Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Maurice Rollinat - Asseio

O poeta captura os gestos quotidianos de um gato em seu protocolo de asseio, com um toque de humor e admiração: Rollinat vai bem além da mera descrição dos movimentos e da entrega completa do felino a esse ritual quase sagrado, pois que, com um olhar percuciente, tenta apreender o lado mais manifesto de seu refinamento e natural magnetismo.

 

Trata-se de um ato não somente funcional, mas também estético, já que o bichano busca melhorar a sua aparência, ainda que tal preocupação possa ter algo de instintivo, notadamente ao vivenciar os seus momentos de liberdade, autonomia e intimidade – neste último caso, alinhando-o a um bom estado para o flerte que costuma empreender em suas caminhadas sobre as telhas cobertas de musgo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Maurice Rollinat

(1846-1903)

 

Toilette

 

À l’œuvre maintenant! Toilette et gratterie

L’absorbent tout entier. Le chat,

Si propre tel qu’il est, si bien peigné déjà,

Se lisse avec coquetterie.

 

Que par hasard un poil se colle sur sa langue,

Pour l’avaler, le miauleur

Grimace en mâchonnant, fait comme un beau parleur

Qui s’empêtre dans sa harangue.

 

A piochement de tête onduleux, brusque et drôle,

II se râpe le bas du cou;

Des griffes et des dents il insiste beaucoup

Aux démangeaisons de l’épaule.

 

Son opération, d’un arrêt s’entrecoupe:

II tend son regard et son flair,

Et le col et les reins en arc, et la cuisse en l’air,

Lèche les abords de sa croupe.

 

Sans voir ce que la pluie en tapotant gribouille

Sur la crasse de son carreau,

II humecte longtemps le caoutchouc noiraud

De sa patte, et se débarbouille.

 

Éveillée à présent, mutine se détache

Sur un fond d’ombre vague aux clairs-obscurs tremblants,

Sa frimousse qui montre espacés et tout blancs

Les poils raides et droits lui servant de moustache.

 

Mais la pluie a cessé. Quelqu’un entre soudain.

Le matou sort d’un bond, gagne cour et jardin,

Et bientôt on le voit marchant à pas tranquilles

Au long du vieux chenal, sur la mousse des tuiles.

 

Dans: “Les Bêtes” (1911)

 

Um gatinho lambendo a pata

(Henriëtte Ronner-Knip: artista belgo-holandesa)

 

Asseio

 

Mãos à obra! O asseio e o afiar das garras

Absorvem-no por inteiro. O gato,

Limpo assim como está, já bem desemaranhado,

Lustra-se todo com sobejo donaire.

 

Se por acaso um pelo se lhe agarra à língua,

Para o engolir, o bichano

Careteando ao mastigá-lo, age como um loquaz prosista

Que se enreda em sua arenga.

 

Com um menear ondulante da cabeça, brusco e cômico,

Põe-se a lustrar a base do pescoço;

Com as garras e os dentes, muito se obstina

Em fazer cessar a comichão em seu ombro.

 

Sua operação interrompe-se por uma pausa:

Apura o olhar e o olfato,

E com o colo e os lombos em arco, e o fêmur no ar,

Lambe as bordas de seu traseiro.

 

Sem se dar conta do salpicar da chuva ao cair

Sobre a fuligem dos ladrilhados por onde vagueia,

Umedece por bastante tempo os coxins enegrecidos

De suas patas e os lava.

 

Desperto agora, destaca-se amotinado

Contra um fundo de sombras vagas em trêmulos claros-escuros,

Com o rosto a mostrar os pelos lisos e retos

Que lhe compõem o bigode, espaçados e brancos por inteiro.

 

Entrementes a chuva cessou. Alguém entra de repente.

O gato sai de um salto, chega ao pátio e ao jardim,

E logo o vemos a caminhar tranquilamente

Ao longo da velha calha, sobre o musgo das telhas.

 

Em: “Os Animais” (1911)

 

Referência:

 

ROLLINAT, Maurice. Toilette. In: NOVARINO-POTHIER, Albine (Éd.). Le chat em 60 poèmes. Paris, FR: Omnibus, 2013. p. 16-17.

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