Este poema de Lezama possui
um título homônimo a este
outro, de João Cabral de Melo Neto, contudo, com mirada diferente sobre a
conexão em apreço: enquanto o autor pernambucano propõe uma visão mais
arquitetônica e funcional da sedução feminina, comparando-a ao interior de uma
casa que atrai não pela aparência externa, mas pela organização interna e pelos
espaços vazios que convidam à exploração, o poeta cubano apresenta a mulher como
uma força ordenadora que transforma o cotidiano doméstico em ritual sagrado,
elevando as tarefas simples da casa a um plano quase mítico de transcendência.
Lezama celebra a
mulher como centro vital e estabilizador do lar, cujo riso ressoa como
resistência ao caos e cuja presença outorga sentido e leveza a tudo ao seu
redor, mesmo nos momentos mais difíceis ou sombrios: pela mediação dos veneráveis
atos dessa mulher-sacerdotisa, o quotidiano se converte, no universo doméstico,
num ritual sagrado orientado a cuidados e propósitos bem definidos.
J.A.R. – H.C.
José Lezama Lima
(1910-1976)
y seguías las aromosas costumbres del café.
Recorrías la casa
con una medida sin desperdicios.
Cada minucia un sacramento,
como una ofrenda al peso de la noche.
Todas tus horas están justificadas
al pasar del comedor a la sala,
donde están los retratos
que gustan de tus comentarios.
Fijas la ley de todos los días
y el ave dominical se entreabre
con los colores del fuego
y las espumas del puchero.
Cuando se rompe un vaso,
es tu risa la que tintinea.
El centro de la casa
vuela como el punto en la línea.
En tus pesadillas,
llueve interminablemente
sobre la colección de matas
enanas y el flamboyán subterráneo.
Si te atolondraras
el firmamento roto
en lanzas de mármol,
se echaría sobre nosotros.
Febrero y 1976
A leiteira
(Johannes Vermeer:
pintor holandês)
A mulher e a casa
Fervias o leite
e seguias os distintivos
aromas do café.
Percorrias a casa
com uma medida sem
desperdícios.
Cada minúcia um
sacramento,
como uma oferenda ao
peso da noite.
Todas as tuas horas
se justificam
Quando passas da copa
à sala de estar,
onde estão os
retratos
que apreciam os teus
comentários.
Fixas a lei de todos
os dias
e a ave dominical se
entreabre
com as cores do fogo
e as espumas do guisado.
Quando um copo se
parte,
o que tilinta é o teu
riso.
O centro da casa
voa como um ponto na
linha.
Em teus pesadelos,
chove
interminavelmente
sobre a coleção de
arbustos
anões e o flamboyant
subterrâneo.
Se ficasses atordoada,
o firmamento, partido
em lanças de mármore,
se lançaria sobre
nós.
Fevereiro de 1976
Referência:
LIMA, José Lezama. La mujer y la casa. In: MIRANDA, Rocío (Ed.). 24 poetas latinoamericanos. Selección y prólogo de Francisco Serrano. 1. ed. México, D.F.: CIDCLI, 1997. p. 89. (Coedición “Latinoamericana”)
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