Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Alice Moore Dunbar-Nelson - Sento-me e Costuro

A poetisa norte-americana – ativista política participante do “Renascimento do Harlem” e da luta pelos direitos civis e contra o racismo – examina nestes versos questões relacionadas à identidade e à função da mulher em sociedade: trata-se, com efeito, de uma crítica social à imposição de papéis tão apenas domésticos às mulheres, contrariando suas intenções de participar em assuntos com maiores implicações, em especial – como se depreende dos versos – no contexto de um tipo de conflito que a todos atinge, vale dizer, a guerra.

 

A costura, reiteradamente qualificada como um “ritual inútil”, simboliza a restrição da mulher ao âmbito privado, insuspeita metáfora para a paciência forçada e a repressão dos seus desejos, configuração essa a contrastar com as expectativas sociais mais amplas atribuídas ao mundo masculino, cujos papéis vocacionam-se a firmar na História os nomes e os feitos mais marcantes daqueles que obtêm maior reconhecimento e notoriedade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Alice Moore Dunbar-Nelson

(1875-1915)

 

I Sit and Sew

 

I sit and sew – a useless task it seems,

My hands grown tired, my head weighed down with dreams –

The panoply of war, the martial tred of men,

Grim-faced, stern-eyed, gazing beyond the ken

Of lesser souls, whose eyes have not seen Death,

Nor learned to hold their lives but as a breath –

But – I must sit and sew.

 

I sit and sew – my heart aches with desire –

That pageant terrible, that fiercely pouring fire

On wasted fields, and writhing grotesque things

Once men. My soul in pity flings

Appealing cries, yearning only to go

There in that holocaust of hell, those fields of woe –

But – I must sit and sew.

 

The little useless seam, the idle patch;

Why dream I here beneath my homely thatch,

When there they lie in sodden mud and rain,

Pitifully calling me, the quick ones and the slain?

You need me, Christ! It is no roseate dream

That beckons me – this pretty futile seam,

It stifles me – God, must I sit and sew?

 

Mulher costurando à luz de lamparina

(Harriet Backer: pintora norueguesa)

 

Sento-me e Costuro

 

Sento-me e costuro – uma tarefa vã, ao que parece,

Minhas mãos cansadas, minha cabeça repleta de sonhos –

A panóplia da guerra, a marcha militar dos homens,

De rostos sombrios, olhares severos, a fitarem além do alcance

De almas menores, cujos olhos não divisaram a Morte,

Nem aprenderam a manter suas vidas senão como um sopro –

Mas – devo sentar-me e costurar.

 

Sento-me e costuro – dói-me com desejos o coração –

Aquele terrível préstito, aquele fogo impetuoso que se derrama

Sobre campos devastados, e coisas grotescas e retorcidas

Que uma vez foram homens. Minha alma compadecida lança

Gritos suplicantes, almejando simplesmente unir-se

Àquele holocausto infernal, àqueles campos de aflição –

Mas – devo sentar-me e costurar.

 

A modesta e vã costura, o ocioso remendo;

Por que eu a sonhar aqui sob o meu humilde teto de palha,

Quando jazem ali, na lama encharcada e na chuva,

Chamando-me lastimosamente, os vivos e os mortos?

Precisas de mim, ó Cristo! Não é um sonho cor-de-rosa

Que me acena – esta costura bela e fútil

É o que me tolhe – Deus, devo sentar-me e costurar?

 

Referência:

 

DUNBAR-NELSON, Alice Moore. I sit and sew. In: DOVE, Rita (Ed.). The penguin anthology of twentieth century american poetry. New York, NY: Penguin Books, 2013. p. 28.

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