadamente, aceitar a ausência, interpretada esta em sua máxima amplitude: ausência de sentido – repita-se –, ausência de integridade psíquica, ausência do outro e do coletivo, ausência de futuro e – a involucrar todo o rol – ausência divina ou do sagrado.

 

J.A.R. – H.C.

 

Emílio Moura

(1902-1971)

 

Aqui termina o caminho

 

Os sinos cantando, as sombras todas se diluindo

dentro da tarde. Dentro da tarde, o teu grave

pensamento de exílio.

 

Porque ainda esperas? Aqui termina o caminho,

aqui morre a voz, e não há mais eco, nem nada.

 

Por que não esquecer, agora, as imagens que tanto

nos perturbaram

e que inutilmente nos conduziram

para nos deixar de súbito na primeira esquina?

 

Essa voz que vem não sei de onde,

esses olhos que olham não sei o quê,

esses braços que se estendem não sei para onde...

 

Debalde esperarás que o eco de teus passos acorde

os espaços que já não têm voz.

 

As almas já desertaram daqui.

E nenhum milagre te espera,

nenhum.

 

Em: “Canto da hora amarga” (1936)

 

O fim do caminho

(Pablo Picasso: pintor espanhol)

 

Referência:

 

MOURA, Emílio. Aqui termina o caminho. Revista Acadêmica: Antologia da moderna poesia brasileira, Rio de Janeiro, n. 44, p. 142, jun. 1939. Disponível neste endereço. Acesso em: 10 out. 2024.

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