A escritora e
literata mineira celebra o poder transformador da arte e da palavra, enaltecendo
a criação poética em suas múltiplas dimensões – arquitetônica, filosófica, geográfica,
corporal e mecânica –, não somente um simples objeto literário, mas uma
entidade viva, complexa e plena de significados, a conectar o humano com o
divino, o terreno com o celestial, o individual com o universal.
Verdadeiro umbral que
dá acesso ao desconhecido, à expansão da percepção, o poema atua como uma lente
através da qual podemos vislumbrar as dualidades fundamentais de que se compõe a
realidade, quer no plano externo quer no interno, neste último caso, ao se
converter numa forma de cartografar as profundezas da alma humana, explorando
tanto as suas superfícies mais calmas quanto os seus impetuosos “vulcões”.
Entregar-se incondicionalmente ao exercício da Lírica constitui, por
conseguinte, uma experiência tanto física quanto emocional: ao manifestar-se por meio da linguagem – esse recurso simbólico
que organiza pensamentos, emoções e significados, conectando sujeitos e mundos –,
o poeta finda por transformar o poema num catalisador de mudanças, embebendo-o com
os nossos esforços mais sublimes, nossos pesares, nossas paixões.
J.A.R. – H.C.
Yeda Prates Bernis
(n. 1926)
Arquitetura
O poema
e sua arquitetura:
portas e janelas
abertas ao infinito.
O poema
e sua filosofia:
vislumbra no vitral,
o Ser e a Coisa.
O poema
e sua geografia:
mapeia oceanos
e vulcões de emoção.
O poema
e seu corpo:
suor e lágrima
entre vogais e
consoantes.
O poema
e sua maquinação:
asperge estrelas
no humano coração.
Catedral de Salisbury
vista dos prados
(John Constable:
pintor inglês)
Referência:
BERNIS, Yeda Prates. Arquitetura. In: __________. Cantata: antologia poética. Belo Horizonte, MG: Ed. da autora, 2004. p. 42.
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