Nesta homenagem pessoal
à arte da poesia, Dickinson, empregando metáforas arquitetônicas e naturais,
fala-nos desse espaço infinito de “possibilidades”, de fluidas fronteiras, onde
cada palavra pode ser uma janela voltada para novos mundos, e cada verso, um
teto sob o qual alentamos os nossos mais profundos sonhos.
Veja-se que a poetisa
estabelece um contraste entre o tangível – a prosa – e o ilimitado – a poesia,
elevando o ato de redigir poemas a um nível de quase sacralidade: nessa morada
de múltiplas oportunidades imaginativas, pode-se abraçar o ambíguo, o sensorial
e, até mesmo o metafísico, ou mais extensivamente, toda uma panóplia de ideias capazes
de nos levar – o poeta e a sua audiência – a haurir o que há de mais sublime no
“Paraíso”.
A.R. – H.C.
Emily Dickinson
(1830-1886)
I dwell in
Possibility
I dwell in
Possibility –
A fairer House than
Prose –
More numerous of
Windows –
Superior – for Doors
–
Of Chambers as the
Cedars –
Impregnable of eye –
And for an
everlasting Roof
The Gambrels of the
Sky –
Of Visitors – the
fairest –
For Occupation – This
–
The spreading wide my
narrow Hands
To gather Paradise –
Casa com janelas
vermelhas
(Shelly Du: pintora
australiana)
Moro na possibilidade
Moro na
possibilidade,
Casa mais bela que a
prosa,
Com muito mais
janelas
E bem melhor, pelas
portas
De aposentos
inacessíveis,
Como são, para o
olhar, os cedros,
E tendo por forro
perene
Os telhados do céu.
Visitantes, só os
melhores;
Por ocupação, só
isto:
Abrir amplamente
minhas mãos estreitas
Para agarrar o
paraíso.
Referência:
DICKINSON, Emily. I dwell in possibility / Moro na possibilidade. Tradução de Ivo Bender. In: __________. Poemas escolhidos. Seleção, tradução e introdução de Ivo Bender. Porto Alegre, RS: L&PM, 2011. Em inglês: p. 44 e 46; em português: 45 e 47. (Coleção “L&PM Pocket”; v. 436)
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