Neste poema de Kamala,
a falante reflete sobre o significado do passado na casa de sua avó – um lugar de
calor humano, no qual usufruiu o seu tempo de infância –, confrontando-o com o
momento presente, em que não experimenta plenitude afetiva, eis que vulnerável e
dependente de “pequenos trocados” de amor, deixando-a a um passo de certa
espécie de alienação emocional.
Marcante é a forma
como a poetisa indiana tece encadeamentos entre a situação a que ora está
exposta – relações de bem-querer fragmentadas ou superficiais, tão comuns em nossas
sociedades de interesses utilitários –, e o estado atual da casa de sua avó, assolada
por elementos de degradação e de ruptura com tudo aquilo que, outrora,
representou acolhimento incondicional e sabedoria.
J.A.R. – H.C.
Kamala Das
(1934-2009)
My Grandmother’s
House
There is a house now far away where once
I received love... That woman died,
The house withdrew into silence, snakes moved
Among books I was then too young
To read, and my blood turned cold like the moon.
How often I think of
going
There, to peer
through blind eyes of windows or
Just listen to the
frozen air,
Or in wild despair,
pick an armful of
Darkness to bring it
here to lie
Behind my bedroom
door like a brooding
Dog... you cannot
believe, darling,
Can you, that I lived
in such a house and
Was proud, and
loved... I who have lost
My way and beg now at
strangers’ doors to
Receive love, at
least in small change?
A avó no quintal
(Oksana Ivanyuk:
artista ucraniana)
A Casa da Minha Avó
Há uma casa agora
distante, onde outrora
Recebi amor... Aquela
mulher faleceu,
A casa se recolheu ao
silêncio, as serpentes se moviam
Entre livros que, então,
eu era jovem demais
Para ler, e o meu
sangue se tornou frio como a lua.
Quantas vezes cogito
em ir até lá,
Para espreitar
através dos olhos cegos das janelas ou
Simplesmente ouvir o
ar gelado,
Ou, num desespero
selvagem, recolher um punhado de
Escuridão para o
trazer até aqui e o deixar
Atrás da porta do meu
quarto como se fosse um cão
A ruminar... não
podes acreditar, querido,
– Podes? –, que vivi
em uma casa assim e
Tinha orgulho e era
amada... Eu que perdi
Meu caminho e agora
imploro à porta de estranhos
Para receber amor,
pelo menos em pequenos trocados?
Referência:
DAS, Kamala. My grandmother’s house. In: PARTHASARATHY, R. (Ch. & Ed.). Ten twentieth century indian poets. 6th impr. New Delhi, IN: Oxford University Press, 2002. p. 23-24.
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