O poeta captura os
gestos quotidianos de um gato em seu protocolo de asseio, com um toque de humor
e admiração: Rollinat vai bem além da mera descrição dos movimentos e da
entrega completa do felino a esse ritual quase sagrado, pois que, com um olhar
percuciente, tenta apreender o lado mais manifesto de seu refinamento e natural
magnetismo.
Trata-se de um ato não
somente funcional, mas também estético, já que o bichano busca melhorar a sua
aparência, ainda que tal preocupação possa ter algo de instintivo, notadamente ao
vivenciar os seus momentos de liberdade, autonomia e intimidade – neste último
caso, alinhando-o a um bom estado para o flerte que costuma empreender em suas
caminhadas sobre as telhas cobertas de musgo.
J.A.R. – H.C.
Maurice Rollinat
(1846-1903)
Toilette
À l’œuvre maintenant!
Toilette et gratterie
L’absorbent tout
entier. Le chat,
Si propre tel qu’il
est, si bien peigné déjà,
Se lisse avec
coquetterie.
Que par hasard un
poil se colle sur sa langue,
Pour l’avaler, le
miauleur
Grimace en
mâchonnant, fait comme un beau parleur
Qui s’empêtre dans sa
harangue.
A piochement de tête
onduleux, brusque et drôle,
II se râpe le bas du
cou;
Des griffes et des
dents il insiste beaucoup
Aux démangeaisons de
l’épaule.
Son opération, d’un
arrêt s’entrecoupe:
II tend son regard et
son flair,
Et le col et les
reins en arc, et la cuisse en l’air,
Lèche les abords de
sa croupe.
Sans voir ce que la
pluie en tapotant gribouille
Sur la crasse de son
carreau,
II humecte longtemps
le caoutchouc noiraud
De sa patte, et se
débarbouille.
Éveillée à présent,
mutine se détache
Sur un fond d’ombre
vague aux clairs-obscurs tremblants,
Sa frimousse qui montre
espacés et tout blancs
Les poils raides et
droits lui servant de moustache.
Mais la pluie a
cessé. Quelqu’un entre soudain.
Le matou sort d’un
bond, gagne cour et jardin,
Et bientôt on le voit
marchant à pas tranquilles
Au long du vieux
chenal, sur la mousse des tuiles.
Dans: “Les Bêtes”
(1911)
Um gatinho lambendo a
pata
(Henriëtte
Ronner-Knip: artista belgo-holandesa)
Asseio
Mãos à obra! O asseio
e o afiar das garras
Absorvem-no por
inteiro. O gato,
Limpo assim como
está, já bem desemaranhado,
Lustra-se todo com sobejo
donaire.
Se por acaso um pelo
se lhe agarra à língua,
Para o engolir, o bichano
Careteando ao
mastigá-lo, age como um loquaz prosista
Que se enreda em sua
arenga.
Com um menear
ondulante da cabeça, brusco e cômico,
Põe-se a lustrar a base
do pescoço;
Com as garras e os
dentes, muito se obstina
Em fazer cessar a
comichão em seu ombro.
Sua operação
interrompe-se por uma pausa:
Apura o olhar e o
olfato,
E com o colo e os
lombos em arco, e o fêmur no ar,
Lambe as bordas de
seu traseiro.
Sem se dar conta do salpicar
da chuva ao cair
Sobre a fuligem dos ladrilhados
por onde vagueia,
Umedece por bastante
tempo os coxins enegrecidos
De suas patas e os
lava.
Desperto agora, destaca-se
amotinado
Contra um fundo de sombras
vagas em trêmulos claros-escuros,
Com o rosto a mostrar
os pelos lisos e retos
Que lhe compõem o
bigode, espaçados e brancos por inteiro.
Entrementes a chuva
cessou. Alguém entra de repente.
O gato sai de um
salto, chega ao pátio e ao jardim,
E logo o vemos a
caminhar tranquilamente
Ao longo da velha
calha, sobre o musgo das telhas.
Em: “Os Animais”
(1911)
Referência:
ROLLINAT, Maurice. Toilette. In: NOVARINO-POTHIER, Albine (Éd.). Le chat em 60 poèmes. Paris, FR: Omnibus, 2013. p. 16-17.
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