Este poema de Assumpção
é um chamado à resistência, à reconstrução e à reafirmação da identidade e da
dignidade de um povo historicamente oprimido – os negros –, eles que, paradoxalmente,
sendo maioria neste país, permanecem, em grande medida, à margem de tudo aquilo
que ajudaram a construir, sendo sistematicamente silenciados ou escarnecidos.
Mas dessa história de
alienação e de isolamento, impostos pelas estruturas de poder, há de surgir, com
força e determinação, a figura do negro como uma fênix, erguendo-se de toda a ruína
fomentada pelas barreiras físicas e simbólicas que perfazem os processos
discriminatórios, já agora com as suas asas bem abertas, num de voo de
libertação para um futuro mais justo e equitativo.
J.A.R. – H.C.
Carlos de Assumpção
(n. 1927)
Fênix
Riram de nossos
valores
Apagaram os nossos
sonhos
Pisaram a nossa
dignidade
Sufocaram a nossa voz
Nos transformaram em
uma ilha
Cercada de mentiras
por todos os lados
Nos dividiram
Nos puseram à margem
de tudo
Irmãos
Precisamos
reconstruir a nossa vida
Precisamos conquistar
nosso lugar
Na casa que um dia
nós edificamos
E onde não
conseguimos entrar
Precisamos reacender
os nossos sonhos
Precisamos levantar a
nossa voz
Precisamos derrubar
A muralha de rocha e
cal
Que ergueram em torno
de nós
Em: “Protesto” (1982)
A Fênix
(Teresa Wing: artista
canadense)
Referência:
ASSUMPÇÃO, Carlos de.
Fênix. In: __________. Não pararei de gritar: poemas reunidos.
Organização de Alberto Pucheu. 1. ed. São Paulo, SP: Companhia das Letras,
2020. p. 19.
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