Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

D. H. Lawrence - A Nau da Morte

Publicado postumamente, em 1932, o presente poema pertence à coletânea “Last Poems” (“Últimos Poemas”), uma recolha dos poemas escritos por Lawrence entre 1928 e 1930: fixados, assim tão brevemente, os necessários marcos temporais, nota-se, por corolário, que se trata de uma composição poética a muito pressagiar a morte próxima do próprio autor.

 

A morte surge nos versos em questão não exatamente como um final absoluto, senão como uma transição, uma “longa jornada para o esquecimento”, um processo gradual rumo à transcendência e à renovação, sendo urgente que nos preparemos ativamente para essa travessia, equipando-nos com provisões que nos reforcem a fé e a esperança nos incógnitos programas da ordem cósmica.

 

Deve-se buscar, segundo as orientações do falante, uma paz interior genuína, um verdadeiro “quietus” (descanso ou paz), alcançável não por meio de um ato impulsivo de desespero – entenda-se bem, neste ponto, a alusão ao suicídio –, mas pela aceitação do ciclo natural de vida e morte, de destruição e criação, ao fim do qual a alma regressa ao lar para vivenciar um processo de renascimento espiritual.

 

J.A.R. – H.C.

 

D. H. Lawrence

(1885-1930)

 

The Ship of Death

 

I

 

Now it is autumn and the falling fruit

and the long journey towards oblivion.

 

The apples falling like great drops of dew

to bruise themselves an exit from themselves.

 

And it is time to go, to bid farewell

to one’s own self, and find an exit

from the fallen self.

 

II

 

Have you built your ship of death, O have you?

O build your ship of death, for you will need it.

 

The grim frost is at hand, when the apples will fall

thick, almost thundrous, on the hardened earth.

 

And death is on the air like a smell of ashes!

Ah! can’t you smell it?

 

And in the bruised body, the frightened soul

finds itself shrinking, wincing from the cold

that blows upon it through the orifices.

 

III

 

And can a man his own quietus make

with a bare bodkin?

 

With daggers, bodkins, bullets, man can make

a bruise or break of exit for his life;

but is that a quietus, O tell me, is it quietus?

 

Surely not so! for how could murder, even self-murder

ever a quietus make?

 

IV

 

O let us talk of quiet that we know,

that we can know, the deep and lovely quiet

of a strong heart at peace!

 

How can we this, our own quietus, make?

 

V

 

Build then the ship of death, for you must take

the longest journey, to oblivion.

 

And die the death, the long and painful death

that lies between the old self and the new.

 

Already our bodies are fallen, bruised, badly bruised,

already our souls are oozing through the exit

of the cruel bruise.

 

Already the dark and endless ocean of the end

is washing in through the breaches of our wounds,

already the flood is upon us.

 

Oh build your ship of death, your little ark

and furnish it with food, with little cakes, and wine

for the dark flight down oblivion.

 

VI

 

Piecemeal the body dies, and the timid soul

has her footing washed away, as the dark flood rises.

 

We are dying, we are dying, we are all of us dying

and nothing will stay the death-flood rising within us

and soon it will rise on the world, on the outside world.

 

We are dying, we are dying, piecemeal our bodies are dying

and our strength leaves us,

and our soul cowers naked in the dark rain over the flood,

cowering in the last branches of the tree of our life.

 

VII

 

We are dying, we are dying, so all we can do

is now to be willing to die, and to build the ship

of death to carry the soul on the longest journey.

 

A little ship, with oars and food

and little dishes, and all accoutrements

fitting and ready for the departing soul.

 

Now launch the small ship, now as the body dies

and life departs, launch out, the fragile soul

in the fragile ship of courage, the ark of faith

with its store of food and little cooking pans

and change of clothes,

upon the flood’s black waste

upon the waters of the end

upon the sea of death, where still we sail

darkly, for we cannot steer, and have no port.

 

There is no port, there is nowhere to go

only the deepening black darkening still

blacker upon the soundless, ungurgling flood

darkness at one with darkness, up and down

and sideways utterly dark, so there is no direction any more

and the little ship is there; yet she is gone.

She is not seen, for there is nothing to see her by.

She is gone! gone! and yet

somewhere she is there.

Nowhere!

 

VIII

 

And everything is gone, the body is gone

completely under, gone, entirely gone.

The upper darkness is heavy as the lower,

between them the little ship

is gone

she is gone.

 

It is the end, it is oblivion.

 

IX

 

And yet out of eternity a thread

separates itself on the blackness,

a horizontal thread

that fumes a little with pallor upon the dark.

 

Is it illusion? or does the pallor fume

A little higher?

Ah wait, wait, for there’s the dawn,

the cruel dawn of coming back to life

out of oblivion.

 

Wait, wait, the little ship

drifting, beneath the deathly ashy grey

of a flood-dawn.

 

Wait, wait! even so, a flush of yellow

and strangely, O chilled wan soul, a flush of rose.

 

A flush of rose, and the whole thing starts again.

 

X

 

The flood subsides, and the body, like a worn sea-shell

emerges strange and lovely.

And the little ship wings home, faltering and lapsing

on the pink flood,

and the frail soul steps out, into the house again

filling the heart with peace.

 

Swings the heart renewed with peace

even of oblivion.

 

Oh build your ship of death, oh build it!

for you will need it.

For the voyage of oblivion awaits you.

 

Em: “Last Poems” (1932)

 

Nau em luta contra

ondas e tempestades no mar

(Mounir Khalfouf: artista marroquino)

 

A Nau da Morte

 

I

 

Agora é outono e o cair das frutas

e a longa jornada para o esquecimento.

 

Como pesadas gotas de orvalho, caem as maçãs,

para, ferindo-se, achar uma saída de si mesmas.

 

E é tempo de partir, dizer adeus

a nosso próprio eu, e achar uma saída

do eu que caiu.

 

II

 

Já construíste a tua nau da morte, já?

Ah! constrói a tua nau da morte, pois dela vais precisar.

 

Aproxima-se a geada implacável, quando caem as maçãs

pesadas, quase trovejantes, na terra endurecida.

 

E a morte está no ar, com um cheiro de cinzas.

Pois não sentes esse odor?

 

E no corpo machucado a alma assustada

põe-se a tremer, esconde-se do frio

que sopra pelas frestas.

 

III

 

E pode um homem obter a sua quitação

com um mero estilete?

 

Com espadas, balas, estiletes pode o homem

abrir uma ferida ou fratura que dê saída a sua vida?

Mas é isto uma quitação, ah! dizei-me, é uma quietação?

 

Certo que não! pois como pode o assassino, ou mesmo o suicida

jamais alcançar uma quitação?

 

IV

 

Oh! falemos da quietude que conhecemos,

 

da que podemos conhecer, a profunda, desejada quietude

de um forte coração em paz!

 

Como podemos isto – a nossa própria quitação nos dar?

 

V

 

Constrói então a nau da morte, pois deves encetar

a mais longa jornada rumo ao oblívio.

 

E deves morrer a morte, a longa, penosa morte

que jaz entre o velho e o novo eu.

 

Já caem nossos corpos, gravemente machucados,

já nossas almas escorrem pelo talho

da chaga cruel.

 

O escuro e infindo oceano do fim

já nos banha pelas brechas de nossas feridas

e a maré alta já avança sobre nós.

 

Ah! constrói a tua nau da morte, tua arca pequenina

e trata de provê-la de alimento, bolinhos e vinho,

para o escuro voo rumo ao fundo oblívio.

 

VI

 

Aos pedaços morre o corpo, e a alma tímida

já tem os pés alagados pela enchente que sobe escura.

 

Já estamos morrendo, morrendo, estamos todos morrendo

e nada deterá a montante maré da morte em nós,

e logo ela atingirá até o mundo, o mundo lá fora.

 

Estamos morrendo, morrendo, pouco a pouco, nossos corpos

morrendo,

nossa força nos deixando,

e nossa alma se acovarda, nua sob a chuva escura que cai

na inundação,

encolhe-se nos últimos ramos da árvore de nossa vida.

 

VII

 

Estamos morrendo, morrendo, e tudo que podemos

agora é ter vontade de morrer, e construir a nau

da morte, que nos transporte a alma em sua mais longa jornada.

 

Um pequenino navio com remos, e alimento,

alguma louça e mais equipamentos

adequados e prontos para a partida da alma.

 

Agora, lança às águas o pequeno navio, agora que o corpo morre

e a vida se despede, lança a alma frágil

no frágil navio da coragem, na arca da fé,

com sua provisão de alimento, caçarolas,

e uma muda de roupa –

lança-o sobre a negra expansão do oceano

sobre as águas do fim,

sobre o mar da morte, onde ainda velejamos

às escuras, pois não temos leme, nem porto.

 

Não há porto, não há aonde ir,

só a treva a adensar-se, e escurecendo ainda

mais negra sobre o oceano sem som, sem marulho,

escuridão em pacto com a escuridão, em cima, embaixo

e dos lados tudo escuro, e, pois, não há mais direção.

E o pequenino navio lá está; entretanto, já se foi.

Ninguém o vê, pois não há nada que ajude a vê-lo.

Partiu! partiu! contudo

estará em algum lugar.

Em lugar nenhum!

 

VIII

 

E tudo se foi, foi-se o corpo

afundando inteiramente, de todo, de todo desaparecido.

A escuridão lá em cima pesa tal como lá em baixo –

entre elas a pequenina nau se foi

partiu.

 

É o fim, é o oblívio.

 

IX

 

Mas lá da eternidade um fio

se separa da escuridão,

um fio horizontal

que um pouco se esgarça em palor contra a treva.

 

Será ilusão? ou o palor já fumega

um pouco mais alto?

Ah! espera, espera, pois é a madrugada,

a cruel madrugada da volta à vida

fora do esquecimento.

 

Espera, espera, o pequeno navio

à deriva, sob o cinzento esmaecido, lívido,

de um dilúvio de alvorada.

 

Assim mesmo, espera, espera – um jorro amarelo –

e, estranhamente, ó pálida alma gelada, um jorro de rosa!

 

Um jorro de rosa e tudo recomeça outra vez.

 

X

 

A maré esvazia, e o corpo, como uma concha gasta

emerge estranho e lindo.

E a nau pequenina voa para a sua morada, cambaleando,

escorregando

sobre as águas rosadas,

e a alma frágil desembarca de volta ao lar –

pleno de paz o coração.

 

E o coração bate renovado pela paz,

até do esquecimento.

 

Ah! constrói a tua nau da morte, constrói!

que vais dela precisar.

Pois a viagem do oblívio te espera.

 

Em: “Últimos Poemas” (1932)

 

Referência:

 

LAWRENCE, D. H. The ship of death / A nau da morte. Tradução de Aíla de Oliveira Gomes. In: __________. Alguma poesia. Seleção, tradução e introdução de Aíla de Oliveira Gomes. Edição bilíngue. São Paulo, SP: T. A. Queiroz, 1991. Em inglês: 192, 194, 196 e 198; em português: 193, 195, 197 e 199. (Biblioteca de Letras e Ciências Humanas; v. 6)

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