Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 15 de fevereiro de 2026

José Lezama Lima - A mulher e a casa

Este poema de Lezama possui um título homônimo a este outro, de João Cabral de Melo Neto, contudo, com mirada diferente sobre a conexão em apreço: enquanto o autor pernambucano propõe uma visão mais arquitetônica e funcional da sedução feminina, comparando-a ao interior de uma casa que atrai não pela aparência externa, mas pela organização interna e pelos espaços vazios que convidam à exploração, o poeta cubano apresenta a mulher como uma força ordenadora que transforma o cotidiano doméstico em ritual sagrado, elevando as tarefas simples da casa a um plano quase mítico de transcendência.

 

Lezama celebra a mulher como centro vital e estabilizador do lar, cujo riso ressoa como resistência ao caos e cuja presença outorga sentido e leveza a tudo ao seu redor, mesmo nos momentos mais difíceis ou sombrios: pela mediação dos veneráveis atos dessa mulher-sacerdotisa, o quotidiano se converte, no universo doméstico, num ritual sagrado orientado a cuidados e propósitos bem definidos.

 

J.A.R. – H.C.

 

José Lezama Lima

(1910-1976)

 

La mujer y la casa

 

Hervías la leche

y seguías las aromosas costumbres del café.

Recorrías la casa

con una medida sin desperdicios.

Cada minucia un sacramento,

como una ofrenda al peso de la noche.

Todas tus horas están justificadas

al pasar del comedor a la sala,

donde están los retratos

que gustan de tus comentarios.

Fijas la ley de todos los días

y el ave dominical se entreabre

con los colores del fuego

y las espumas del puchero.

Cuando se rompe un vaso,

es tu risa la que tintinea.

El centro de la casa

vuela como el punto en la línea.

En tus pesadillas,

llueve interminablemente

sobre la colección de matas

enanas y el flamboyán subterráneo.

Si te atolondraras

el firmamento roto

en lanzas de mármol,

se echaría sobre nosotros.

 

Febrero y 1976

 

A leiteira

(Johannes Vermeer: pintor holandês)

 

A mulher e a casa

 

Fervias o leite

e seguias os distintivos aromas do café.

Percorrias a casa

com uma medida sem desperdícios.

Cada minúcia um sacramento,

como uma oferenda ao peso da noite.

Todas as tuas horas se justificam

Quando passas da copa à sala de estar,

onde estão os retratos

que apreciam os teus comentários.

Fixas a lei de todos os dias

e a ave dominical se entreabre

com as cores do fogo

e as espumas do guisado.

Quando um copo se parte,

o que tilinta é o teu riso.

O centro da casa

voa como um ponto na linha.

Em teus pesadelos,

chove interminavelmente

sobre a coleção de arbustos

anões e o flamboyant subterrâneo.

Se ficasses atordoada,

o firmamento, partido

em lanças de mármore,

se lançaria sobre nós.

 

Fevereiro de 1976

 

Referência:

 

LIMA, José Lezama. La mujer y la casa. In: MIRANDA, Rocío (Ed.). 24 poetas latinoamericanos. Selección y prólogo de Francisco Serrano. 1. ed. México, D.F.: CIDCLI, 1997. p. 89. (Coedición “Latinoamericana”)

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